domingo, 9 de fevereiro de 2014

SOUL - Verão - Parte 1

Marcus olhava impacientemente para o celular, enquanto tentava entender o que raios Sofia queria para fazê-lo ir até o parque central da capital neutra àquela hora...
Ela havia lhe pedido, poucas horas atrás, para encontrá-la no parque naquele horário, pois ela queria lhe mostrar uma coisa.

- Será que não dá pra mostrar por telefone? - perguntou Marcus, tentando conter sua falta de paciência.
- Não! Tem que ser pessoalmente! - disse ela, entusiasmada, do outro lado da linha.

A sorte de Sofia era a de que Marcus, como seu amigo inseparável, faria quase qualquer coisa que ela pedisse, por mais que ele não tivesse vontade. Isso já rendeu diversas situações problemáticas no passado, mas, apesar de tudo, ambos sempre saíam com boas histórias para contar. Então, ele não viu escolha a não ser colocar um sobretudo preto sobre sua camisa vermelha-escura e sua calça jeans, e pôr seus tênis.

E, lá estava ele, sentado em um banco da praça, bem no centro. À sua frente, estavam vários pombos, comendo qualquer coisinha que aparecesse na frente. Alguns se contentavam em ciscar o chão, enquanto outros eram mais ousados e pulavam nas latas de lixo para pegar seja lá o que estivesse lá dentro. Marcus os olhava com um pouco de reprovação:

- Nojentos... - murmurou ele.

Àquela hora, um final de tarde dourado, com as costas de Marcus sendo banhadas pelo sol, a praça ficava com poucos visitantes.

Cada um deles ficavam em pequenos grupos, separados e isolados em lugares diferentes. Enquanto passava a mão pelos seus cabelos prateados, Marcus olhava seus arredores, à espera de que Sofia surgisse. De onde ele estava, era possível ver quase todos os que estavam no parque.
Ele os olhava impaciente, como se estivesse à procura de alguma coisa. Seus olhos correram pelas pessoas, em busca de uma característica que os definisse, algo especial e único. Eles fixaram-se em um homem que passava ali perto, usando uma camisa de manga longa vermelho-escura, calças jeans, um par de tênis um tanto genérico, e que carregava uma mochila de violão nas costas. Marcus logo reconheceu um bracelete pequeno no pulso esquerdo do estranho, feito de ferro, e que brilhava com a luz dourada do sol.

Logo quando o viu, ele foi surpreendido por um toque em seu ombro direito. Ao se virar, Marcus reconheceu os cabelos vermelhos e curtos, presos a um rabo de cavalo, e o rosto meigo e jovem de Sofia:

- Oi! Demorei muito? - perguntou ela, com um sorriso pequeno no rosto.
- Até demais - respondeu Marcus, que claramente estava de mau-humor, perdendo o homem que ele olhara de vista.
- Poxa, você sempre é tão receptivo... - ironizou Sofia - É por isso que eu te adoro, Marcus. - continuou ela, enquanto mandava um beijo para ele.

Ela utilizava uma camiseta bordada de algodão azul com listras brancas, que estava coberta por uma jaqueta preta de lã, ela vestia uma calça jeans relativamente apertada, que terminava em duas botas cinzentas.

Marcus retirou o olhar dela, e voltou-se para a sua frente.
Sofia e Marcus eram muito próximos desde que eram crianças. Eles se conheceram no primeiro dia de escola, quinze anos atrás, e eram amigos desde então. Àquela altura, Sofia estava acostumada com o jeito grosseiro de Marcus, e, mais do que isso, o achava "bonitinho".
- Você é tão lindinho quando tá com raiva!! - dizia ela, alterando a voz para como se estivesse falando com um bebê, e a resposta era sempre a mesma: Marcus bufava enquanto olhava para a direção oposta.

Ajeitando-se ao banco da praça, e, propositadamente, empurrando Marcus para o lado com seus quadris, Sofia sentou-se e puxou um aparelho retangular de baixo da sua pesada jaqueta. Ela pressionou um botão em sua lateral e passava seus dedos graciosamente pela enorme tela, que havia acendido. Ao olhar o aparelho, Marcus levou as duas mãos à testa:

- Você me trouxe até aqui pra me mostrar algo que poderia me mandar por e-mail?! - perguntou ele, claramente irritado.

Sofia simplesmente fez que o ignorou e continuou manuseando por mais alguns segundos, até que ela encontrou o que queria e mostrou a tela a Marcus.
Nela, era possível ver a imagem de um homem de cabelos longos e castanhos, utilizando-se de um terno completamente preto, e segurando uma mala metálica, que parecia carregar algo valioso. No fundo, era possível ver uma porta de vidro. Aquela foto parecia ter sido tirada enquanto o dito homem descia um pequeno grupo de escadas:

- Tiraram essa foto hoje de manhã. - comentou Sofia, enquanto ainda segurava o aparelho. - Você sabe quem é esse cara?

Marcus estreitou os olhos, esforçando-se para lembrar quem era aquela pessoa. Sua mente então voltou alguns anos antes, quando ele leu sobre uma organização feita pela aliança dos sete reinos de Turnacius.
A manchete ainda era clara em sua mente:

Os Sete Reinos do país de Turnacius iniciaram a Ordem Defensora da Memória Antiga. 

As notícias diziam que aquela organização havia sido criada para proteger certas relíquias que eram consideradas sagradas para os turnos. Os membros dela seriam todos cavaleiros da côrte de seis reinos. Aquele que representava o Reino do Fogo, o general Lupus Wadosha, seria um dos dois líderes do grupo; ele era conhecido por ser um dos soldados mais letais no campo de batalha, e ficou reconhecido por ter reprimido muitas guerras civis que ocorreram em seu Reino. O outro líder era o representante do Reino da Luz, o capitão Orci (que devia ser pronunciado "Órtí", ressaltava ele) Travis, um homem selvagem, mas confiável, e amante não só de seu reino como de todo o país.

Depois de feita essa relação, Marcus pôde dar um nome ao homem da foto:

- General Wadosha, do Fogo. - disse ele, enquanto passava sua mão pelo queixo, coberto por uma barba rasa e cinzenta.
- Exatamente! - concordou Sofia, tentando conter sua empolgação - Fiquei sabendo essa manhã que ele havia chegado no Reino Neutro! Não é demais?

Marcus olhava para a foto, e um detalhe o deixava interessado:
- O que será que ele carrega nessa mala? - perguntou-se ele.
- Não sei - disse Sofia, não menos animada - Mas é isso que nós queremos pegar! Ele está carregando algo valioso aqui dentro, tanto que ele foi escoltado por seis guarda-costas quando tiraram essa foto.
- Não vejo nenhum... - comentou Marcus.
- Atiradores. - Explicou Sofia.
- Oh...
- Mas, tipo, você consegue ver o tamanho dessa oportunidade, né? - continuou Sofia.
- É um peixe grande, verdade... - concordou Marcus, ainda sem muito ânimo.
- Essa é a nossa grande chance! Tudo o que precisamos é de uma carta branca!

Marcus olhou para ela, um pouco desesperançoso. Ele não tinha interesse em fazer o que Sofia queria que eles fizessem, pois ele pressentia que não iria acabar bem.
Com toda a sua empolgação, Sofia nem percebeu a tristeza de Marcus, e olhou novamente para a foto de Wadosha, com sua cabeça a mil, pensando em todas as possibilidades que se abririam a ela caso ela pegasse essa "grande chance".

Como se despertasse de um sonho, ela virou-se para Marcus e disse:
- Nós temos que aproveitar essa chance, Marcus! - dizia ela, enquanto guardava o aparelho novamente em sua jaqueta - Amanhã, nós temos que falar com o chefe.
- Mas, Sofia... - tentou dizer Marcus.
- Me encontre na entrada, no horário de sempre! - disse ela, cortando e ignorando Marcus, e saindo logo em seguida.

Sem saber o que fazer, ele baixou a cabeça e a pôs entre as mãos, suspirando alto.

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Ninguém seria capaz de discernir só de olhar para eles, mas Marcus e Sofia, na verdade, eram membros de uma organização secreta, formada centenas de anos antes.

A terra de Turnacius, milhares de anos no passado, era governada por um único monarca: o insano e maligno mago Trevor D'arteyn.
Ele era temido em toda a terra, por seus incríveis poderes mágicos. Suas habilidades não conheciam limites.
O mago era capaz de controlar ou invocar a mais terrível das tempestades, abrir e manipular a terra a seu favor, e criar tornados com um mero abanar de mãos. Jamais ele teve interesse em usar essas habilidades em prol dos seus; ele era domado por um comportamento sádico e maléfico. Um de seus maiores divertimentos era de esmagar pessoas com enormes porções de terra, quase tão grandes como montanhas.

Não se sabe ao certo, mas acredita-se que, durante um dia comum, ele havia encontrado uma estranha esfera dourada, que havia lhe dado a pior de todas as maldições: a imortalidade. Com este novo poder, o mago era agora indiferente para o tempo.
Utilizando de sua nova habilidade, em mistura com seus já terríveis poderes, e movido por sua ganância, ele uniu a terra dividida de Turnacius, e tornou-se seu soberano imortal.

Durante três milênios, D'arteyn, o então chamado Lorde das Trevas, governou Turnacius, sendo o terror seu único e amado método. O povo de Turnacius, os turnos, sofreu terrivelmente sob seu reinado, e, por milhares de anos, teve de aguentar as mais terríveis e sádicas brincadeiras do lorde.

Mas, sem o conhecimento do todo-poderoso mago, seis famílias uniram-se para, finalmente, acabar com seu reinado.
Os seis líderes, o lorde Adolf Feuer, a duquesa Joanna Eau, o capitão George Light, a lady Anastasia Ledy e o don Shin'ka Fraklós, sabiam que o soberano, apesar de imortal para o tempo, ainda podia ser destruído, e convocaram uma reunião secreta, na qual eles contrataram seis assassinos. O objetivo deles era claro: invadir o palácio de Trevor D'arteyn e matá-lo.

Os seis assassinos conheciam bem a fama do mago, mas preferiam encará-lo do que tolerar mais de seu governo terrível. Utilizando seu bom senso, eles foram ao palácio enquanto o mago dormia, em uma simples noite de verão.
Enquanto ele divagava pelo mundo dos sonhos, os seis assassinos, ao mesmo tempo, esfaquearam-lhe com adagas feitas de ouro e prata. As lâminas, ao se sujarem com o sangue corrompido e poderoso do mago, tornaram-se mágicas, e passaram a se chamar as Adagas da Justiça.

Sem dizer isso aos seus empregadores, os assassinos notificaram-lhes que o todo-poderoso Trevor D'arteyn não passava mais do que de uma lembrança.
No entanto, logo após dar-lhes o aviso, os assassinos perceberam um olhar de ganância e desejo nos seis líderes, e deram-lhes o aviso:

- Se vós não fores capazes de governar a terra de maneira justa e bondosa, nós retornaremos, e faremos a vós o mesmo que fizemos ao mago.

As seis famílias assentiram ao aviso, e, logo após a partida dos assassinos para outras terras, dividiram as terras de Turnacius entre si. Cada reino havia sido desenhado de forma justa, indo de acordo com a especialidade e o desejo de cada família.

Com a terra de Turnacius dividida, o povo foi capaz de relaxar, sobre a guarda dos seis grandes reis, e guardiões da terra.

Passaram-se os milênios, e o sangue nobre das seis famílias se diluiu, assim como sua memória.
Os países de Turnacius começaram a ter seus recursos exaustos, as terras ficaram secas, os rios e lagos desapareceram, e o povo ficou com fome.
Com Turnacius em um estado tão deplorável, os líderes ainda pareciam temerosos de que algo pior poderia acontecer, embora eles não fossem capazes de saber o que.

Foi durante esse período de frustração e sofrimento, que seis sombras surgiram no horizonte. Um grupo de seis assassinos, seguido por seis exércitos consecutivos.
Seguindo sorrateiramente, eles foram até o país de Gelo, que ficava ao centro de Turnacius, e lá, sem nenhum aviso prévio, foi destronada e executada a família Ledy.

Com aquele ataque repentino, as outras famílias reuniram seus exércitos, e se preparam para guerrear contra aquela ameaça antiga.
Apesar de os exércitos reais estarem em maior número, os exércitos dos assassinos estavam melhor armados e treinados. Isso gerou uma guerra que duraria décadas, esgotando completamente os recursos de Turnacius.

No fim, os exércitos numerosos venceram os habilidosos, depois de anos de trapaças, mortes e sofrimento. Nenhum rei caiu, mas a batalha havia deixado sua mensagem. Os filhos dos mesmos reis que começaram as guerras, decidiram unir-se e restaurar Turnacius a seu estado de glória.
O rancor da guerra morreu com o tempo, e, preocupados que seus descendentes se corrompessem como seus pais, os cinco reis se uniram com os líderes assassinos e fizeram uma proposta, à voz da família Feuer:

- Ficai, e nos vigiai. Falamos por nós quando dizemos que não iremos repetir o erro dos nossos pais, mas não sabemos o que pensarão nossos filhos e netos quando partirmos deste mundo. É melhor que vós vigiem nossas ações, e nos aconselhem, do que ficar longe por muito tempo e só voltar para travar outra guerra, e perder muitas vidas.

Os lideres assassinos concordaram, e um trato secreto estava selado.
Naquele dia, nascia a organização de assassinos, que seria chamada de SOMBRA, e seus principais objetivos eram vigiar, aconselhar e punir.

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Centenas de anos depois desse contrato, lá estava Marcus, sozinho, encostado em uma árvore, e tentando se lembrar porque exatamente ele fazia tudo o que Sofia lhe pedia. Ele deu um suspiro alto quando se lembrou de alguns eventos que ele preferia esquecer.

Marcus se encontrava em um bosque que ficava nos arredores da cidade Neutra, a capital do que, antes, havia sido o país destruído pelos assassinos no começo da guerra; o que era conhecido hoje como o País Neutro. O bosque era bem tratado, com um gramado relativamente aparado e de cor viva. Além disso, ele era cheio de macieiras, que se estendiam pelos campos, até onde os olhos podiam ver.

Era meia-noite, e ouvia-se uma coruja à distância. Entendiado, o homem decidiu se reavaliar, para ver se não tinha esquecido nada. Passou a mão pela cintura, e, logo abaixo do casaco preto, ele podia sentir um cinto pesado, cheio de facas e uma ou duas adagas. Passou sua mão pela manga direita de sua camisa vermelha escura e conseguiu sentir uma adaga pronta para saltar na primeira oportunidade. Depois de checar que estava armado, ele puxou um celular do bolso de sua calça jeans, e efetuou uma ligação para Sofia.

- Ela sempre se atrasa... - reclamava ele - Sempre...

O celular tentou efetuar a ligação, mas ninguém parecia atender. Ele, então, tentou uma segunda vez, mas o mesmo aconteceu.
Impaciente com a falta de resultados, Marcus retornou o celular ao bolso de onde veio.
Ele levantou seus olhos para a lua, que se inclinava praticamente acima dele. Era como se ele estivesse a lua e a terra. Bufou, e passou a mão direita na cabeça, deslisando-a até a nuca.

Aqueles atrasos inconvenientes de Sofia aconteciam com frequência, o que sempre motivava Marcus a repensar sua amizade com ela.

O tempo passou, e Marcus olhou para a lua novamente. Ela não estava mais diretamente acima dele; agora ela estava em um ângulo diagonal. Passando sua mão direita pela cabeça novamente, ele ouviu o som de passos apressados.
Cauteloso, ele se escondeu na sombra da árvore na qual ele estava encostado, e fez um leve movimento com seu braço esquerdo, jogando-o e puxando-o rapidamente, o que resultou na adaga que estava escondida em sua manga ser revelada. Ele se abaixou e ficou na espera.

Da área mais aberta do bosque, surgiu Sofia, que usava as mesmas roupas que Marcus estava usando, só que femininas: um logo casaco preto com um capuz, uma camisa cinza-escura de algodão por baixo, calças longas pretas e botas, também pretas. A única diferença é que a cor da camisa de Marcus:

- Marcus? Você já chegou? - perguntou ela, com um tom tranquilo e descontraído, sem saber onde ele estava, mas sabendo de sua presença.

Ao ver que era ela, Marcus saiu das sombras, sem esconder sua cara de impaciência e irritação:

- Eu estou aqui há umas duas horas, Sofia! - disse ele, claramente irritado
- Eu disse que nos veríamos no horário de sempre, fofucho. - explicou ela, sem perder sua pose ou seu tom.
- Que é duas horas antes desse! - retrucou Marcus, sem perder tempo.
- Tá bom, lindinho, tá bom. - disse Sofia, claramente ignorando as palavras de Marcus, enquanto dava-lhe uns tapinhas no rosto e afastava-se dele para a área mais densa do bosque.
- Você não tem ideia de como isso me irrita. - disse ele, tentando controlar sua raiva.

Sem dar atenção a ele, Sofia continuou caminho pelo bosque denso. Ela passava seu olhar pelos troncos das árvores, como em busca de alguma coisa.
Marcus foi até ela e, como se nunca tivesse tido nenhuma dúvida, jogou a mão em um tronco, de uma árvore que parecia comum e bem escondida das outras. Um som de um tronco gigante sendo cortado ecoou e uma parte do chão, logo à frente dos dois abriu-se, revelando uma passagem com escadas para o subterrâneo.

- Primeiro as damas... - satirizou Marcus.

Sofia olhou para ele com um sorriso no canto do rosto e desceu as escadas, sendo logo seguida por ele. Assim que estava mais baixo, Marcus levantou o braço e segurou uma alça que estava acima dele. Ele a empurrou até o fim do lado de onde ele vinha, fechando a passagem novamente.
Nesse exato momento, diversas luzes, que estavam nas paredes, se acenderam e revelaram as paredes brancas de um longo corredor, cujo final ainda não podia ser visto.

Marcus chegou até Sofia, e lhe perguntou:

- Uma audiência com o Seurosia?

- Uma audiência com o Seurosia... - respondeu ela.

Ambos desciam as escadas, enquanto as luzes as quais se afastavam iam se apagando, uma a uma.