sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Treinamento de Narrativa #8

Não preciso mais dizer sobre o que vai ser esse texto...
Tema: Sobrenatural
Narrador: 3a pessoa
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A noite ficava cada vez mais fria na fazenda. Uma névoa fria entrava pelas brechas da porta velha e pálida da casa grande. O escravo Humberto segurava a viga com todo o vigor, mas já estava começando a tremer, temeroso do que via a seguir.

- Pare de tremer, Humberto! - sussurrou Andrade, com a espingarda na mão, olhando sempre para a porta, e, mesmo naquela situação, esbanjando autoridade.
- Discupa ele, sinhô... - sussurrou Fabiano, que estava ao lado de Humberto, e simpatizou com seu medo.
- Fique quieto você também, Fabiano! - censurou Andrade - Não quero ouvir um pio de nenhum dos dois!

Joana, a senhora da fazenda, segurava a seus dois filhos como se segurasse o próprio Santo Graal. Ela percebia a tensão crescente em seu marido, mas não conseguia encontrar as palavras para acalmá-lo. Suas duas filhas tremiam em seus braços, e ela tinha de cobrir suas bocas, para que seus gemidos não chamassem a besta.

O silêncio misterioso deixava os últimos sobreviventes daquela noite mais nervosos. O feitor Horácio olhava para a porta, completamente estático. Apenas seus olhos se moviam, e em uma velocidade anormal, à procura de qualquer visão que ele considerasse perigosa.

Ficando impaciente, Joana chamou junto Antônia, sua mucama, e a mandou olhar pela janela. A escrava obedeceu, soltando seu filho, mesmo sem conseguir segurar o seu temor, e, ainda enquanto olhava, escondida, a paisagem sombria e tenebrosa daquela noite, banhada apenas pelo prata celestial, ela voltou para sua senhora e sussurrou:

- Ela ainda tá lá...

Ao ouvir aquilo, Humberto olhou pela brecha da mesma porta que ele empurrava tão fortemente, e viu uma figura branca parada no meio da escuridão, de costas para a casa. Ele sentiu-se indefeso, e seu pânico começou a retornar.
Andrade deu um empurrão em Horácio, tirando-o do transe no qual ele estava, e apontou para o escravo assustado. O feitor foi até ele e segurou seu ombro com força:

- Coragi, hômi! Dêxe de sê frôxo! - disse Horácio, tentando controlar toda a sua rudeza para tentar soar amigável.

Vendo que o feitor controlara a situação, Andrade se virou para Joana, que ainda segurava as filhas. Ele percebeu nela algo que ainda não havia notado nos outros durante aquela noite:

- Joana. - falou, chamando a atenção dela - Suba para o quarto e tranque a porta.

- Vosmecê está louco?! Não te deixarei aqui sozinho! - retrucou Joana, jamais sem alterar seu tom de voz uniforme e comportado.

- Prefiro que suba com as crianças e a mucama do que te ver aqui embaixo... - falou Andrade, segurando o pavor de sua voz para, pelo menos, fingir segurança.

Antônia puxou seu filho para perto e andou para o lado de Joana, entendendo o comando de seu senhor. A senhora se irritou com o ato de nobreza fútil do marido:

- Não te abandonarei, Andrade! - retrucou a esposa, com a raiva quase podendo ser ouvida.

- Não faça por mim! Faça por elas! - disse ele, apontando para as crianças que estavam aos braços de sua esposa. - Ou quer que eles-

*toc*

*toc*

Todos na sala voltaram sua atenção para a porta, e puderam notar uma sombra formada no chão, obstruindo a luz por baixo da passagem. Andrade olhou uma última vez para sua esposa, e, sem dizer nada, apenas com seu olhar, reforçou sua ordem.

Antônia incentivou Joana a puxando para trás, e a senhora logo cedeu, entendendo que era mais do que a sua vida que estava em jogo ali.

Preparando sua espingarda, Andrade olhou de novo para a porta, e fez sinal para Horácio. O feitor olhou pela brecha da porta e percebeu que não conseguia ver nada. Sem se mover, ele ergueu seu rifle, se preparando para começar a mirar.

Humberto tremia mais do que nunca, e Fabiano tentava segurar a porta sozinho, já que seu companheiro não era mais de ajuda. Andrade continuava com sua arma levantada, preparado para atirar.

*Toc*

*Toc*

Horácio olhou pela brecha novamente, e viu uma pequena luz vermelha surgir. A luz foi crescendo, e crescendo, e crescendo... E, quando estava maior, ficou tão forte e ofuscante, que fez Horácio gritar e cair ao chão, com as mãos ao rosto, e seus olhos inutilizados.
Os escravos hesitaram por um segundo, e Andrade baixou sua arma naquele momento em que a luz, outrora vermelha, ficara laranja e tomara toda a sala.

Perante àquilo, Humberto soltou a porta e correu por sua vida:

- Humberto! - gritou Andrade.

Fabiano pensou em fazer o mesmo, mas antes que tivesse a chance, sentiu algo tocar suas costas e caiu no chão, imóvel.
Os olhos de Horácio começavam a reconhecer formas novamente, e ele viu o escravo ao chão. Quanto melhor ele podia ver, mais parecia que o corpo de Fabiano ia ficando cinzento, até que colapsou em uma pequena montanha de cinzas:

- DÊU DO CÉU! - gritou ele, lutando contra sua atordoação e correndo para o lado de seu senhor.

A luz, tão forte, desapareceu tão rapidamente como quando surgiu. O retorno da iluminação escura fez Andrade voltar aos seus sentidos e preparar a espingarda novamente. Horácio não demorou para fazer o mesmo.

Tudo ficou em silêncio por alguns momentos, até um lento ranger de dobradiças enferrujadas cantar timidamente. Uma mão, de formato esquelético, segurou o lado da porta e a empurrou lentamente.

Diante dos dois homens armados, se estendia a figura branca, com as mãos cinzas e magras descobertas e um rosto brilhante, com um sorriso cínico e diabólico mostrando seus dentes afiados.
Aquela forma remeteu Andrade a seus tempos de menino, e, só então, ele percebeu do que tudo se tratava:

- El coco... - disse ele.

- Só pega a sinhá pru cima do nosso cadávi! - disse Horácio, dando o primeiro tiro no peito da figura.

O monstro olhou para o lugar onde a bala havia acertado, bem devagar, e olhou para Horácio, que empalideceu imediatamente.
Uma voz ecoou em sua cabeça, e o seu peito começava a latejar com uma dor que ele ainda não havia experimentado antes. Ele pôs a mão onde sentia a dor para tentar fazer alguma coisa, mas era impossível... Em poucos momentos, ele não resistiu e caiu morto.

Andrade evitou olhar para o corpo de seu feitor, e mantinha seus olhos no invasor, que ficava parado, apenas com seu sorriso imutável e brilhoso. Receoso de atirar, o senhor da fazenda preferiu blefar que tinha de coragem de fazê-lo.

Uma risada maléfica ecoou, parecia que estava vindo de toda parte. Andrade manteve sua pose, mas não conseguia mais esconder que estava assustado.

A figura se aproximou lentamente dele, aproveitando cada pequeno instante:

- Fique longe! - gritou Andrade, mas a figura continuava indiferente - Ninguém fez nada para você estar aqui, agora vá embora!

Com um movimento violento, a figura pulou em Andrade e, cobrindo-o com suas roupas fantasmagóricas, finalmente atacou sua presa.

Os gritos de Andrade ecoaram por toda a fazenda, e pegaram de surpresa Joana e Antônia, que estavam escondidas no quarto da senhora:

- Virgem... - disse a senhora, cedendo ao pavor e às lágrimas. - Meu Deus...

- O que a gente faz, sinhá? - clamou Antônia.

Joana não respondeu, pois estava tentando ouvir a figura... Não demorou muito para que os passos ecoassem pelo silêncio morto e seco da casa:

- Vá para dentro do armário! - sussurrou Joana.

Antônia puxou seu filho com ela e correu, entrando no enorme armário cheio de roupas que sua senhora tinha. Joana empurrou suas crianças para que elas fossem naquela direção quando...

*TOC*

*TOC*

Com a segunda batida, a figura branca, agora pintada de vermelho escuro nos braços e peito, derrubava a porta, e avistou Joana e suas filhas.
A senhora puxou suas filhas para perto dela e se afastou lentamente para a cama. A figura se aproximava com a mesma velocidade. Joana se sentou, e suas filhas começavam a chorar, bem alto dessa vez, mas ela não se importava mais...

Os olhos de Joana se prenderam nos olhos alaranjados da criatura, e, como se estivesse hipnotizada, ela não se mexia; apenas seus braços continuavam fortes, se assegurando que suas crianças não saíssem de seus cuidados.


Ela não sabia porque, mas uma ideia surgiu na sua cabeça, implantada por algo estranho. Era absurda, impensável, até... Mas lá estava... Era algo tão simples, mas... Tão abominável ao mesmo tempo... Ela não sabia porque pensava naquilo, nem como pôde pensar naquilo, mas parecia tão tentador... Em sua mente, uma voz sinistra, uma mistura da voz dela com outra, que dizia, em um tom único, desesperado, mas calmo ao mesmo tempo:

"Dê as crianças, e você vive."

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Inspirações:
- HALLOWEEN!! (no geral, mesmo, quase tudo)
- Essa imagem assustadora do Goya! (Não sei se é isso mesmo, mas o texto está em cima da hora, então não vou pesquisar agora!)
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Olha... Meu último texto dessa série foi em 2013!! Uau, já faz um tempão, né? Mas, ei, fico feliz de trazer isso de novo. É sempre bom pra alongar esses músculos da ponta dos dedos! 

Esse ano, por algum motivo aí, o Dia das Bruxas veio chamando mais atenção pra mim... Não sei o que é, mas sei que tá interessante. Talvez seja pelo meu súbito desejo de ver uns filmes de terror (mas "leves", ainda) ultimamente... Enfim... 

Ano passado, acho que foi exatamente nesse dia, eu havia escrito um dos capítulos "finais" do Cidade Fantasma, e, como era Halloween, eu decidi abusar e tentar ser gráfico, misterioso e amedrontador. Eu sei que não deu muito certo, mas ei, foi uma experiência muito bacana, no final das contas.

Esse ano, eu não estou escrevendo nada naquela escala para o blog, mas eu queria fazer alguma coisa pra poder ganhar carona no mês dos ~sustos~... 

A ideia para uma história com a Coca (ou Coco, falado côco, se você preferir), já vem me tentando há um tempo; desde que eu vi aquela imagem que vocês viram no corpo do texto, na verdade. Eu pesquisei um pouco a fundo e vi algumas das várias versões que os folclores europeus trataram. Obviamente, eu fui mais pelo lado português da coisa, embora eu tenha tomado um monte de liberdades (que eu imagino que você já saiba quais). A criatura era interessante, mas essa semana, eu comecei a imaginar: "véio, imagina um filme com essa coisa como vilão! Algo no estilo slasher ou coisa assim." Então, hoje, bateu a ideia de fazer um curta com ele. Sério, foi super espontâneo! Eu tava trabalhando quando bateu na minha cabeça. Eu já tava muito interessado em fazer algo pra Halloween mesmo, então casou bem direitinho.

Pra esse texto, eu tentei abrir mais para interpretações alheias (que eu sei que não vão aparecer). Embora eu tenha minha própria visão de alguns elementos, eu admito que estou curioso para saber como alguns de vocês imaginaram o visual da Coca. Isso e outros detalhes, né? 

No geral, foi muito divertido fazer esse texto. Rara ocasião em que eu escrevo tudo numa tacada só (acho que é a pressão do horário). Escrevi da maneira que fiquei confortável, e tentei me segurar pra não ir muito pro absurdo ou pro longe demais. 
Espero que esse texto pequetito e de pouco valor real tenha entretido vocês, ao menos que tenha sido algo que vocês podem olhar e dizer: "É... Legal... Que horas é a janta mesmo?". 
E, caso você não saiba muito, dá uma olhada no folclore português! É cheio de coisa legal, sério mesmo! Eu recomendo isso!

P.S.: A Coca, quando "traduzida" para o Brasil, acabou virando a Cuca! BEM DIFERENTES, né não? Mas, é, agora você sabe! Yaaaaay!
A propósito, não sei ao certo, mas parece existir também uma relação entre a Coca e o Bicho Papão inglês (Bogey man). Parte de mim acha que são só os feitos, mas a outra parte acha que seja um pouco mais do que isso...

Aqui a lista dos links para as imagens originais. Ambas da Wikimedia:

Vou colocar a URL da página da Coca na Wikipédia, caso você queira um norte pra estudar mais sobre ela. Clique aqui!

5 comentários:

  1. Bom, particularmente eu imaginei algo mais... Esquelético com roupa tipo de palhaço... Mas quando vi a imagem no meio do texto, ainda dentro da atmosfera de medo a qual estava preso enquanto lia o texto, mudou a imagem da criatura e resultou em uma experiência tipo... “Então ele é assim...”. E foi algo bem legal pra mim. A história em si tem um bom desenvolvimento, achei bem... err... eu não queria dizer “interessante”, mas sim, achei interessante o final. Algo bem terror... Algum dia eu ainda alcanço esse status!
    *Minha narrativa “Terror em Shadow Fall” espirra.

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    1. "Esquelético com roupa tipo de palhaço..." UAU, essa nem tinha passado pela minha cabeça. Gostei. xD
      Tentei ser o mais atmosférico possível dessa vez. Fico feliz em saber que você gostou, cara! :D

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Hehe, pois é, imaginei isso. Algo como um Clown Zombie.

    Saca só: http://img2.wikia.nocookie.net/__cb20120502232305/yugioh/images/c/c5/ClownZombie-TF04-JP-VG.jpg

    Bom, sobre a atmosférica, pode colocar: Mission Complete. Ficou aquele clima tenso pra mim, não como foi em A Cidade Fantasma (THE BEST!), mas ficou um legítimo Treinamento de Narrativa Temático Que Dá Medinho à Noite Sozinho no Escuro. hehe.

    E outra, é que dentre todas que gostei (pois TODAS eu li), essa ficou em 2º Lugar. A que ocupa a primeira, ainda é aquela que você fez do Taxista se não me falha a memória.

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    1. Se for a que eu estou pensando, não fui eu que escrevi. Era uma história verdadeira que eu apenas decidi traduzir e reproduzir aqui. xD
      Mas que aquela é história é incrível, isso é. :D

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