terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Alice no País das Maravilhas (1951)

Eu nunca li a obra de Lewis Carrol (me julguem), mas, ironicamente, assim como muitas pessoas sãs que gostam de ficção, eu conheço a história de Alice e sua aventura no País das Maravilhas.
Mas, mesmo tendo conhecimento geral do que ela conhece e enfrenta lá, absolutamente NADA me prepararia para a loucura que é o filme da Disney, de 1951.
Só pra constar, meu foco será o filme, e o filme apenas. Não vou considerar NADA do livro, até porque eu não o li ainda...!


Para a Disney, esse filme marca um novo estilo. Não é uma história de amor, para começar, e não se trata de uma jornada para alcançar um objetivo nobre e definitivo. Na verdade, é, em resumo, como uma garota curiosa (e um pouco mimada) se perdeu porque foi fuçar o que não deveria e agora quer voltar pra casa. Não, sério, esse é, literalmente, o enredo geral.

Por conta do estilo do filme, eu não vou detalhá-lo. Quero apenas tecer comentários aqui.

Pra começar: Alice é uma das garotas mais cabeça-oca que eu já vi, e, pior ainda, ela se faz de sonsa no começo do filme, de sonsa e de alguém que desistiu  de viver e não tá nem aí. Digo isso porque a atitude dela é inacreditável! Ela pega biscoitos e bota na boca sem nem ver, ouve e faz o que TODO mundo diz, e ainda se mete a achar que está sempre com a razão (o que sempre é o caso, mas, né... humildade é importante também). Talvez eu esteja pegando pesado, já que estou falando de uma garotinha.
E, pra ser justo, essa zoeira toda da Alice ajuda E muito no carisma do filme.

Outra coisa que adiciona ao carisma é a direção de arte. E, uau, o País das Maravilhas ganha de qualquer outro lugar em matéria de loucura. O lugar é criado de uma maneira que ele fica literalmente inacreditável. É algo que, assim que você olha, percebe que aquilo ali não TEM como ser real. E isso é bom!
O mundo é tão improvável que fica difícil saber o que ocorre a seguir, e o que ele esconde. Incentiva a curiosidade do leitor em saber o que mais pode acontecer a Alice.
Por conta disso, queremos que ela continue seu caminho e veja mais, para que NÓS possamos ver mais.

E, eu devo dizer, o que essa menina vê... Poderia deixar qualquer um pirado. Não vou citar exemplos, mas você irá, constantemente, ficar com a frase "que diabo é isso" na ponta da língua pelo filme inteiro.

Para minha surpresa, o filme também conta com alguns momentos bem filosóficos, com questões como "quem é você?" batendo na porta, além é claro, de fazer uma menção a pessoas com poder demais. Isso é bacana e traz uma variedade legal.

E, bom, é isso que esse filme é: uma salada feitas das mais variadas loucuras. E é uma salada que faz bem.

Pra fechar, esse é um bom filme, divertido, embora eu tema que ele queira ensinar que ser curioso não é saudável, mas tudo bem. É uma boa diversão, e eu acho que você poderia assistir com sua família.
E, falando em família, fique de olho se for sair de casa e deixar sua filha mais velha de babá dos dois mais novos, porque nada a impede de conseguir um pouco de pó mágico e voar para outra terra encantada.

Cinderela (1950)

Acho que todos nós, ou ao menos boa parte de nós, tem alguma lembrança de contos de fada. É, aquelas eram histórias muito bonitas que, depois de apropriadamente adaptadas para crianças, ensinam lições de valor e nos ensinam a noção de destino.

Igualmente em nossos corações está a história da Gata Borralheira (que DEVIA ser um título de filme), ou, como nós também a conhecemos, a injustiçada Cinderela. E, como você já deve saber, a amável dama teve um filme só pra ela, que acabou sendo o primeiro em oito anos a ser de um segmento apenas.
Gosto de pensar que Cinderela abriu as portas para uma segunda fase da Disney, que, pelo menos na minha cabeça, acabaria estabelecendo os padrões definitivos para todos os filmes que se seguiriam (a fase, não o filme).


Eu acredito que é saudável dizer que Cinderela é um sucessor espiritual de Branca de Neve e os Sete anões (1937). Vemos muitos elementos retornando aqui, além do óbvio, mas iremos falar com todos eles em detalhes.

O filme começa com uma introdução nos falando sobre as origens de Cinderela. Aparentemente, ela era filha de um homem milionário e viúvo, que sempre lhe dava todo o conforto, mas sem se esquecer de ensinar-lhe os bons modos e a ser uma boa moça (onde está um pai desse hoje em dia, hã?) com todos. Mas ele sentia que faltava à sua filha os caprichos maternos e, então, ele decidiu casar-se novamente. Sua esposa era uma viúva que tinha duas filhas, e era uma boa pessoa (ou será que não...?!).
Um dia, o homem ficou doente e morreu, e, então, a Madrasta de Cinderela revelou-se como uma mulher egoísta e maldosa (como nossa narradora fala tão eloquentemente), que transforma Cinderela em sua empregada e esbanja a fortuna para mimar aos caprichos de suas próprias filhas, levando a mansão onde morava à ruína e acabando com a fortuna familiar.

Depois da introdução, somos apresentados a uma Cinderela adulta (ou... quase adulta... adolescente?) que, mesmo sendo maltratada pela Madrasta e filhas, nunca se esqueceu dos ensinamentos do pai de ser sempre uma boa pessoa. E, bom, eu aviso logo, é impossível não compará-la com a Branca de Neve. Ambas eram as únicas "princesas Disney" da época, então...
Bom, logo na introdução, percebemos como Cinderela é diferente da Branca de Neve. Por diferente, eu quero dizer BEM mais esperta e mais, bom, interessante? E, eu tenho uma noção do porque disso acontecer, mas, por hora, prossigamos...
Aparentemente, Cinderela herdou de Branca a habilidade de falar com animais, pois, mais uma vez, temos vários animais ajudando a protagonista. Eles, também, são mais espertos, visto que usam roupas (feitas pela própria Cinderela) e até falam uns com os outros. Vai o destaque para os ratos Jaq e Tatá, ao cachorro Bruno e o cavalo Major. Esses aqui até impacto na história tem, como veremos adiante.
Nesse primeiro momento do filme, somos apresentados à rotina de trabalho que Cinderela tem em seus dias. Vemos como irritantes são Anástacia e Drizella (gente que nome é esse?), e a presença que tem a Madrasta (sério, essa mulher quase dá medo). Também conhecemos aqui o gato Lúcifer, que faz jus ao seu nome por ser um capetinha.

Depois de toda a introdução, somos jogados muito suavemente para o castelo do reino, onde conhecemos o Rei e o Duque. E essa é a nossa dupla de alívio cômico. Sério, eu nem ao menos vou me esforçar em dizer para vocês muito das cenas deles dois, senão estraga.
Mas dá pra resumir: o rei teme que ele vá morrer antes que seu filho se case e tenha filhos. Então, querendo ver logo seus netinhos, ele tem a ideia de fazer um baile na noite em que o príncipe retornar de uma campanha (que é naquela mesma noite), e que devem ser convidadas todas as jovens solteiras do baile.
Dito e feito...

Então, nós voltamos à mansão de Cinderela, quando ela recebe a carta real. Ao saber da notícia, a madrasta diz a sua enteada que, se tiver terminado o trabalho e ter uma roupa para ir ao baile, ela poderá ir.

No entanto, as coisas não vão muito bem, e Cinderela acaba que não pode ir ao baile porque as filhas da madrasta rasgam seu vestido. E é aqui que nos vemos a razão da Cinderela ser como ela é. Entenda, diferente dos outros personagens que vimos até agora, ela é a única que vê seus sonhos serem esmagados e estraçalhados o tempo todo. E, ainda assim, ela sempre tenta manter a esperança de que algum dia as coisas vão mudar. Mas, nesse exato momento, é quando você vê uma pessoa que simplesmente perde toda a fé.
É uma cena lastimável, até.

Porém, é também nesse momento, chorando sobre sua fé estraçalhada que Cinderela descobre a sua divertida Fada Madrinha. E essa cena é, simplesmente, mágica. Inclusive, eu posso resumir tudo com apenas três palavras, que todo mundo vai entender: Bibbidi-Bobbidi-Boo.
E, morre aqui.

Então, Cinderela vai ao baile, sabendo que, ao tocar da meia-noite (porque SEMPRE meia-noite?), toda a magia (que foi meio o que fez a carruagem os cavalos, o vestido e tudo mais) vai acabar. Mas tudo bem, porque antes da meia-noite, ela chega no palácio, conhece o príncipe (sem saber que é o príncipe), se apaixona por ele, e ele por ela. Quando o relógio toca, ela foge do palácio, sem nem ter dito ao seu amado o seu nome, e deixa cair na escadaria seu sapatinho de cristal (ou, A-HAM!, vidro...).

Depois da fuga (com direito a perseguição e tudo), Cinderela percebe que o sapatinho de vidro não se desfez. Ela havia ficado muito feliz naquela noite, e decide voltar para casa, satisfeita.

Obviamente, a família real decide usar o sapatinho para encontrar a dama e, como eles FORAM feitos por medida, só vão caber em um pé. Então, inicia-se uma jornada do Duque do reino para encontrar a moça do sapatinho. Porque o príncipe não foi junto para ir e reconhecer a mulher só de olhar no rosto, eu não faço a mínima ideia.
Então, bom, desventuras acontecem (que eu não vou dizer para não estragar a cena) e, eventualmente, como todos nós sabemos, o sapatinho cabe no pé de Cinderela e ela vai casar com o príncipe, para viver feliz para sempre.

Olha, devo dizer, fiquei grato de ver que, a partir desse momento, teríamos filmes inteiros de uma vez, e não segmentados. Sim, sim, agora nós vamos nos aventurar ainda mais por contos de fadas e outras histórias que nunca morreram aos olhos do mundo, e com bons motivos.
Estamos entrando agora na Zona da Infância, então, por favor me acompanhem! Precisarei de ajuda para pegar um coelho branco.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

As aventuras de Ichabod e Sr. Sapo (1949)

Depois de uma enxurrada de musicais, a Disney finalmente decidiu dar uma pausa nesse gênero e voltar a se aventurar na narrativa de filme mais tradicional (embora as músicas jamais sejam esquecidas).

Eis então que surge As aventuras de Ichabod e Sr. Sapo, baseado em duas obras da literatura, uma inglesa, outra estadunidense. Isso já havia sido feito antes, mas é NESSE filme que eles deixam as coisas bem claras. Mais uma vez, este é um filme de segmentos, que segue mais ou menos a linha de Como é bom se divertir. A grande diferença é que esse vai direto ao ponto, com uma narrativa mais direta, e sem interrupções nas histórias.


O filme começa nos contando sobre as aventuras do Sr. Sapo, um milionário imprudente e desempregado que gosta de viver a vida de maneira radical, sempre inventado manias e procurando diferentes formas de se divertir. O negócio é que seus amigos, o Sr. Rato, Verruga e MacBadger, ficando preocupados com a situação na qual o dinheiro do Sr. Sapo está ficando, o prendem dentro de seu próprio quarto, só que com um porém: ele acabara de ficar obcecado por carros a motor, e quer a todo custo ter um.
Depois de uma série de desventuras, o Sr. Sapo acaba sendo acusado injustamente de roubar um carro, e é preso por isso.
Bom, paro os spoilers aqui.

O interessante desse primeiro arco do filme é a maneira como a trama se desenrola. Se não fossem os personagens aparecendo como animais, eu JAMAIS iria pressupor que essa seria uma história para crianças. Apesar das brincadeiras e do estilo do narrador, o tema é bem sério, e digno de uma história policial.

O segundo arco nos conta a história de um professor magrela chamado Ichabod, e de suas desventuras em um vilarejo. Lá, ele conhece a filha do granjeiro mais rico da região, Katrina. Só que, ela é extremamente linda e chama a atenção de todos os homens do lugar, incluindo o forte e brincalhão Broom. A história foca na rivalidade entre Ichabod e Broom que disputam a atenção de Katrina.
Vale dizer: esse arco é baseado em The Legend of Sleepy Hollow, o mesmo livro que protagoniza o Cavaleiro Sem Cabeça.

Mais uma vez, eu parabenizo a estrutura da história, que tem um ar leve e divertido, mas aberto a adultos também. Simplesmente rebate na tecla que esses são filmes de família, não necessariamente infantis. Mas eu devo dizer, aquele final pode fazer um homem adulto se assustar se não tiver cuidado.

Ambos os arcos do filme são divertidíssimos, e ficaram bem estruturados. Os narradores só falam quando necessário (embora no caso de Ichabod, o narrador fale o tempo todo, já que os personagens praticamente não tem falas), e não existem interrupções. Na verdade, as narrações nos explicam melhor as situações, o que está acontecendo e alguns outros detalhes que o público pode não sacar de primeira.

Não há muito mais do que falar desse filme, que não seja: vá lá e assista por si só! É bem bacana.
E, depois desse, o grande foco da Disney estará em filmes de apenas um segmento, retornando ao estilo pré-Alô Amigos!
Na próxima vez, veremos se nos nossos pés cabe um sapatinho de cristal.

Tempo de Melodia (1948)

Os anos 40 foram praticamente infestados de musicais para a Disney. Apesar de ter sido bacana no começo, chegou um momento em que essa ideia começou a ficar cansativa. Talvez tenha sido bacana para a época, mas, vendo com um olhar mais atual, simplesmente foi algo que foi perdendo brilho até enferrujar.

Eis então que me deparo com o próximo da nossa lista: Tempo de Melodia, que não só calou minha boca como também chama a atenção sendo algo, não exatamente novo, mas interessante, ao menos bem melhor do que os outros musicais que tive de ver até agora.
Vale lembrar também, essa é a última produção musical que veremos nas telonas pela Disney até o lançamento do belíssimo Fantasia 2000, quase 50 anos depois.


Depois do Fantasia original, devo dizer que esse é um dos meus musicais favoritos da Disney até agora. Sua composição geral faz uma mistura excelente entre música e a narrativa geral, embora ainda priorize o primeiro.

O filme começa com pouco interesse, nos mostrando uma história de um casal patinando na neve (que, eventualmente, leva à quase catástrofe) e depois de um zangão sobrevivendo a uma histeria de instrumentos musicais... Mas, depois disso, tudo fica bem interessante.
Os demais segmentos poderiam ser histórias separadas da Disney.

Johnny Appletree, que é com o qual se inicia essa série de partes bacana, nos fala sobre uma lenda norte-americana: Johnny Chapman, e sua jornada pelo território estadunidense para plantar macieiras. É uma história bem bacana, e que devia ser mais vista.

Little Toot conta a história de um rebocador marítimo de mesmo nome que, devido à sua imaturidade, acaba fazendo traquinagem até demais, e ele tem de aturar as consequências de seus atos.

Depois, temos Trees, que segue mais o exemplo dos musicais anteriores, mostrando árvores e animais lidando com a mudança de clima e as estações do ano.

Em seguida, temos Blame it on the Samba que, você adivinhou, é OUTRA homenagem ao Samba. É interessante como vemos o retorno do Pato Donald e do Zé Carioca (até mesmo o Aracuã volta aqui), e sempre tê-lo relacionado ao Samba. No entanto, é bacana também.

Finalmente, temos a história mais pirada de todas que eu vi até agora: a lenda de Pecos Bill. Esse é, de longe, o momento mais divertido do filme. Conhecemos tudo a respeito da lenda do herói texano, desde suas origens até seu sumiço depois de que sua amada Slue-Foot Sue foi parar na lua depois de não ganhar simpatia do cavalo Widowmaker... Eu não inventei isso.

Como eu ressaltei antes, essas histórias conseguem se manter em um bom equilíbrio de música e narrativa. Esse sim, é um filme divertido, e que vale à pena ser assistido. Eu ao menos farei o que puder pra que meus filhos assistam a essa obra de arte.

Mas, apesar de tudo isso, a partir da próxima, a Disney não tocará em filmes musicais como esse por muito, muito tempo. Então, para a alegria geral, as coisas se estabilizam daqui pra frente, e tudo começa com um sapo aventureiro e um professor medroso.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Como é bom se divertir (1947)

Depois de fazer vários experimentos com musicais, a Disney decidiu retornar ao estilo mais tradicional (que os levou ao topo, pra começar) para seus filmes. Mesmo não se tratando de um longa só, e ainda sendo um filme dividido em duas seções, Como é bom se divertir pode ser visto como mais tradicional, e é a primeira vez em algum tempo na qual nos encontramos em uma história inédita que dura mais do que alguns minutos.


O filme marca o retorno inesperado do Grilo Falante, o mesmo personagem do filme Pinóquio (1940), que aqui, começa cantando uma canção de... err... Como é bom se divertir...
Ele se encontra em uma casa, na qual ele conhece dois brinquedos: uma boneca e um urso de pelúcia. Querendo animar os dois, ele põe para tocar um disco com a história do urso Bongo. E esse é o primeiro arco.
Nele, vemos a história de um urso de circo chamado Bongo e de como ele foge da vida circense para viver na floresta. Lá, ele conhece uma jovem ursa chamada Lulubelle e os dois se apaixonam. No entanto, o romance dura pouco, já que surge um urso gigante chamado Lumpjaw, que é o terrível bully da floresta. Então, Bongo precisa aprender a vencer o ursão para salvar sua amada e para que possa ficar com ela.

No segundo arco, que eu ao menos acho bem mais famoso, o Grilo Falante segue para a casa em frente, onde descobre que está rolando uma "festa". Eu digo "festa" porque, bem, não sei se um encontro de quatro pessoas, sendo duas delas bonecos, pode se classificar como uma festa. Nesse segmento, o anfitrião, Edgar Bergen, narra a história de Mickey e o Pé de feijão.
Essa história revolve entre o trio principal da Disney: Mickey, Pateta e o Pato Donald, representando um trio de granjeiros do Vale Feliz, que era um lugar bonito e mágico até que algo misterioso roubou a Harpa Mágica. Depois disso, tudo tornou-se miséria. A história em si já deve ser conhecida por vocês, então não dizer mais do que já disse.

O que eu gostaria de comentar a respeito desse filme é a narração. Ela está presente em ambos os arcos, quando se contam as histórias principais.
A narrativa de Bongo, feita por Dinah Shore, é aceitável e faz bem em estar ali, visto que nenhum dos personagens fala. Por ser uma história sem diálogos, e com alguns detalhes que o público jamais pegaria de primeira (como o fato de que os ursos falam que estão amando através de um tapa), é importante ter alguém que nos explique o que raios está acontecendo. Isso, e ela só diz o necessário; a narrativa das imagens faz o resto e se dá muito bem.
Já a narrativa do Edgar Bergen é que tem seus momentos questionáveis. Enquanto ela é justificada no início, explicando bem o que está acontecendo, por exemplo na hora em que a harpa é roubada e o Vale Feliz entra em miséria, em outros momentos ela simplesmente não precisa ficar ali, e apenas quebra o fluxo da história. Em alguns momentos, ela é completamente interrompida, para abrir piadas para seus bonecos.
Em outros casos, enquanto Edgar explica, pode surgir algum comentário de Luana Patten, ou de um de seus bonecos, sendo este sarcástico (até engraçado), ou não...

A parte mais curiosa é o final do filme, que eu recomendo que você veja por si só.

Se tem algo a se dizer sobre Como é bom se divertir é que eu fico grato com esse retorno a histórias mais elaboradas, e não apenas um complemento à música. É ótimo ter uma narrativa tradicional de volta.
Mas, pessoalmente, a essa altura uma produção só, ao invés de um filme feito em segmentos começa a fazer falta. Mas não há com o que se preocupar, não vai demorar muito para que isso aconteça...

Música, Maestro! (1946)

A essa altura, a Disney estava bem obcecada em criar musicais. Essa febre de criar filmes divididos em segmentos (que meio que começou com Fantasia), só vai acabar mesmo nos anos 50, com a chegada de Cinderela. Até lá, bem, é praticamente tudo o que veremos...

No papo de hoje, eu vou falar um pouco do musical Música, Maestro!, de 1946. Esta produção remete um pouco ao estilo de Fantasia, mas, diferente do clássico de 1940, as músicas, em boa parte, tem letras e são menos interpretativas.
Mas, por se tratar de um número grande de segmentos musicais, e sem uma única história coesa que interligue todos eles, fica meio difícil analisar tudo. Obviamente, não vou analisar tudo, visto que esse seria um trabalho grande e tedioso, sem falar que cansaria logo.
Então, pra ficar tudo de boa, vamos apenas abrir alguns comentários e fechar tudo.

A primeira coisa que eu gostaria de comentar é que esse filme, de certa forma, fez parte da minha infância. Eu tinha memórias bem vagas de dois atos do filme, que eu só fui revisitar quando eu o assisti novamente para fazer esse texto.
Outro detalhe, e que eu gostaria de adiantar de antemão, esse não é um filme pra todo mundo. Digo isso porque são poucos os momentos realmente bacanas dele. Bem, acho que encontramos um bom ponto pra começar...

O ponto alto de Música, Maestro! são os diversos números. O ponto baixo de Música, Maestro! são os diversos números... Deixe-me explicar...
Assim como os filmes anteriores, esse aqui se divide em várias seções.
Por um lado, isso é bom, porque mostra diversas situações ao telespectador, cada uma com um gosto e um estilo diferente de música. O grande problema é que não é certo que todas agradem; mesmo que algumas atinjam a um grande público, ainda há o risco de outras não serem tão bem vistas...

Comento isso porque foi exatamente o que eu percebi. Um exemplo são as "Baladas" que ocorrem vez ou outra, que, apesar de serem bem compostas, acabam sendo, bem, um pouco tediosas, com poucas coisas acontecendo e sendo, acima de tudo, lentas demais... Isso funcionaria bem se as mesmas estivessem mais ao final, quando a audiência já estivesse cansada de tantos acontecimentos de uma vez, mas colocá-las relativamente cedo no filme, bom, pode matar um pouco o interesse.

Agora, como isso é um musical (com alguns poucos momentos sendo mais animações, embora sejam musicais de todo jeito), se espera que o departamento sonoro seja bom, não é? Pois é, ele é. As músicas são muito bem compostas, geralmente refletindo bem o que vemos nas animações; elas podem ser rápidas e animadas ou lentas e serenas. Tudo constrói muito bem a atmosfera que cada seção do filme quer montar.

Os números são diversificados, e cada um conta com um estilo musical diferente, o que é bom, pois não há repetição. Embora alguns sejam esquecíveis, outros são bem marcantes, como Pedro e o Lobo, John Fedora e A Baleia que queria cantar no Met. Há também números onde vemos instrumentos musicais dançando, duas silhuetas em uma dança romântica, a história de duas famílias rivais, entre vários outros.

Não há muito mais que possa ser dito desse filme, ao menos não que envolva ser breve e não contar tudo o que acontece (porque, cá entre nós, iria tirar muito da magia do filme).
O que eu posso dizer é que, bem, os amantes de animação podem até gostar, mas, bom, prepare-se para ouvir um musical, porque é isso que esse filme é.

A ideia de seções vai se manter ainda por mais alguns longas. Mas a boa notícia é que, pelo menos na próxima entrada, teremos um descanso de musicais e voltaremos a um estilo de história mais tradicional. Embora não exatamente do jeito que você pensa...

sábado, 18 de janeiro de 2014

Alô Amigos! (1943) & Você já foi à Bahia? (1945)

Apesar de ambos serem filmes distintos, e lançados em anos diferentes, eu decidi colocar Alô Amigos! e Você já foi à Bahia? no mesmo texto por diversas razões.
A começar, com o fato de que os dois filmes tem praticamente a mesma temática: conhecimento da América Latina. O segundo ponto é que nenhum dos dois tem enredos notáveis. Na verdade, os dois parecem ser documentários sobre a vida e as diferentes culturas latinas do que qualquer outra coisa.
Outro detalhe importante, eu apenas farei análise do que os filmes são, e como filmes apenas. Não estarei levando em conta as razões por trás deles nem nada. Veremos o que o filme É, não o que ele poderia ser, ou porque ele é o que é.
Com isso fora do caminho, vamos começar!

No começo dos anos 40, Walt Disney e sua trupe decidiram fazer algo bem diferente para lançar para o cinema: ao invés de produzir filmes mais, bem, cinematográficos, eles decidiram por fazer homenagens ao povo latino-americano.
Os frutos dessa ideia se refletiram primeiramente em Saludos Amigos, ou Alô Amigos!, como conhecemos aqui no Brasil.


Esse filme seguiu uma maneira um pouco diferenciada do que vimos até agora. Ele se divide em quatro segmentos animados, e cada um mostra regiões diferentes da América Latina. Cada um desses segmentos é, praticamente um curta da Disney com tema latino.
Dentre esses segmentos, temos uma narração mostrando os artistas do grupo conhecendo a cultura e as tradições locais dos lugares que visitam e, a partir disso, eles criam histórias.
A primeira mostra Pato Donald como um turista no Lago Titicaca;
o segundo apresenta um aviãozinho chileno chamado Pedro cruzando as montanhas chilenas para carregar a correspondência;
o terceiro apresenta ninguém menos que Pateta, apresentado como um Cowboy indo parar na Argentina para aprender a ser um Gaucho;
e o quarto e último segmento apresenta o Pato Donald no Rio de Janeiro, ao lado do estreante Zé Carioca.

Esse é um filme bem bacana pelo que ele é, mas eu admito que não o trocaria pelo estilo anterior. Na verdade, ele mostra bem um pouco da cultura latina no geral, então é uma boa para quem quer conhecer mais.
No entanto, vale informar que o foco principal do filme (pra não dizer geral) é na América do Sul.

A América Central (no caso, o México) ganha um pouco do amor de Disney justamente no filme seguinte: The Three Caballeros, ou Você já foi à Bahia? aqui no Brasil.


Esse filme aqui muda as coisas estrelando o Pato Donald, Zé Carioca e adiciona um novo personagem: o galo mexicano Panchito em um enredo só. A história do filme revolve com o famoso pato recebendo vários presentes dos seus "amigos latinos", o que leva a diversas situações inusitadas.
A primeira seção do filme conta com ele assistindo um filme sobre as aves da América Latina, que tem seus momentos interessantes.
A segunda seção revolve com o retorno de Zé Carioca para levar Donald em um passeio pela Bahia.
A terceira seção (e a mais longa de todas) conta com Panchito levando seus dois novos amigos em um passeio pelo México.
Você já foi à Bahia? está mais para um musical do que qualquer outra coisa, contando com músicas brasileiras, mexicanas e uma estadunidense. Além disso, esse foi um dos primeiros a ter cenas que colocavam os personagens de desenho animado "contracenando" com atores reais, o que era incrível para a época.

Assim como seu antecessor Você já foi à Bahia? nos leva em uma viagem para conhecermos melhor um país e suas tradições.

Apesar de esse ser um contexto interessante, não o julgo satisfatório para crianças, já que elas logo se cansarão do enredo, embora possam conseguir se manter por causa de algumas situações divertidas.

E... Bom, não há mais do que se falar desses filmes. Dos dois, eu admito que preferi Alô Amigos, já que ele é mais um conjunto de animações divertidas, que poderiam ser vistos separadamente sem problema.

Desse momento em diante, as animações vão se tornando um pouco mais diretas, e, eu ao menos, não me recordo de uma outra homenagem desse tipo a outros povos por enquanto. Na verdade, creio eu que essa é a nossa última visita na América Latina.
Então, fiquem ligados, por que na próxima, teremos uma baleia cantando ópera... Ou coisa assim...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Bambi (1942)

Eu... não faço ideia de como começar essa resenha; não sem conter alguma ideia ofensiva ou algum comentário que não faça sentido... Então, vamos pular direto para o filme...

Bambi foi a quinta animação em longa metragem da Disney, e, de forma relativamente semelhante a seu antecessor, Dumbo, colocou o personagem principal como um animal antropomorfizado: o pequeno cervo chamado Bambi.
Esse filme, assim como muitos outros, é geralmente visto como uma obra-prima, e com bons motivos. Os cenários são muito bem desenhados, inclusive contando com alguns efeitos especiais novos e interessantes, tem uma trilha sonora bacana e uma atmosfera muito bem montada.

No entanto, chamar esse filme de perfeito, ao menos pra mim, é uma tarefa bem difícil, pra não dizer impossível... E eu vou explicar o porquê... De todos os filmes que eu analisei até agora, esse foi o que eu menos gostei de assistir. Apesar de o filme ter feito parte da minha infância e tudo, existiram vários elementos que, aos meus olhos mais velhos, julguei como decepcionantes. Bom, vejamos tudo em detalhes na íntegra.

A começar com a forma como o filme se monta. Não sei se eu fui o único a pensar assim, mas, no geral, a montagem do filme, bem, é lenta. Tipo, muito lenta. Por um lado, é interessante porque é nesse momento em que o filme cria sua atmosfera, e tenta nos apresentar aos personagens, sem se preocupar com histórias de fundo. Nós passamos a conhecer Bambi, sua mãe, o coelho Tambor, o gambá que é chamado de "Flor" (embora seu nome verdadeiro nunca seja definido), dentre os outros (que não deixam de ser importantes).
O problema é que, nesse período de "montagem", digamos assim, somos apenas apresentados ao pequeno Bambi, e tudo o que acontece é vê-lo brincando em algumas situações diferenciadas: como na campina ou em uma floresta coberta de neve.
De fato, passamos a gostar do pequenino e vemos sua linda afeição pela mãe, mas é tudo muito demorado.
Na verdade, é seguro dizer que vinte minutos do filme são bem irrelevantes (quando você pára para ver o que é importante para a história ou não). Alguns até servem para introduzir personagens e eventos importantes (como falaremos em pouco tempo), mas outros aparentam só servir para deixar a audiência rindo e achando Bambi uma graça.

Mas, parando pra pensar agora, essas montagens mais elaboradas podem colaborar para aumentar a importância de determinados momentos do filme.
Um dos pontos mais altos (e mais interessantes) são os momentos em que os animais da floresta percebem a presença de caçadores humanos, aos quais eles se referem como "O Homem".  E isso é uma parte brilhante. Nenhum humano é mostrado no filme inteiro, mas a presença deles pode ser sentida, e pode até causar medo em algumas pessoas.
Por mais estranho que isso possa soar, é como se esse filme mostrasse o outro lado da caça, onde vemos pelo ponto de vista da presa. Inclusive, esse ponto abre porta para uma das cenas mais tocantes do filme, que seria, bom, a cena que ocorre decorridos quarenta minutos de filme (a qual não vou revelar para quem não assistiu, embora esse filme tenha mais de setenta anos).

Um outro ponto que eu gostaria de ressaltar, e que acaba sendo, ao menos para mim, o mais decepcionante do filme, são os eventos finais, ou melhor, a forma como eles são retratados.
Deixe-me explicar primeiro alguns detalhes importantes... Durante todo o filme, Bambi é retratado como um cervo feliz e despreocupado. Apesar de eu saber que, durante a maior parte, ele é mostrado como um filhote ainda, mesmo aparecendo como "adulto", ou... adolescente, ele ainda mostra muito dessas características. Depois, algo que acontece e BAM! ele fica do tipo silencioso e bonzão... Tipo, eu não estou dizendo nada como um evento e, anos depois, ele cresce. Não... Eu estou dizendo que em uma sequência em tempo real de uns três, cinco minutos, ele se transforma completamente. Eu acho que o filme queria dizer que o personagem teve de amadurecer na marra, mas, ao menos agora, tudo se torna muito abrupto. E, bom, minha decepção é essa mudança repentina (ainda mais com o filme sendo tão lento no começo).

Enquanto escrevia isso, eu percebi que o filme não era tão ruim quanto eu estava pensando que ele era. Na verdade, é sim um clássico. Só não será tão interessante para os amantes de filmes mais "rápidos". Mas, ei, é um bom entretenimento, não só para as crianças como para adultos também. Dê uma chance ao filme e veja como ele se sai aos seus olhos.

Dumbo (1941)

Oi, pessoal! Antes de começar mesmo a postagem, eu gostaria de pedir desculpas pela grande demora em continuar essa série de postagens. Os dois motivos que eu tenho são: primeiro, falta de disposição e, segundo, os comentários negativos que eu tive que aturar na época. Mas, ei! Estou de volta com isso aqui, e pretendo fazer, mais uma vez, um modelo diferente pra explicar melhor o filme. Vale lembrar, que vou apenas comentar sobre o filme: seu enredo, música, animação, essas coisas.
Então, sem mais delongas, vamos lá.


Dumbo estreou lá pra 1941, e é a quarta animação longa-metragem feita pela Disney (parando para considerar os filmes como Fantasia).
O filme tenta seguir os padrões mais tradicionais de história, sem passar pelas diversas interpretações musicais como em Fantasia. E, dessa vez, de novo, tenta se criar uma identidade própria.

O filme conta a história do pequeno elefante Jumbo Jr., que, por causa do tamanho absurdo de suas orelhas, é apelidado de Dumbo (que é um trocadilho resultado das palavras "Dumb", do inglês burro, ou idiota, e "Jumbo", de seu nome), e de como ele tem de aturar as constantes piadas e reações negativas que leva por conta de suas orelhas. O filme também tem um foco interessante em como alguém pode deixar de ser a piada para se tornar no melhor do grupo.

Uma das principais características do filme é como eles retratam seu personagem principal. O personagem Dumbo (que é como vamos nos referir a ele) é retratado de maneira antropomórfica e, surpresa, é um protagonista silencioso. Nem uma palavra sai da boca dele, enquanto que todos os outros personagens (embora também ocorra a exceção de sua mãe) que tem alguma importância falam, como seu único amigo, o rato Timóteo.
Por conta dessa ausência de voz, somos presenteados com várias expressões faciais e gestos feitos pelo personagem, que nos indicam o que ele está sentindo. Isso é usado de maneira sábia, e simplesmente se adiciona ao improvável carisma do elefante.

Existem algumas cenas que parecem ter sido feitas somente para fazer a platéia dizer: "Daaaaaaaaaaaaaaawwwwwwwwwwwwwwww.....", como a cena em que ele está sendo banhado pela mãe, ou... a... cena onde ele se... embriaga... É...
O enredo do filme se aproveita desses momentos para, logo depois, fazer o coitado ser mais caçoado, e deixar a audiência irritada e com pena.
Não dá pra deixar de pensar que a grande mensagem do filme é justamente a do anti-bullying (em termos mais atuais). De acordo com este filme, ser diferente não é um problema. Na verdade, por ser diferente, é possível que se possam fazer coisas mais improváveis do que aqueles que são iguais.
E, bom, isso é uma boa mensagem, faz sentido, e ela deveria ser pensada com mais frequência. Não sei bem como era a vida nos EUA no final dos anos 30 (se alguém quiser esclarecer a todos nós, por favor, vá em frente com os comentários), mas, para o nosso mundo hoje, é uma boa.

Mas, apesar de a produção ser boa e a mensagem praticamente imortal, ainda existem alguns detalhes mais, digamos, anormais para o contexto dos dias de hoje.
Pra começar, estamos falando de animais de circo. Hoje em dia, ao menos aqui no Brasil, isso é abominado por muita gente. Mesmo se tratando de uma animação, acho que as audiências de hoje em dia não iriam aceitar muito do comportamento dos personagens do filme, e não tentariam se colocar em algumas situações. Outro ponto é a relativa crueldade que Dumbo sofre de alguns palhaços em uma determinada cena, o que, também, seria inaceitável para os dias de hoje. No entanto, isso poderia apenas aumentar o amor da platéia pelo elefante.

Eu vou concluir essa micro-postagem dizendo que esse é um filme que deveriam passar nas escolas pras crianças. Não só por causa da mensagem do anti-bullying, mas também por causa da ideia de que ser diferente não é um problema.
Eu vou admitir que minha história com esse filme é um pouco confusa, e eu não lembro de muita coisa. Só tem uma cena que eu nunca vou conseguir esquecer, e acho que todos vocês já sabem qual é...

Bom, fiquem ligados, porque nossa próxima parada acontece em uma floresta...