quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 10: O pé de elefante

Não sei quanto tempo eu passei apagado, dessa vez... Quando eu acordei, eu ainda sentia minhas costelas latejando por causa da dor, e isso me impedia de me mexer muito. Minha cabeça doía, e, mesmo com meu equipamento, eu sentia o calor do lado de fora. Eu ainda estava zonzo, então evitei movimentos desnecessários. Eu estava sentado à parede de um lugar escuro, preso em uma sala relativamente apertada, e sem muitos detalhes. A única coisa que eu conseguia notar era uma porta, e um objeto que não pude identificar bem à minha frente. A sala era espaçosa o suficiente para que minhas pernas ficassem esticadas, e o objeto estava afastado alguns metros. Enquanto meus olhos focavam, eu puxei minha perna esquerda, e tentei me levantar devagar. Meus sentidos ainda não tinham voltado completamente, e a dor ainda era demais, então desisti...
Meus olhos se voltaram para aquele objeto indefinível na minha frente. Fiquei curioso, e comecei a pensar no que eu estava vendo. O que era aquilo? Uma pedra? Um pedaço de escombro? Comecei a pensar demais nisso, e me vi pensando naqueles meus pensamentos depressivos de antes... Aquilo tudo foi um sonho? Parecia tão real agora pouco, eu pensava... Olhei de novo para o objeto, e comecei a teorizar novamente... Isso é real? Aquela sala era tão sem-vida quanto a outra em que eu estive no meu sonho. Como eu podia ter certeza do que era real ou não? Pus minha cabeça contra a parede atrás de mim, e tentei reorganizar meus pensamentos...
Com pouco tempo, meus ouvidos passaram a detectar melhor os sons. Comecei a ouvir um ruído afastado que eu não soube distinguir. Parecia alguma coisa pesada sendo arrastada. Poucos instantes depois, a porta da sala onde eu estava foi aberta, e um vulto grande e desajeitado entrou. Eu não pude distingui-lo muito bem, mas boa parte de mim já sabia o que era aquilo... Em outra situação, eu teria tentado me levantar e correr, aproveitando que ele estava de costas, mas eu estava tão quebrado e tão zonzo que eu não tive nem interesse em me salvar. 
O monstro pegou o objeto na minha frente e o puxou. Quando ele passou por mim, eu vi que se tratava de uma pessoa. Por estar arrastando a pessoa, e só ter um braço real, o monstro deixou a porta aberta. Tentei acompanha-los com meu olhar, para ver o que ia acontecer, mas, infelizmente, eles passaram por um corredor estreito, e sumiram de minha vista... 
Algum tempo depois, comecei a ouvir sons de coisas metálicas se colidindo... Como se dois bastões de metal estivessem se acertando violentamente. 
Fiquei perturbado com aquela situação, e eu tinha certeza que o que eu estava ouvindo tinha a ver com o monstro e a pessoa que ele arrastou para lá. Eu não ia ficar pra esperar que ele me pegasse. Eu tinha que sair dali. 

Reuni toda a força que eu tinha, e, mesmo sentindo as costelas latejando de dor, e o ferimento da bala se abrindo de novo, eu tentei me levantar. Comecei a grunhir, e, já lacrimejando de dor, eu pude me colocar de pé. 
Eu me sentia pior do que antes... "Mas, pelo menos, agora eu posso andar...", tentei manter meu otimismo. Coloquei minhas duas mãos, nas minhas costelas, para tentar amenizar a dor e para não balançar muito meus braços. Fui até a entrada da sala, e olhei aos meus arredores. A área de fora parecia bem controlada, e relativamente organizada, considerando os padrões da cidade em seu estado atual. Nas paredes, cinzas e frias, eu via várias placas contendo as direções para setores diferentes daquele lugar e alguns dos sinais de alerta de radiação... Não demorou mais do que alguns segundos para que eu descobrisse onde diabos eu estava. 

"A usina de Chernobyl!", murmurei. 
Aquilo explicava o calor... Devia estar vindo dos reatores. 

"Droga, droga, droga! Eu tenho que sair daqui!", pensei, levando em consideração a quantidade absurda de radiação que tinha ali. Se era perigoso andar pela cidade, me tremi ao pensar o que podia acontecer ali... 
Minha condição física me impedia de correr, então eu tive de sair andando em busca de uma saída. Me guiei pelas placas e, infelizmente, me vi obrigado a ir pelo mesmo corredor que Viktor e sua vítima foram. A passos de lesma, fui andando pelo interior morto da usina. Enquanto eu andava, eu cheguei a outra sala, um pouco maior que a primeira, mas com algo que me assustou. Era uma visão horripilante... A sala era cheia de marcas no chão, e palavras escritas nas paredes, pintadas por algo que me lembrou sangue... Todas elas tinham frases diferentes, mas indicavam a mesma coisa:

"Aqui mora o diabo" 

Meu horror foi misturado com uma enorme curiosidade... E tudo isso por conta de um detalhe...

Quando nós tínhamos sido mandados para a cidade, vinte dias atrás, nossas informações eram a de que os animais que estavam ao redor da cidade haviam sofrido mutação, e que precisávamos contê-los. Mas, as mensagens nas paredes indicavam que não um animal, mas uma pessoa, havia sofrido mutação e saiu matando a todos. E era aí que estava o paradoxo... Pelas informações que eu tinha, os humanos, por algum motivo, se transformavam nas criaturas frágeis e horríveis que eu e Ivan havíamos evitado contato. E... O único que havíamos visto que realmente era uma ameaça era Viktor, mas ele se transformou depois do acidente. 
Comecei a criar teorias. Será que alguma pessoa se transformou, e causou o acidente em sua fúria? Ou, todas essas marcas e avisos foram feitos enquanto o acidente ocorria? Minha mente começou a procurar suspeitos, mas, eu não encontrava nada que realmente fosse digno de ser considerado. 
Olhei para as pinturas na parede mais uma vez e tentei pensar em mais alguma coisa. Foi quando eu ouvi aqueles sons de metal novamente. Por causa do eco da usina, eu não consegui discernir de onde eles vinham. Olhei na direção de um corredor, e segui por ele, torcendo para não ir onde aqueles sons estavam sendo feitos.

O corredor levava a escadas escuras, com alguns fios cortados, e, para minha surpresa, faíscas de eletricidade saindo deles. Ao final, uma porta arranhada, com os dizeres "Não entre aqui". Todos os meus instintos disseram para não entrar, mas minha curiosidade falou mais alto, e eu decidi abrir a porta. 

Eu estava no que deveria ter sido uma sala de descontaminação. Falo assim porque ela estava imunda, com sangue para todos os lados, e cadáveres destruídos no chão. Fiquei tremendamente assustado, e olhei para a porta bem à frente, onde deveriam ficar os reatores. Ela tinha uma janelinha que, usualmente, me permitiria ver o que tinha do outro lado, mas ela, também, estava cheia de sangue. 
Mesmo com medo, dei alguns passos à frente, e, lentamente, passei pela porta. 
Do outro lado, encontrei a sala do reator. Ela estava tão suja quanto a outra, e comecei a pensar se eu realmente deveria estar ali... 

Com mais alguns passos, eu encontrei um pedaço de espelho quebrado no chão. Olhei em seu reflexo, e encontrei Viktor novamente. Estremeci... Olhando cuidadosamente, eu notei que ele havia colocado aquele corpo, que estava na mesma sala que eu, em cima de uma formação grotesca do que parecia ser o dejeto de material nuclear, o que mais tarde eu descobri que se chamava corium.
"O que diabos é aquilo?", pensei...

Viktor ergueu seu braço metálico e pôs-se a esmagar o corpo de sua vítima na formação. Cada pancada parecia ser, e soava, extremamente forte, e, enquanto o corpo era clara grotescamente esmagado, a formação continuava intacta. 
"Espera um pouco...", notei algo estranho. 
À medida em que o corpo ia sendo esmagado, ele ia mudando de cor, e, eventualmente, de forma. 

Quando Viktor pareceu terminar, ele levantou o corpo e o jogou para perto de onde eu estava. Quando eu o vi com mais detalhes, eu percebi. 
"São as coisas que me atacaram antes! Então é assim que eles são feitos!", pensei...

A coisa, que eu podia jurar que estava morta, virou sua cabeça para mim, e soltou um gemido surdo, o qual eu mal pude ouvir. Mas Viktor ouviu, e muito bem... Ele imediatamente parou o que estava fazendo e olhou em minha direção. Eu me escondi, em vão, pois logo notei que ele estava me vendo pelo reflexo do espelho. 

Minha espinha congelou, e eu entrei em pânico... 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 9: Realização

Quando Viktor veio em minha direção, dei um tiro certeiro em seu joelho e pulei para o lado, para desviar dele, ficando deitado no chão. A bala o fez perder o equilíbrio, e ele foi ao chão. Pude notar que ele tentava se levantar, enquanto gritava de forma agoniante, mas não conseguia muito equilíbrio por causa do braço fundido que ele tinha. 
Ivan correu até mim, e me ergueu. 
"Rápido! Temos que sair daqui!", disse ele.

Corremos para dentro da casa e subimos as escadas, tudo isso enquanto ouvíamos o som daquele braço metálico batendo fortemente nas ladrilhos da casa. No andar de cima, nos escondemos em um quarto, e ficamos em posição para atirar. 

"Droga, droga! O que a gente faz?!"

Tentei pensar nas nossas opções. E fui falando à medida em que eu ia lembrando:

"E se saíssemos da casa?"
"Nem pensar! Tem muitos daqueles monstros lá fora. Estaremos mortos em minutos!", disse Ivan.
"Erm...  Talvez nós possamos ficar e..."
"Você enlouqueceu?! Não temos a menor chance contra o Viktor, nem recursos suficientes pra sobreviver em uma batalha contra ele!"
"Espera aí... Recursos?", murmurei, me lembrando do lugar de onde tínhamos vindo. "É isso, o sótão!"
"Acha que tem alguma coisa lá que podemos usar?", perguntou Ivan.
"É isso ou nada!", eu disse, já preparado para correr para lá. 
Sem dizer nada, Ivan cedeu e abriu a porta do quarto. Corremos o mais rápido que pudemos até o sótão, e nos trancamos lá. 
Ivan manteve-se pressionado contra a passagem, e eu comecei a procurar alguma coisa útil. Em meio às caixas empoeiradas e cheias de teias de aranha, e aos objetos espalhados no chão, alguns até quebrados, não encontrei mais do que algumas lanternas e caixas de fósforo... 
Ouvimos o grito terrível de Viktor novamente, e ele parecia estar subindo as escadas. 

"Por favor, me diz que achou alguma coisa!"

"Droga! Não tem nada aqui!"

Fiquei desesperado, eu ia morrer ali?! Daquele jeito?! Pus as mãos na cabeça e fui andando para trás. Minhas costas acertaram na parede, e, então, eu lembrei que ainda carregava a mochila nas costas, com todo o conteúdo que tínhamos pego no armazém mais cedo. Tirei-a das costas e abri, rezando para encontrar o que eu queria. 

"O que você... Argh!" grunhiu Ivan, certamente com dor, mas eu estava muito nervoso para notar naquele momento. 
"ISSO!" gritei, puxando a espingarda do armazém. Eu a carreguei com os cartuchos e a destravei. Aquele som certamente chamou a atenção de Viktor, que parecia estar bem abaixo de nós. "Ivan!", gritei, e ele saiu do caminho. Mirei a espingarda, e fiquei aguardando... 

"Você só pode estar brincando!" disse Ivan, "Nós não temos chance contra ele!"

"Temos que tentar!", gritei, "Não é como se tivéssemos escolha!"

A porta levou uma pancada furiosa, que assustou a mim e a Ivan... Era Viktor querendo entrar. 

"Firme...", murmurei para mim mesmo. 

Outra pancada, que dessa vez arranhou a porta. "Firme..." Na terceira pancada, Viktor enfiara seu braço não-metálico. "Karl!", gritou Ivan. 
Comecei a tremer "Firme...". Na quarta pancada, Viktor reduziu a porta a pedaços e, no mesmo segundo, eu apertei o gatilho, acertando o peito dele. Ele deu um passo para trás por causa do impacto, mas ele deu um impulso violento e me acertou no tórax com seu braço de metal, o que me fez voar contra uma parede e cair de cara no chão. Foi tudo tão rápido que não tive chance de sentir a dor. 
Tive falta de ar, e tudo ficou embaçado e surdo. Ouvi os sons de tiros ao longe, e a dor começou a aparecer. Uma lágrima desceu, e eu tive a sensação de que haviam jogado uma bigorna nas minhas costelas. Eu não conseguia gritar, nem me mexer. Estava paralisado, mais uma vez... 

Tudo escureceu... Mas, dessa vez eu não apaguei... Eu não sei bem se o que eu tive foi uma epifania ou um simples delírio. Tudo o que sei é que, daquela vez, eu comecei a refletir sobre tudo o que estava acontecendo... 

Eu me vi sozinho em um espaço escuro, em completo silêncio, ouvindo apenas o som da minha própria respiração... Baixei a cabeça...
Tinha pouco mais de 24 horas desde o meu retorno a Chernobyl, e eu já tinha sido nocauteado nada menos do que três vezes... 

"Grande merda de soldado especial", falei... "Meu treinamento foi intenso, e eu saí de lá pronto para encarar qualquer coisa. Como diabos eu caí mais de uma vez? Se eu estivesse na guerra, eu já deveria estar morto! Meu desempenho é digno de um recruta que nem ao menos sabe no que está se metendo!" 

Passei alguns segundos refletindo... 

"É o que está acontecendo comigo, não é? Isso tudo...", joguei minhas mãos pra cabeça, "como eu ia prever que isso tudo ia acontecer...? Não é como se alguém chegasse lá no treino e dissesse 'PESSOAL! Daqui uns anos, todo mundo aqui vai pra Chernobyl ser abandonado pelo governo e morrer!'", não sei como, mas sentei e fiquei suspenso no ar... 

"Não adianta resmungar... Estou preso aqui... Sozinho... E sem chance de sair..." Olhei para as minhas mãos, e me lembrei do dia do meu casamento, do momento em que trocamos alianças... "E pra piorar tudo... Minha esposa acha que sou um cretino... E eu vou morrer antes de ter a chance de pedir desculpas..." Afundei minha cabeça em minhas mãos, e respirei fundo... 
"Talvez eu mereça isso..." Eu senti que tinha chegado no fundo do poço... Minha vida estava uma bagunça, e, de repente, tudo aquilo que eu tinha conseguido não fazia sentido nenhum... Me senti um pedaço de lixo, um incompetente, um ocupador de espaço inútil... Porque aquilo tinha que acontecer comigo? Minha vida estava em perigo constante, e, se eu morresse ali, ninguém viria para pegar o que restou de mim... Eu seria apenas mais um caso de soldado desaparecido em combate... Só outro ninguém que morreu... 

Fiquei mergulhado nesses pensamentos, deprimido com minha situação... "Por que eu ainda estou brigando...? O melhor que eu faço é me deixar morrer aqui mesmo..."
Foi pensando nisso que uma luz acendeu à minha frente. Eu lentamente olhei para ela, e, em meio aos raios luminosos, eu vi uma silhueta... Eu a reconheci, e imediatamente lembrei de porque eu não me deixei abalar ainda... 

Senti minhas costas sendo roçadas em uma superfície ríspida... E comecei a voltar aos meus sentidos...

Acordei sendo arrastado pela cidade. Não sei o que estava me carregando, e, naquela hora, eu não ligava... Eu mal podia ver direito, ainda estava muito zonzo... A única coisa que consegui distinguir era o céu, que ficava cada vez mais escuro à medida em que nos movíamos... Tudo ficou escuro de novo, e me peguei dormindo. A diferença dessa vez, é que eu queria descansar. Precisaria das minhas energias pra sobreviver mais um dia...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 8: Nada a perder

Na esperança de encontrar Ivan, eu decidi retornar à escadaria onde ele caiu, e onde a águia havia nos procurado. Só que, eu passei alguns instantes parado em frente à porta daquela área, criando coragem para passar. 
Com uma mão na maçaneta e outra armada com minha pistola, eu estava de cabeça baixa, olhando para a pequena brecha da porta. Quando me preparei, abri-a lentamente, com o olhar fixado na área de cima. Ainda dava para ver o buraco que a águia fez, junto com um pouco de luz, mas ela não estava lá. Devagar, dei alguns passos à frente, e olhei para baixo. Estava bem escuro, então não sabia o que tinha lá... 

"Ivan?", sussurrei. Não ouvi resposta, então decidi descer alguns andares. Para não fazer barulho, me movi ao passo de uma lesma. "Ivan!", sussurrei outra vez. À medida em que eu ia descendo, ia ficando mais e mais escuro. Cheguei ao ponto em que não dava para ver nada. Foi quando me lembrei da lanterna do Time Bravo que eu tinha adquirido antes. Mesmo sabendo dos riscos, eu tinha de acendê-la para ver alguma coisa lá em baixo... 
Liguei-a, e continuei descendo. "Ivan! Você está aí?", continuava sussurrando. 
Mesmo indo tão devagar, eu consegui chegar ao final com certa rapidez... "Ivan!", chamei novamente. Mas, para minha surpresa, tudo o que havia lá eram escombros, tanto da escadaria, como de alguns outros objetos. Comecei a procurar por ele, com a ajuda da lanterna. Eu não encontrava nada lá, apenas escombros. 

"O que diabo?", me perguntei. Onde ele poderia ter ido?! Com aquela queda, mesmo que ele tivesse sobrevivido, teria de ficar imóvel por horas! Então, logo percebi que ele poderia ter sido devorado por algum animal. Redobrei minha atenção, e fiquei à procura de uma porta por ali. 
Após alguns segundos, eu a encontrei, e passei por ela. 

Eu havia chegado ao que parecia ser uma recepção bagunçada do prédio. Ali era mais claro, por conta das janelas, então desliguei a lanterna e a guardei em minha mochila, novamente. Olhei para o chão, em busca de uma trilha de sangue, ou algo que me desse uma pista de onde Ivan poderia ter parado. 
O silêncio predominava naquela sala, só sendo quebrado pelo som de minha respiração, e eu estava alerta para tudo. Puxei minha pistola, e dei alguns passos para a frente, na espera de que alguma coisa podia pular a qualquer momento. Controlei minha respiração para evitar fazer ruídos, e olhei ao meu redor. Nenhum animal à vista. 

Nesse momento, meu rádio fez ruídos novamente. Levei um susto, e imediatamente mirei na direção do som. Fiquei em choque alguns segundos, e percebi a fonte do som. Uma voz, muito familiar, pareceu me contactar:

"Vinstöffen?! Você ainda está vivo?"

"Ivan?!", exclamei, puxando o rádio. "Ivan! Onde você est-?!"

"Karl, se você ainda está vivo, me escuta." Fiquei em silêncio. "Não adianta tentar falar comigo. Eu esqueci de te avisar que, quando eu te achei na rua, eu vi o estado do seu rádio, e, parece que o microfone está com defeito..." Aquilo explicava mais do que deveria... "Mas, não podemos fazer nada sobre isso agora... Olha, se você estiver dentro do prédio, e vivo, você precisa sair daí. Aquelas coisas que vimos antes estão indo aí!" Arregalei os olhos, e olhei na direção da porta da frente. "Não tente sair pela porta da frente! Se você for por lá, elas vão te achar e vão atrás de você. Você tem que sair por um dos andares superiores, e pular de um prédio para o outro." Não esperei ele terminar a frase para obedecê-lo. Eu já estava de volta à sala da escadaria, e começava a subir rapidamente. "Não se preocupe com seu ferimento. Eu consegui dar um jeito nele pra você. Isso vai te permitir algumas acrobacias mais ousadas, como um salto. Vá para o segundo andar, e abra as cortinas da varanda." Eu ainda estava subindo as escadas, mas o segundo andar não estava muito longe. "Ah, merda! A águia, ela voltou!" Imediatamente ao terminar de falar, a águia soltou outro grito, que ecoou por toda a escadaria. Eu sabia o que ela queria, mas ela ia ter que me pegar pra conseguir. "Escuta, Karl! Com a exceção da águia, o prédio está limpo! Apenas vá para o segundo andar e abra as cortinas."

Abri a porta do segundo andar com um chute, corri na direção das cortinas, e abri-as com violência. Abri a janela, e eu me encontrei na varanda. Olhei pelos lados, e vi Ivan no topo de uma casa de dois andares, alguns metros à minha frente, e abaixo de mim. Logo à frente, também dava para ver os monstros, formando uma cortina escura pelo chão, vindo em nossas direções. 

"Karl!" ele gritou.

"Como eu desço daqui?!" A águia apareceu pelos céus, e nos viu. Olhei na direção dela, e voltei para dentro. 

"Karl! Não! Você tem que pular!"

Da sala daquele apartamento, peguei impulso, corri, pisei na grade da varanda, e pulei dela. 

Eu caí bem ao lado de Ivan, e amorteci a queda com uma cambalhota. Mas, todo o movimento me fez sentir uma ponta de dor no meu ferimento, o que me manteve no chão por mais alguns segundos. 

"Argh!"
"Karl! Você está bem?!"

A águia soltou outro grito, e começou a voar em nossa direção. 

"Não se preocupe comigo agora. Temos de sair daqui!", eu falei, com a pistola em mãos. 

Mirei na águia e dei dois tiros. Um deles acertou-a bem no bico, e a deixou um pouco tonta, fazendo-a cair. O outro passou por uma de suas asas, rasgando uma ou duas penas. 

Aproveitamos a distração para fugir. 

"Por aqui!", disse Ivan, me guiando até uma passagem ali no teto. "Vamos ficar nessa casa até que essas coisas sumam!"

"Mas eu acabei de atirar! Não acha que elas virão atrás de nós?" perguntei, enquanto entrava na passagem. 

Quando estávamos lá dentro, num lugar que me parecia um sótão, ele trancou a passagem com uma viga de madeira, e puxou uma pistola. "Essas coisas só reconhecem alguns sons. Apenas reze para que a águia não tenha visto a gente."

Fora os sons estranhos que aquelas coisas faziam, tudo estava quieto. Nos mantivemos agachados, e com nossos olhares e armas apontados para a passagem. Ficamos assim por minutos... Com o passar do tempo, concluímos que a águia havia nos perdido, e relaxamos.

Baixamos as armas, desabamos ao chão, e começamos a respirar de forma pesada. Ivan jogou as mãos ao rosto, enquanto eu baixei a cabeça e olhei para meu ferimento. Ele tinha aberto novamente, mas não era nada comparado ao que eu tive de aturar na noite passada...
Olhei para Ivan:

"Onde você estava? Com aquela queda, eu pensei que você..." perguntei, ainda respirando pesado por causa da tensão.

"Boa pergunta...", disse ele, se levantando, e já mais controlado. "Não faço ideia de como eu sobrevivi..."

Olhei para ele, tentando entender... O homem tinha caído de uns sete andares, e de cara ainda. Como ele sobreviveria àquilo, eu me perguntava. 

"Isso não importa agora", disse ele, erguendo a mão para mim, "Temos de ver esse seu ferimento... Ele abriu de novo, né?" Balancei a cabeça. Peguei a mão dele, e ele me ajudou a levantar. 

Naquele momento, eu analisei melhor onde estávamos... Aquele sótão parecia estar abandonado há muito tempo, e era um dos lugares mais organizados que eu vi desde que voltei para a cidade. Dei uma olhada rápida, me perguntando se havia alguma coisa que podíamos usar...

Ivan me levou até o andar de baixo, e, de lá, fomos para a cozinha. A casa inteira estava uma bagunça, com coisas como livros, móveis e eletrônicos jogados para todo lado. Não era diferente na cozinha, mas havia alguma coisa diferente nela, eu só não sabia dizer o que...
Segui as instruções de Ivan e sentei em uma cadeira que estava lá. 

"Fique aí, eu volto já.", disse ele. 

Enquanto eu esperava, observei melhor a cozinha. Eu vi vários talheres no chão, alguns pratos quebrados e uma louça que parecia ter sido abandonada enquanto era lavada. Os armários, que ficavam próximos de uma janela com cortinas bem sujas, estavam com as portas quebradas, e vários itens estavam expostos, incluindo materiais de limpeza. Ao olhar com mais atenção, eu havia notado a presença de um item que parecia de uma multinacional americana. 

"Hã?"

Antes que eu pudesse ir mais a fundo, Ivan entrou apressadamente no cômodo. Ele fechou as cortinas das janelas, e veio na minha direção. 

"Fique quieto", sussurrou ele, "Tem muitas coisas lá fora..."

De fato, o som que aqueles... monstros... faziam ainda estava no ar, e com bastante intensidade. 

Ivan puxou algumas ataduras extras e foi amarrando-as no meu ferimento. 

"Ei, espera um pouco", falei, segurando um dos braços dele. "Essas coisas não estão infectadas, não?"

Ele olhou para mim com um olhar de reprovação, como se eu devesse saber de alguma coisa que não sabia. 

"Você acha mesmo que o tempo que esse ferimento ficou aberto, você não ficou exposto à radiação?"
Me calei e deixei ele continuar. Comecei a pensar, e vi que ele tinha razão... Claro, não havia nem um dia desde que eu cheguei em Chernobyl, e só tinham algumas horas desde que eu levei aquele tiro de Caleb... Mas, do mesmo jeito, eu ainda estaria infectado, mesmo que em uma parcela menor. Foi quando olhei para Ivan, e mais uma vez percebi que ele estava sem máscara. 

"Ivan, o que diabo aconteceu com tua máscara?", perguntei.

"Eu já te falei: ela quebrou!", disse ele, um pouco irritado.

"Há quanto tempo isso?"

"Não sei... Dois, três dias..."

"Você ficou exposto esse tempo todo?!"

"O que você tem com isso?!"

"Ivan, pelo amor de-!", me contive, para não falar mais alto. "Você sabe muito bem onde estamos, e porque temos que usar esse equipamento todo!" ele terminou de pôr as ataduras. "Essa radiação pode nos matar" ele se aproximou em uma cadeira bem próxima à minha, "e você vem me dizer que está com o rosto exposto a dois dias sem máscara?!" ele olhou na direção da janela. "Me escuta, se vamos sair daqui", pus a mão no ombro dele, "nós temos que sair limpos!"

"Você acha que eu não sei disso?! Eu estou exposto Karl!", disse ele, sem olhar para mim. "A radiação não é algo que o corpo simplesmente limpa! Ela fica até o dia em que vamos morrer!" ele se afastou. "Eu já tentei reusar meu capacete, mas ele ficou completamente destruído!", ele se sentou novamente, de cabeça baixa. 
"Escuta... Não importa quantas vezes você me diga o contrário... Eu sei, eu tenho certeza, de que eu não vou sair daqui vivo... E eu nem ligo mesmo... Não tem mais nada pra mim lá fora..."

"E quanto à sua esposa?! Seus filhos?! Você disse que eles-!"

"Eles estão mortos, Karl!", disse ele, levantando a cabeça, revelando as lágrimas, e me deixando de olhos arregalados.

Eu não tinha falado disso antes, mas o médico Ivan Brokóvski tinha uma esposa e três filhos. De todos os homens que conheci em minha carreira na KGB, ele era de longe o que mais idolatrava sua família. Todas as ações dele iam para ajudar aqueles que ele amava... 

Um homem que constrói sua base em sua família... O que é esse homem quando é deixado sozinho no mundo? 

"O que..." falei, depois de alguns segundos em choque, sem saber como reagir. "Ivan... O que aconteceu?"

"Foram eles, Karl... Os caras de poder!", disse ele, com a voz tremida, em uma mistura de tristeza e fúria. "Você sabe, eu não queria ficar! Eu bati o pé, e consegui sair dessa cidade!", ele gesticulava com cada palavra, "Só que eles vieram atrás de mim! Exigiram que eu voltasse, porque eles não queriam que essa porra toda vazasse! Só que eu não queria voltar, Karl! Eu não queria... Meus dois melhores amigos foram devorados na minha frente por um rato gigante! Eu disse que eu não ia voltar, e eles me amarraram, me amordaçaram, e mataram a minha família, na minha frente!"

Enquanto ele falava isso, me lembrei do dia em que fui convocado de volta... Nunca me ocorreu de saber porque eles foram à minha casa... Sim, eles me avisaram, mas nunca disseram o porque... 
Agora fazia sentido. Eles estavam tendo certeza de que todos os soldados que vieram para cá voltassem e ficassem, pra que ninguém revelasse o que estava acontecendo. Se alguém se negasse a voltar, eles matariam nossas famílias, pra que fôssemos sem motivos para sair novamente. Mas... Se aquele era o caso... O que ia acontecer se conseguíssemos abater todos os animais? O que aconteceria se completássemos nossa missão?

"Eles mataram... todo mundo... Me jogaram num avião e, agora, eu tô aqui.", disse ele, se segurando para não chorar mais alto.

O trauma de ver seus entes queridos morrerem na sua frente... Era aquilo que causava os distúrbios de Ivan... Comecei a me perguntar se ele chegou a participar de algumas missões mesmo em Chernobyl, ou se ele tentou fugir e acabou se perdendo.
Meus pensamentos foram para Ivana... Se eu não tivesse retornado...? Se eu tivesse feito como Ivan?

Olhei para ele, e pus minha mão no seu ombro.

"Ivan..."

Ao dizer isso, o som feito pelos monstros parou. Nós dois imediatamente nos levantamos e puxamos nossas armas. 

Do silêncio, pudemos discernir sons que pareciam com passos pesados, e de algo metálico sendo arrastado pelo chão... Eu e Ivan murmuramos ao mesmo tempo:

"Viktor."

Os passos pararam, e tudo ficou quieto novamente. Fiz sinal para que Ivan se abaixasse, e me movi sigilosamente até a janela. Apenas abri um pouco da cortina, para ver o que estava acontecendo, e imediatamente fui recebido por um tiro de espingarda que, por algum milagre, eu consegui desviar. 

"Se abaixa!!" gritei.

Nós nos jogamos ao chão, e ouvíamos tiros sendo feitos um após o outro. Vidro caía por todos os cantos, assim como pedaços de tecido e de madeira. Pusemos nossas mãos na cabeça.

"Porra!", xingou Ivan. 

Eu estava contando a quantidade de tiros, e, naquele momento, ele deu seu sétimo tiro. Ao ouvir o estalar da arma para o oitavo tiro, preparei meu corpo. Quando o tiro se deu, usei o que poderiam ser reflexos felinos para me levantar, mirar na direção do inimigo e atirar no que eu entendi ser sua cabeça. 

Quando a bala o acertou, sua cabeça recuou um pouco, e ele ficou imóvel. Fiquei na mesma posição, com a arma preparada, e comecei a retaliar, dando um total de mais três tiros no que deveria ser o queixo dele.

Por alguns segundos, ele ficou imóvel... Mas, então, sua cabeça baixou, e ele olhou diretamente para mim. Com um grito aterrorizante, ele ergueu o seu "braço" metálico e veio em nossa direção. 

"KARL!", gritou Ivan.

Mantive meu posto, e esperei ele se aproximar. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 7: Nostalgia

A águia havia conseguido arrombar a porta, mas ainda era muito grande para passar por ela. Então, ela tentava alargar a passagem. Olhei para os meus arredores, em busca de algo que eu pudesse usar. Eu precisava de minhas duas mãos para segurar a alça, e não tinha coragem de tentar pegar algo da mochila. Foi quando eu notei que, alguns metros abaixo, a escadaria ainda estava intacta. 
Tentei analisar a situação. Se eu pulasse, era bem provável que aquela porção das escadas seria destruída também. Nesse momento, ouvi outro grito da águia, que estava começando a quebrar a parede. Olhei novamente para as escadas, fechei os olhos, e comecei a balançar na alça, torcendo para que ela não quebrasse. Quando eu tinha velocidade suficiente, soltei e fui em direção à escada. 
Assim que a toquei, a porção na qual eu caí desmoronou, mas eu pude me segurar em uma área que ficou estável. 
Me ergui e, novamente, olhei para cima. A águia estava com sua cabeça para dentro, sempre tentando abrir a parede. Pensei em puxar minha pistola para atirar, mas acabei mudando de ideia. Eu iria precisar da munição mais à frente, sem dúvida. Comecei a descer as escadas o mais rápido que pude. 

Assim que encontrei uma porta para uma área diferente do prédio, entrei sem hesitar. A fechei assim que passei por ela, e me apoiei nela. Respirei fundo, e lembrei do que aconteceu com Ivan. Baixei a cabeça. Com aquela queda, eu logo pensei que ele havia morrido. Eu estava sozinho de novo. Comecei a lembrar do comportamento dele. Quanto tempo ele passou sozinho, mesmo? Vinte dias? Tanto tempo aqui deve ter afetado a cabeça dele. E não demoraria muito para que o mesmo acontecesse comigo, eu tinha certeza. 

Tentei me recompor. Eu ainda estava tremendo de tudo aquilo... Comecei a controlar minha respiração, tentar fazer o coração bater mais devagar. Consegui controlar minhas emoções naquele momento. O terror estava amenizado, e pude raciocinar direito... 

"Tudo bem, Karl. Tudo bem..." falei pra mim mesmo. "Tá tudo bem... Tá tudo bem... Você entrou em um lugar escuro e que você não conhece... O que você faz nessa situação?" levei minha mão até a pistola "Você vai e vê se tá tudo limpo..." disse eu, enquanto, segurando minha arma, dava alguns passos pra frente, e abria a próxima porta que estava ali.

Eu tinha chegado em um apartamento simples. Estava uma bagunça, e das grandes. Coisas espalhadas por todos os lados, muitos cacos de vidro no chão e os móveis afastados e derrubados, até. Presumi que foi por causa da confusão no dia do acidente. Além disso tudo, estava escuro. Olhei na direção de umas janelas, que estavam no meio da sala de estar (que era onde eu havia entrado), e vi que estavam cobertas por cortinas. Por um instante, pensei em abri-las, mas, ao pensar melhor, percebi que o ideal seria, primeiro, checar se o apartamento estava seguro. 

Da sala de estar, segui para a primeira porta que vi. A mesma levava para um quarto abandonado. Dei uma checada rápida nele, e, além dos móveis básicos: uma cama, uma cômoda e um armário, não encontrei mais nada. Decidi olhar debaixo da cama, para ter certeza. Me agachei e olhei, mas, do mesmo jeito, não encontrei nada. Quando fui me levantar, usei a cama como suporte. Foi quando eu senti a densidade do colchão. Fiquei ajoelhado, olhando para ele. Eu havia notado que ele era muito parecido ao que eu tinha em Moscou. O mesmo no qual eu dormia com minha esposa, Ivana...

Me peguei lembrando dela, e dos momentos que tivemos juntos. Me senti nostálgico... Comecei a recordar...

Ivana e eu éramos casados há uns cinco anos. Nos conhecemos durante a palestra de apresentação da universidade que cursávamos quando éramos mais novos. Naquele dia, eles nos pediram para que nos misturássemos para nos conhecermos melhor. Acabei dando de cara com ela. Foi uma conversa dolorosa, pra dizer o mínimo. Eu era muito tímido, e ela, mesmo sendo muito amigável, também odiou a ideia. Só que, mesmo depois disso, ela quis se redimir tentando me conhecer melhor, sem que ninguém a obrigasse a fazer isso, isto é. O problema é que eu sempre fui muito difícil de interagir, então, ela precisou de vários meses até que pudesse ficar íntima comigo. A essa altura, acabamos nos apaixonando um pelo outro. Não demorou muito para que começássemos a namorar e, eventualmente, noivar. 

A noite que eu mais lembro foi a de nosso casamento. Mais precisamente nossa noite de núpcias. Nós estávamos dançando a uma música que tocava no rádio. Estávamos abraçados quando ela me disse algo que nunca vou esquecer:

"Agora, nós somos parte de algo maior do que nós mesmos... E, não importa o que aconteça, não importa que obstáculos estejam à nossa frente, nós não podemos quebrar isso."

Ela sempre era tão segura, tão cheia de si, mas falou isso com uma voz tremida, com medo de que  eu não a compreendesse. Mas tudo o que eu fiz foi segurar as mãos dela e responder:

"Nada vai nos separar. Eu prometo isso a você."

Em resposta, ela sorriu e me abraçou. E continuamos a dançar, mais devagar dessa vez... 

Perante essa lembrança, não pude deixar de sorrir. E, então, lembrei de como estávamos antes do meu retorno para Chernobyl... No final das contas, minha promessa não valeu nada... Estávamos nos separando. Mas, como eu iria prever tudo aquilo que estava acontecendo? De todo jeito, eu podia ter dito alguma coisa... Ao menos um "adeus"... "Até mais", talvez? E lá estava eu, arrependido por não ter tratado bem a minha esposa. 
Eu tinha que sair dali, pra pedir desculpas, pra implorar, se fosse preciso... 

Eu já podia me ver de volta em Moscou, abraçando Ivana, pedindo desculpas, caindo aos seus joelhos e implorando perdão... 

Me peguei olhando para o colchão de novo... Tudo estava silencioso... 

A ideia de voltar para Ivana era a esperança que eu precisava. Independente do que acontecesse, eu ia sair dali vivo e bem. 
"Engraçado..." pensei. "Quem diria que algo tão bom poderia vir de um lugar como esse..."

Saí do quarto e olhei na direção da janela com as cortinas. Havia um espaço entreaberto entre elas. Olhei através dele, e me perguntei se ela estava pensando em mim também. 
Por uma fração de segundo, eu a imaginei, sentada na cama, com a cabeça baixa. Baixei minha cabeça e olhei na direção da porta da frente. Era hora de voltar à realidade.