quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Minha primeira experiência com Meu Pé de Laranja Lima

Imagem adquirida do
blog Universo Literário.
Nunca li muito do material de José Mauro de Vasconcelos... Na verdade, eu li apenas um livro, e, de todos os que ele já escreveu, me sinto um pouco envergonhado em dizer que apenas fui mais um dos que leu Meu Pé de Laranja Lima, de cabo a rabo.

Como hoje seria o seu aniversário de 95 anos, decidi fazer essa pequena homenagem contando como eu conheci o seu trabalho e como reagi a ele.


A época em que eu li esse livro, o das laranjas, ainda estava nos anos iniciais do Ensino Fundamental, isso há mais de dez anos. Era uma época interessante, em que o filme do Homem-Aranha (ainda) era a melhor coisa do mundo, e ler livros era tããããããããão chaaaaaaaaaaaaato.
Hoje eu me vejo como amante da literatura, apesar de não tão dedicado como eu deveria ser. Poxa vida, ler livros hoje, pra mim, é considerado lazer. Mas, naquela época, era um dever de casa e, como qualquer criança, fazer dever de casa era um porre pra mim.

Digo tudo isso só para deixar claro que eu só li Meu Pé de Laranja Lima porque estava no currículo escolar, e eu, até hoje, nunca entendi como deixaram uma obra dessa ser taxada como paradidático para crianças de 7~12 anos, as mesmas que são muito imaturas ainda pra saber como reagir às diferentes sensações que vão sentir ao longo da vida. Sim, eu sei que é um livro tido como "infanto-juvenil", mas a narrativa de Vasconcelos (que se encarnou no livro com o seu nome de infância), nos mostra uma realidade mais do que dura: ela também é violenta, sádica e depressiva. É o tipo da coisa que faria qualquer marmanjo mundo afora se considerar um homem terrível e insensível por ter comida na mesa.


A infância pobre e sofrida do autor é colocada no livro sem medo ou censura. Ele explica bem tudo o que aconteceu, e algumas das cenas são inacreditavelmente fortes, especialmente para crianças. Uma das cenas mostra ele tentando agradar o pai, desempregado e alcóolatra, cantando uma música que ouviu por aí, mas o pai vai e dá uma surra de chinelo nele por conta do conteúdo impróprio das letras (que, se não me falha a memória, falam de desejar uma mulher nua).

A cena que me fez pirar e me tornou um odiador de carteirinha da Literatura (que, por muitos anos, se resumia à brasileira no meu universo), é a que mostra Zezé passando o feriado do Natal (o maravilhoso dia 25) engraxando sapatos para ajudar a família (que passava por dias muito secos). Pensando na cena agora, ela era triste e tudo, mas admito que não sou tão afetado por ela... Quando eu a li pela primeira vez, tendo apenas uns sete anos, entrei numa crise de choro que não acabava mais. Eu odiava aquela situação toda e, de maneira semelhante ao que eu falei antes, me sentia terrível por ter como ganhar presentes de natal, enquanto o garoto tinha que passar o dia 25 engraxando sapato pra talvez, quem sabe, vai que, conseguir alguma coisa pra comer.
Isso é a realidade dura e depressiva arrombando a porta da sua mente, e segurando uma serra-elétrica, gritando: "QUERIDA, CHEGUEI!". Fiquei com ódio de livros por meses, e, toda vez que eu lembrava daquela cena, me sentia fraco e infeliz. Só fui querer saber de livros muito tempo depois, graças a um livrinho chamado As novas aventuras de Pedro Malasartes, mas isso é história pra outro dia.

O que é história para agora é o fato de esse ter sido um dos livros mais difíceis de ler, não por defeitos ou narrativa má-estruturada... A narrativa desse livro é boa, até demais... Tanto que me traumatizou por ser tão boa. A única coisa que me fez continuar lendo o livro foi o fato de que eu tinha que fazer uma prova toda baseada nele...

Depois dessa parte, comecei a ler o livro com muito mais cuidado, e tenho a impressão de que até cheguei a pular partes inteiras quando via que o negócio começava a apertar, mas nem tenho certeza disso. Na época, eu não era tão aberto a deixar emoção fluir (começo dos anos 2000, homem não podia, sob hipótese alguma, chorar), o que deixou a leitura ainda mais difícil, e o que me proibiu de memorizar muita coisa...

Eu lembro que, quando li pela primeira vez, eu nem fazia ideia que aquela história toda tinha raízes no mundo real, e que o personagem Zezé era o Sr. Vasconcelos. Eu apenas percebi isso quando li o último capítulo, quando o narrador faz um comentário ao Portuga (acho que era esse o apelido do cara). Foi só ali que eu percebi o nome Zezé e comparei com o nome (José) do autor. Não bati minha cabeça na parede porque... Bom, você já conhece a piada.

Hoje em dia, eu admito que eu ainda evito falar Laranja e Lima na mesma frase, não mais por tristeza ou qualquer rancor, mas sim como uma piadinha interna, algo para me lembrar que essa obra quase me deixou doido no passado, e de como ela me marcou, mesmo que não da forma que eu esperaria. Meu respeito pelo livro, mesmo sem tê-lo lido há anos, cresceu muito, e eu me vejo admirado em saber que ele ainda tem um legado tão forte. Se não me engano, até lançaram uma nova adaptação de cinema em 2012, ou foi 2013, então mostra que as pessoas ainda lembram dele.

O que me impressiona é que alguns críticos do exterior dizem que o sr. Vasconcelos é muito injustiçado aqui, e até uma crítica francesa supõe que seja por causa do seu estilo peculiar de "poesia".

Hoje, o Google fez um doodle homenageando o sr. Vasconcelos, e isso me fez sair em busca de entender melhor o que estava havendo. Como curiosidade, foi aí que eu descobri que a Wikipédia tinha uma página completamente vazia do livro... Mas, tudo bem, porque, quando eu chequei de novo, alguma alma bondosa foi lá e escreveu alguma coisa. Não está mais vazia...

Eu termino essa pequena postagem apenas ressaltando que nunca fui fã do trabalho do sr. Vasconcelos, mas, olhando agora para trás, retiro o meu chapéu (mesmo não usando nenhum) e demonstro meu respeito. Só acho que deveriam segurar esses livros e apresentar para os alunos brasileiros durante a adolescência... Tenho a impressão de que eles vão ter uma reação muito melhor ao livro... Isso e é melhor pedir a eles que leiam isso do que tentem entender Memórias Póstumas de Brás Cubas (que é muito, muito bom, mas relativamente complexo) logo no oitavo ano.

Se você quer uma visão um pouco menos pessoal e mais técnica do livro, checa esse vídeo aqui. Ele explora essas coisas bem melhor.

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