sábado, 18 de março de 2017

Crítica: Kong: A Ilha da Caveira (2017)



Há alguns anos, ao escrever minha crítica sobre a versão de 2014 de Godzilla, refleti um pouco sobre como franquias de sucesso nos dias de hoje tinham como inspiração outras mídias. Ao mesmo tempo, refleti sobre como haviam poucas histórias originárias do cinema que estavam sob os holofotes.
Hoje em dia, creio que meu pensamento da época estava focando demais em apenas um dos lados da história: me faltava a maturidade e a ótica necessárias para observar que aquele não era necessariamente o caso. Obviamente, os filmes baseados em outras mídias têm grande apelo e geram receitas bilionárias, mas, também existem aqueles filmes originais e que chamam sua cota de atenção.

Me peguei fazendo essa reflexão perante o anúncio, e chegada, da mais nova iteração no grande Universo de Monstros que a Legendary Pictures vem tentando fazer. Depois de trazer, com relativo sucesso, o temido kaiju japonês para as telas ocidentais, chegou a vez de colocar sob os holofotes um oponente antigo, mais velho e certamente merecedor de uma expansão; chegou a vez de trazer de volta o mito do grande primata Kong.

Apesar de seus filmes não precisarem de uma introdução, visto a imensa popularidade (e qualidade) que eles tiveram desde seu primeiro lançamento, em 1933, creio que seja válido mencionar: o Kong que dá seu nome a este novo filme não é o grande primata que cai para sua morte do Empire State. A versão de Kong que trataremos aqui não é o King Kong, e, sim, uma variante, baseada na versão japonesa do animal, que combateu o Rei dos Monstros durante os anos 60 em uma produção nipônica.
O novo Kong não é um deus selvagem que recebe sacrifícios; é um guardião, um protetor, que mantém os habitantes de sua ilha a salvo de monstros aterrorizantes e hostis, de um mundo bem mais antigo do que ele mesmo.

Como é de se esperar, perante essas informações, a trama de Kong: A Ilha da Caveira não tem interesse em recontar a tragédia de Ann Darrow, Carl Denham e Jack Driscoll. Não estamos mais nos anos 30, como a versão de Peter Jackson; estamos nos anos 70, já saindo da Guerra do Vietnã, e nossos personagens são militares e homens desiludidos em busca de uma oportunidade para justificar suas escolhas, ao invés dos atores tentando sobreviver à Grande Depressão.

Ao descobrir sobre a misteriosa Ilha da Caveira, o oficial da organização Monarch, William "Bill" Randa (John Goodman), consegue carona em uma expedição para que possa realizar estudos geológicos e procurar por algo não especificado.
Acompanhado por seus assistentes Houston Brooks (Corey Hawkins) e San Lin (Jing Tian), pelo rastreador James Conrad (Tom Hiddleston), a fotógrafa Mason Weaver (Brie Larson), e escoltado pela tropa do Coronel Packard (Samuel L. Jackson), Randa chega à ilha, onde sua expedição logo dá de cara com o imparável Kong.
Em frente a inúmeras fatalidades, somadas ao seu fracasso na Guerra do Vietnã, o Coronel Packard logo se prepara para vingar seus homens e eliminar Kong da face da Terra, sem noção de que isso pode dar espaço para inimigos ainda maiores e mais perigosos.

Apesar de fazer o possível para se diferenciar dos filmes clássicos do grande primata, ainda muito cedo no filme percebe-se que a nova trama não toma precauções para ser verdadeiramente única e inovadora. Kong: A Ilha da Caveira não tem interesse em quebrar paradigmas e estabelecer novos padrões; o foco do filme é entregar uma sequência de ação que seja divertida e frenética, com apenas uma gota de reflexão para manter sua audiência interessada.
Há o questionamento quanto às questões éticas e morais da Guerra do Vietnã (que pode, muito bem, ser interpretado como o efeito das guerras em geral nos combatentes), típicos de histórias que exploram esse período, e há, ao mesmo tempo, a reflexão quanto à superioridade da Mãe Natureza em relação aos seres humanos, que costumam teimar com essa hierarquia.
É válido mencionar que o tema da superioridade da Natureza perante o Homem também se mostrou presente em Godzilla (2014), mas, naquele caso, a analogia era feita por meio de criaturas incontroláveis que haviam de fazer o que tinham de fazer, e cabia a nós, humanos, apenas assistir e esperá-las tomar seu curso. No caso de Kong: A Ilha da Caveira, a analogia está mais para como apenas a Natureza é capaz de conter a si mesma, algo visível na importância que Kong, o predador apex, tem perante a cadeia alimentar de seu território. O núcleo humano (sempre o ponto onde histórias como essa tendem a fazer com pouco esforço notável, apesar de haver interesse em deixá-lo mais interessante, ao menos) serve para demonstrar como a interferência artificial pode causar consequências desastrosas para tudo e todos.
Diferente de Godzilla, no entanto, é o escopo. A trama se passa em um espaço notavelmente menor, e não há aquela escala de destruição vista no filme de 2014. Aqui, tudo ocorre em um lugar mais... "Controlado", digamos assim, embora isso não tire, de maneira alguma, o efeito, por vezes, visceral das excelentes cenas de combate entre os gigantes da Ilha.

Como era de se esperar, ainda mais considerando os materiais promocionais, este é um filme de monstros, e, como tal, não estaria completo sem combates entre criaturas grandiosas. É neste ponto, inclusive, que o filme desenha ainda mais paralelos com o Godzilla de 2014, aproveitando-se do mesmo estilo que fez aquelas cenas terem seus momentos de grandeur, ao mesmo tempo em que é criativo o suficiente para serem memoráveis para sua audiência.

A esta altura, ficaria surpreso se minhas comparações ao Godzilla de 2014 tivessem passado despercebidas e, no caso de leitores pouco informados no assunto, creio que existam algumas dúvidas quanto à insistência neste tópico. Me explico apontando para o desejo da Legendary Pictures de realizar um Universo Cinematográfico que una os dois titãs do cinema, além de algumas outras criaturas. Kong: A Ilha da Caveira é o segundo desses filmes e, além das inúmeras referências a organizações e eventos do filme de 2014 (até truques de edição pareceram compartilhados), ele mostra, bem claramente, seu interesse em ampliar o universo e, mais importante ainda, preparar o território tanto para o vindouro Godzilla 2 quanto para o eventual combate entre os dois titãs em King Kong vs. Godzilla. Sei que, para aqueles desinteressados, a ideia de um filme assim é absurda e que nada de qualidade poderia sair disso. No entanto, perante a qualidade dos dois filmes apresentados até agora, a ideia de um combate entre as novas versões dos monstros simplesmente parece uma oportunidade grande, e magnífica, demais para ser ignorada.

Seja como uma nova visita a um universo em expansão, seja como um filme visto apenas por seus méritos, Kong: A Ilha da Caveira é robusto, divertido e agradável. É o tipo do filme que deve ser assistido com um grande saco de pipocas em mãos, sem que haja foco em quanto sua estrutura narrativa aguenta se colocada perante Shakespeare. Em outras palavras, é um filme onde monstros gigantes lutam, e deve ser apreciado da maneira condizente.

Um comentário:

  1. O filme do Godzila de 2014 [e uma merda! O cara se preocupa mais em mostra as pessoas chatas do que o monstro.

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