domingo, 28 de setembro de 2014

Crítica - Godzilla (2014)



Nos últimos anos, filmes de super-heróis vem se tornando cada vez mais recorrentes e bem produzidos. O que era antes uma exceção, uma opção dentre milhares outras, vem se tornando na alternativa de maior destaque, talvez por conta dos esforços da Marvel Studios, que insiste em fazer um universo cinematográfico que se conecte, completamente, e da DC, que quer transformar o mito do super-herói em algo sério e de ritmo pesado e realista. Apesar de esses tipos de filmes terem uma imensa qualidade, é inegável que o seu gosto começa a ficar saturado. Na verdade, muito do que é visto no cinema, durante essa primeira metade da década de 2010, está surgindo sem aquela gota de originalidade completa que existia no passado, que gerou tantas franquias e ideias maravilhosas. Por mais que isso pareça uma reclamação de um idoso rabugento, hoje em dia existem muitas adaptações, e poucas novidades de fato.
Não existe nenhuma contestação quanto à qualidade de muitos filmes que vem agraciando as telas de cinema. Filmes como Guardiões da Galáxia, Como treinar o seu dragão 2, Homem de Aço e muitos outros, baseados em obras de diferentes mídias (mesmo que livremente) são espetaculares, mas existe aquele desejo por algo feito para o cinema primeiro, algo vindo da grande tela de prata.

É nessa situação que se encontra Gareth Edwards, diretor feito famoso pelo filme Monstros, de 2010 (ao qual ainda não tive o prazer de assistir), e seu filme de retorno para o grande Rei dos Monstros, o temível Godzilla.

A última vez em que o monstro japonês apareceu em um filme, realmente seu, e nas telonas, foi há dez anos, no incrivelmente divertido (e um pouco bagunçado) Godzilla: Final Wars.

A releitura/continuação feita pelo diretor britânico, na verdade, bateu de frente com filmes como O Espetacular Homem-Aranha 2 da Sony, quando chegou aos cinemas no primeiro semestre de 2014. Quando eu vi o filme, ainda no cinema, pela primeira vez, eu, como um fã mediano de Godzilla (já que vi muito pouco de sua enorme filmografia), me diverti muito com o filme, e me vi retornando à infância, na época em que assisti alguns de seus filmes. As mesmas emoções daquela época retornaram, e me deixaram incrivelmente satisfeito.
Passaram-se os meses, e eu, ainda impressionado com o esforço da Legendary Pictures em trazer o monstro de volta aos cinemas, deixando-o relevante novamente, não me senti nem um pouco arrependido de ter dado meu dinheiro por uma das versões em mídia caseira que o filme recebeu na última quinta-feira (25). Ao reassistir o filme, sem mais aquele ar de novidade (o que pode danificar seriamente a qualidade, dependendo de quem vê), as mesmas sensações retornaram, e o filme, pelo que ele é, se apresentou ainda como muitíssimo agradável. Agora que o DVD/Blu-Ray está à venda aqui em terras tupiniquins, pode-se dizer, com absoluta certeza, que este é um filme que não deve ser subestimado ou ignorado.
Edwards consegue ligar o nome Godzilla a temas mais sérios, criando um filme de tom relativamente sombrio, com pouco ou nenhum espaço para piadinhas.

Godzilla, de 2014, marca o primeiro retorno oficial, e canônico, da criatura homônima, criada há sessenta anos pela companhia japonesa Toho. A versão de Edwards faz o possível para se manter nos padrões dos filmes nipônicos, não só colocando cenários japoneses ou de influência japonesa, como também na natureza dos monstros e no fato de que os humanos, que povoam os campos de batalha, pouco ou nada podem fazer para impedir as bestas colossais de andar pela Terra.
A falta desses elementos, somados com alguns outros, que ainda veremos, foi a grande responsável pelo enorme desgosto criado contra a versão de Roland Emmerich, de 1998, na qual Godzilla foi acuado, transformado em uma criatura com poucas relações visuais e canônicas à sua versão japonesa, e morto por armas humanas.
Não é necessário dizer que essa versão foi a que causou tanto medo em frente a uma nova tentativa ocidental de apresentar o monstro.

Mas onde a versão da Tristar Pictures tomou um tombo, de medidas inacreditáveis, a versão da Legendary brilha, trazendo um Godzilla não só fiel às suas origens como também ameaçador, e realmente perigoso. Não havia essa imagem desde o primeiro filme da franquia, em 1954. Esse retorno às origens é muito apreciado e apenas aumenta a já imensa credibilidade da Legendary Pictures.

O monstro não retorna apenas para andar e fazer o caos em cidades, a seu bel-prazer. A trama dá um motivo para que ele saia do fundo dos oceanos para a superfície. Aparentemente, Godzilla serve para trazer, de volta, o equilíbrio da natureza. Estes termos, apesar de não condizerem com praticamente todos os filmes os quais o monstro já estrelou, funcionam para o filme, e explicam o porque de sua aparição no filme original.
De acordo com essa informação, depois de ser acordado pelos testes e bombas nucleares, o Rei dos Monstros subiu à superfície para destruir aquilo que causa o desequilíbrio natural; em outras palavras, a raça humana e seu arsenal bélico nuclear. Quando o mundo começou a frear seus testes com armas nucleares, o monstro tornou-se desnecessário e retornou ao oceano.

A razão para que ele apareça novamente é o surgimento de uma nova criatura, denominada M.U.T.O. (Massive Unidentified Terrestrial Organism). Esse novo oponente possui uma biologia muito mais desenvolvida do que boa parte dos inimigos que o rei dos monstros enfrentou nas últimas décadas, como detalhes de sua reprodução, sua noção de território e alimento sendo explicados durante o filme.
A aparência das criaturas, por sua vez, não é exatamente original, lembrando muito as criaturas vistas em filmes como Cloverfield (2008) e Super 8 (2011). No entanto, seu acabamento geral é bem interessante, e consegue ter um charme próprio. As criaturas não são originais, mas são atraentes o suficiente para que o filme siga sem problemas.

É visível a influência de Cloverfield e outros filmes do gênero kaiju, como o bem-produzido Gamera: Guardian of the Universe (1995). Existem vários elementos similares, os quais é difícil de não considerar como uma homenagem, afinal de contas, o primeiro foi um dos responsáveis pelo retorno da relevância de filmes do gênero, e o segundo é estrelado pelo maior rival de Godzilla em termos de bilheteria.

Um dos pontos altos da direção de Edwards, que pode até ser visto como baixo para muitos, é a construção e o cuidado para nunca revelar tudo de uma vez. Os monstros apresentam embates de apenas alguns segundos, antes que a luta final aconteça. Talvez por conta do baixo orçamento (lembrando que as criaturas foram produzidas em computação gráfica que, apesar de popular, é relativamente cara), o filme evitou embates diretos que durem muito, salvando tudo até o final, mas a direção de Edwards também teve muita influência nesse aspecto. Por um lado, é interessante porque o filme se mantém cuidadoso e quem assiste fica na expectativa (que é atendida ao final). Por outro lado, isso pode deixar o filme com um ritmo relativamente lento, e quem não tiver paciência, logo vai se desinteressar ou, ao menos, até os monstros brigarem de novo.

Os visuais do filme são impecáveis. Nota-se a quantidade de esforço feita nas feras, e é tudo muito bonito de se ver. Isso somado com ângulos muito bem imaginados de câmera, resulta numa experiência incrível. Os monstros parecem gigantes e destruidores, do jeito que deveria ser.

A trilha sonora também chama atenção. A composição de Alexandre Desplat captura a grandeza, com som de trombetas e outros instrumentos de som grave. Também tentando explicitar a origem japonesa do gênero, e do monstro, vários ritmos típicos nipônicos podem ser ouvidos, somando ao charme e, mais uma vez, à dedicação da equipe às criaturas.

Os personagens humanos do filme também merecem relativo destaque. Apesar de sua trama não ser merecedora de nenhum prêmio da academia, ela tem o direito de ser chamada de melhor trama em um filme de Godzilla. Não só por conta da atuação (até um pouco tímida), como também do roteiro em geral. Nota-se que existiu, de fato, uma tentativa de deixá-la agradável.


Godzilla marca o retorno do monstro aos cinemas e, dessa vez, parece que não serão apenas os japoneses a verem-no nas telonas. Toda a construção de situações feitas por Edwards auxiliam no desfecho, deixando-o mais impressionante e agradável. Só seria melhor se ele permitisse que os monstros brigassem por mais tempo.
Com a confirmação e produção de uma sequência para 2018, não temo em dizer que a franquia está em boas mãos no Ocidente, e que estou esperando ansiosamente o retorno do Rei.
Mais uma vez, afirmo que não costumo comprar DVD's (um hábito que pretendo mudar no futuro). A grande razão para ter ido atrás e comprado a versão em vídeo do filme é para mostrar meu respeito e admiração aos produtores, por terem trazido de volta um nome tão grande de maneira tão séria e espetacular, cortando um pouco a relação com galhofas que a franquia tinha.
Apesar de a sequência ainda demorar 4 anos para finalmente surgir, eu acredito que precisarei de mais tempo para enjoar da obra de 2014.

O rei finalmente retornou de seu hiato, e, assim como saiu, retornou fazendo muito barulho.

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