quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sejamos concisos!

Retornando hoje de uma conferência amíssima sobre o mal na Literatura, deixei-me levar pelos pensamentos enquanto voltava para casa, misturando o que ouvi com o que venho aprendendo na maravilhosa cadeira de Estilística, e, no geral, refletindo sobre todos esses assuntos combinados.

Eis que, logo antes de minha parada, eu me deparo com a fachada de uma instituição religiosa, creio que evangélica, bastante... ocupada, digamos assim.
Além do nome indicado da instituição (o qual não citarei por motivos óbvios), a fachada incluía uma série de dizeres referindo-se a qualidades direcionadas a Jesus Cristo.
O comum dentre todas elas era o início "O Único", seguido de uma pequena frase de cunho esperado desse tipo de coisa.

No entanto, acredito que por conta do entusiasmo de quem produziu tal fachada, o grande número de frases me pareceu, perdão pela grosseria, um tanto mal pensado, duas delas em particular fixando-se fortemente em minha mente:

"O Único que morreu por você."

"O Único que voltará em breve."

Dentro do contexto religioso, nenhuma das frases é absurda, muito menos provida de sentidos dúbios. Ambas, na verdade, tratam do ponto máximo do Cristianismo, que é a morte de Cristo pelos pecadores, e sua ressurreição para salvar os pecadores.
No entanto, ao extraí-las de seu contexto, ou melhor, ao pô-las em contraste com contextos externos, não é difícil perceber que elas acabam que sendo contraditórias.
O quanto, você pergunta? Pois bem.

Primeiro, falemos daquele que "morreu por você.". Ao dizer isso, temo que o uso de palavras, ou melhor, o uso de "O Único" no começo cria certos problemas; em especial, cria-se o ponto de que, em nossas vidas, no nosso dia a dia, pode-se dizer que muitos morreram por nós, em maneiras diferentes.
O caso que me veio à mente foi o de soldados e guerreiros, pessoas que lutam, e morrem, para garantir o nosso estilo de vida como o conhecemos e, por extensão, nós mesmos. Em outros termos, eles morreram por nós e, tristemente, continuam a morrer.

O segundo caso é ainda mais simples! Ao sair de casa, com o mero intuito de passar em uma padaria, você voltará em breve. Obviamente, não há a segurança e certeza absoluta como no caso de Cristo, mas, é provável que você voltará em breve.

Essa minha reflexão está sendo feita para apontar o quanto se retira de algo quando você trata em explicá-lo.
Fosse a expressão "O Único" seguida do nome de Jesus, tenho convicção de que eu não estaria escrevendo estes pontos como estou agora, visto que o significado da palavra, somado à sua letra inicial maiúscula, já dariam toda a informação de que preciso, sem adereços desnecessários.

Isso me lembrou de uma discussão em uma das aulas de Linguística que tive, na qual foi deixado claro que, ao categorizar algo como Deus, não se está fazendo nada mais do que limitar sua capacidade, existência, seja o que for.
Por exemplo: ao falar de Deus como um "Deus do Infinito", estou deixando nas entrelinhas, mesmo que inconscientemente, que há um Deus do Finito. E isso vale para muitas outras coisas: o Possível e o Impossível, o Tudo e o Nada, e por aí vai.
E ainda vou mais longe: afirmo que categorizar Deus como um "Deus de todas as coisas" também não é suficiente à sua majestade, à qual palavras não são suficientes para descrever. Pois, eu teria de continuar dizendo que Ele também é Deus "das coisas que não são, das coisas que seriam, das que não seriam, das que serão, das que não serão, de nenhuma das coisas", e quaisquer outras variáveis, possivelmente infinitas, que a categoria exigirá.

Isso ocorre porque a língua é uma criação humana, cheia de limitações, assim como nós, seus criadores, também tão cheios de limitações, coisas que Deus não tem.

Em resumo, não há sucesso em descrever aquilo que é indescritível, já que palavras apenas diminuem aquilo que é infinitamente grande e superior, dando-lhe limites humanos.
Por vezes, em especial daquilo que nos agrada e que nós adoramos, o conciso é muito mais favorável, e digno, do prolixo, mesmo que não seja ainda o necessário para tudo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário