terça-feira, 6 de junho de 2017

Passarinhos

Vivemos em jaulas... A liberdade é algo que nenhum de nós tem de fato; é uma mera ilusão, uma mentira, algo que contamos a nós mesmos para fazer de conta que somos livres. A verdade é que não somos. Não há liberdade. Todos somos presos a alguma coisa. Coisa essa que pode ser qualquer coisa. Ou não coisa. Algo que não é coisa, que não chamamos coisa, pelo menos. A vida é uma coisa? Não sei, depende de quem fala. Mas, estamos presos à vida, assim como estamos presos a nossa própria mortalidade. Todos vamos morrer, simples.
Da mesma forma, este texto está preso com uma introdução mórbida, talvez até demais para o leitor mais amigo, aquele que não gosta de falar nas coisas ruins, que diz que faz mal para os nervos e para o coração. Pois saiba, leitor, que também tu está preso a teus próprios ideais, tuas próprias crenças. E este texto? Claro, tem a introdução, mas, ele também está preso às regras de nossa língua, com a qual estamos presos desde o dia em que nascemos. Qual a solução? Sair da língua? Impossível! Nunca se esquece de sua primeira língua: ela está em teus pensamentos, teus arredores, e está na boca daqueles próximos a ti. E estás tão preso a ela, que ela o força a seguir suas leis, leis feitas por homens brancos e velhos, talvez, ou não... Mas, não importa. Até mesmo nossa noção de poder está presa a essa analogia, por horas tão infeliz, por horas tão alegre e divertida.

Todos estamos presos em diferentes prisões, mas, elas não se dizem prisões! Claro que não! Por que diriam?! Até mesmo as prisões estão presas! Presas a que, o leitor vai perguntar. Ora, como podem estar presas se são elas que prendem!  Pois saiba, leitor, preso pelos limites de sua própria imaginação, ou do acanhamento de deixar seu pensamento voar em uma prisão um pouco maior, que as prisões podem sim estar presas, e elas estão presas em prisões ainda maiores, que têm nomes diferentes toda vez que prendem algo diferente. Para isso, em particular, elas são a ideia ruim que temos de prisões. Ninguém quer ficar numa prisão! Mesmo que diga que quer, talvez preso a desejos duvidosos, presos a ideias mistas de como desejos devem ser, todos querem se ver livres da prisão de um jeito ou de outro!

Vivemos tanto em prisões, e nós desgostamos tanto de prisões, que passamos a vê-las com cores diferentes, para alimentar a ilusão de que somos livres. Ora, mas se liberdade não existe de fato! A liberdade nada mais é do que uma prisão maior, que parece nos permitir sair dela, mas que, na verdade, não deixa.

A maior prova disso é o nosso próprio habitat, o mesmo que nos aprisiona e nos torna dependentes. Sim, as cidades são, assim como tudo o mais é, prisões, prisões dentro de uma prisão ainda maior, chamada estado, que é parte de outra ainda maior, todas mudando de nome: países, continentes, planetas, sistemas, galáxias, o diabo a quatro. Nomeamos de tudo, menos de prisões!
Para continuar a ilusão, falamos que prisões precisam ter muros, muros de concreto! Preferencialmente de cor cinza, a mais sem graça e neutra das cores, que deixa tudo chato, sem vida. Afinal, não há nada pior do que uma prisão!

E o meu leitor, talvez irritado com minha insistência, vai perguntar como nossas cidades podem ser prisões! Não há muros! Não há grades! Como pode ser prisão?
E eu respondo que basta olhar para os prisioneiros. Perceba como todos eles usam seus uniformes, como todos precisam seguir suas doutrinas. E, mais ainda, têm até toque de recolher! Sim, toque de recolher!!

Anda por esses longos e apertados caminhos, chamados ruas, e vê se não há sentinelas à espreita, preparando-se para punir-te por ter cruzado naquela hora. Deveria estar em casa! Se estivesse em casa, tua prisão particular, menos apenas do que tua mente e corpo, não sofreria.

Anda pela rua à noite, aprisionado pela escuridão, e ouve um ronco agudo, um motor, vindo atrás de ti, para ver se não estás aprisionado pelo próprio medo. Olha teus arredores, para veres se tem como fugir! Não terás! As casas e prédios na rua são inacessíveis a ti. Poderiam muito bem ser trocados por grandes muros cinzas, não faria diferença. Tua única esperança seria se voares! Mas, não pode! Estás aprisionado pela biologia de teu corpo, de toda uma história de evolução, que te tirou um rabo e trocou por pernas, mas, sem asas. Então, vais invejar os morcegos, até perceber que eles, também, são aprisionados pelas próprias limitações! Não podem apreciar o que tu aprecia: coisas que tu só aprecia por estar aprisionado no mesmo canto que elas... E até elas te aprisionam.

Ao ler este texto, o leitor vai se enfurecer, e vai exigir ver as correntes que o prendem para que ele ainda leia texto tão revoltante e absurdo! Ele vai notar, então, que precisa apontar as prisões que cercam o meu texto! Ele quer ver-me punido pelas regras, pelas doutrinas! "Onde está a moral? Onde está a solução! De nada adianta apontar se não tem como mudar! Tu és um hipócrita! Um fascínora! Um meliante! Um estabanado! Um ventríloquo!!!", e me xingaria com mais palavras, todas presas com sons ameaçadores, e com significados bem diferentes daquilo que o leitor impaciente e irritado, preso pela sua falta de vontade, imagina.

Mas, meu texto não possui lições. Apenas uma lanterna. Uma lanterna hipotética, tristemente... Pois meu texto está preso a seu formato escrito, de letras, sem nada de valor. E, para piorar, meu texto está sendo escrito por um autor preso de sua própria maneira, preso por regras e ideais que ele ouviu a vida toda.

Vivemos aprisionados a tudo. E não direi que não há nada que possamos fazer, já que até o nada é sua própria prisão, dentro de outra, e mais outra, e mais outra.

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