domingo, 22 de setembro de 2013

Cidade Fantasma - Capítulo 6: Não sabemos o próximo passo...

Eu e Ivan estávamos escondidos dentro de um armazém. Ele olhava insistentemente pelas longas janelas de vidro manchadas da parte da frente, enquanto eu reunia alguns suprimentos, e procurava por equipamentos. 
Coloquei o que pude encontrar em uma mesa, e analisei com mais cuidado o que achei. Na mesa, estava um facão, um rolo de fita adesiva, um serrote, alguns pregos e martelos e, surpreendentemente, uma espingarda em bom estado e com munição. Infelizmente, isso era tudo o que eu havia encontrado. O resto da loja parecia ter sido esvaziado, talvez durante a confusão no dia em que tudo deu errado...
Eu decidi pôr tudo na mochila, já que não sabia o que o futuro guardava. 

Ivan olhava fixamente para o lado de fora, como se estivesse vendo alguma coisa fora do normal. Olhei para ele, e, pela primeira vez, comecei a pensar em seu comportamento. Desde que nos reencontramos, Ivan parecia assustado, nervoso... Foi quando notei novamente que ele estava sem seu capacete, e me perguntei se isso tinha alguma relação com seu comportamento. Comecei a questionar se eu deveria estar mesmo ao lado dele. Por um lado, ele não parecia estar muito são das coisas, o que era ruim; por outro, ele era um médico treinado, e, na minha situação, eu não podia negar isso... 
Eu iria precisar de um tempo para pensar a respeito disso tudo, então, repeli os pensamentos ali. 

Enquanto eu dava outra olhada na mochila, para ter certeza de que estava tudo pronto, Ivan falou cochichando:
"Quanto tempo você acha que vai demorar até que nos achem?"
Olhei para ele, para ver que nem mesmo o olhar tinha mudado de posição. 
"Se for depender de mim", disse, fechando a mochila, "eles não vão nos achar tão cedo...".

Ivan não parecia muito confiante com aquela resposta. Olhei novamente para ele, e vi que ele estava tremendo. 
Pus a mochila nas costas, e pus a mão em seu ombro, para que pudéssemos continuar andando. Ao sentir o meu toque, ele imediatamente se levantou e tentou me esfaquear no pescoço, gritando, tudo em uma fração de segundos. Se eu não tivesse o treinamento que tive, eu não teria o reflexo para segurá-lo.

"Que droga é essa Ivan?!", gritei eu, ainda com a lâmina da faca mirada em minha garganta. 

Ele precisou de alguns instantes para parar com a força e soltar a faca. Dei um empurrão nele, e ele caiu sentado na mesma cadeira. Ele pôs as mãos no rosto, e baixou a cabeça:

"Desculpa, eu... Eu me assustei", disse ele. 
"Fique mais atento", respondi, "Da próxima vez, você pode acabar matando alguém."

Silenciosamente, fomos para o lado de fora, com ele na frente. Agindo daquele jeito, eu não o queria fora da minha vista. Paramos logo em um beco, e vimos se podíamos seguir em frente. Com o céu mais claro, seria mais fácil de interceptar os animais, mesmo que ao custo de estarmos visíveis, também... 

Ao ver que não haviam obstáculos, seguimos em frente, silenciosa e rapidamente. Depois de alguns metros, nos aproximamos de um pequeno prédio. Nos certificamos de que era seguro e nos pusemos a escalá-lo, pela escadaria que ficava em uma parede. Ivan chegou primeiro, e eu tive de ir mais devagar por causa do meu ferimento. 
Lá de cima, analisamos as possibilidades. 
Daquele ponto, podíamos ver parte considerável da cidade e, então, começamos a traçar um plano. 

Apontei para um lado e perguntei:
"O que tem pra lá?"
"Mais daquelas coisas... Estive lá com o Krum, e foi lá que encontramos elas pela primeira vez. Temos que ficar longe dali o máximo que pudermos."
Passei a mão na nuca, e tentei reorganizar as ideias... 
Ivan olhou em uma direção, e percebeu algo que o deixou fixado. Olhei na mesma direção, e vi mais daquelas coisas, rastejando pelo chão. Eu não havia entendido a razão de elas fazerem aquilo, então achei que elas fossem daquele jeito. Foi quando Ivan chamou minha atenção para algo que estava em um teto próximo ao nosso. 
Antes que eu pudesse olhar com atenção, uma sombra pulou do prédio e voou na direção das coisas. Nessa manobra, ela pegou uma vítima, e, imediatamente, foi ao chão para devorá-la. Foi quando eu pude distinguir o que ela era. 
Uma enorme ave de rapina, me parecia uma águia de cauda branca, cheia de cicatrizes, e algumas manchas de sangue próximas ao bico e nas penas do peito. E o pior: ela ainda era maior do que o morcego que enfrentei no primeiro dia. Fiquei estarrecido. Como não tínhamos visto aquilo antes?
"Temos que sair daqui!", disse Ivan, ao mesmo tempo em que a ave olhou para nós, lá de baixo, "Agora!". Corremos em direção às escadas, mas eu percebi que ainda seríamos presas fáceis dela. Então, acabei decidindo que deveríamos ir pela parte de dentro do prédio. 

"Por aqui!", disse eu, puxando Ivan e mostrando a ele a entrada disponível ali no teto. Corremos em direção a ela enquanto ouvíamos os gritos que a águia fazia, e o som de bater de asas. 
Ao entrar, fechamos a porta e começamos a descer as escadas rapidamente. Enquanto descíamos, eu pude ouvir os sons das garras da águia arranhando a porta, e tentando abri-la. Apressamos o passo. Com toda essa pressão, não notamos que a escadaria era feita de metal, e que estava em péssimas condições. 
Enquanto corria, Ivan acabou escorregando na escada e caiu com tudo. Isso foi o suficiente para quebrar toda a estrutura da escadaria. 
Ivan atravessou os degraus, e caiu na escuridão abaixo dele. Eu me segurei na alça que estava bem ao meu lado, enquanto todos os degraus se desmontavam, e fiquei pendurado. 
Além do ruído terrível de metal sendo dobrado, tudo o que eu ouvi foram os gritos de Ivan enquanto ele caía. 
"IVAN!", gritei, mas, como todo aquele barulho, não havia surtido muito efeito. 
Nesse momento, eu ouvi um outro som, dessa vez de algo sendo arrebentado. Olhei para cima, e descobri que a águia conseguiu arrombar a porta, e pôs sua cabeça para dentro do edifício. Imediatamente, ela olhou para mim. 
Tudo o que eu podia fazer, pelos menos ali, era pensar em um plano, e rápido. 

sábado, 7 de setembro de 2013

A Alma do Lázaro (resenha)

"José de Alencar é um dos mais renomados escritores da história do Brasil e, definitivamente, dispensa apresentações. Ele é o autor de vários livros clássicos, como A viuvinha, Senhora, Lucíola, Cinco Minutos, O guarani, e, é claro, Iracema.
Mesmo com uma extensa linha de publicações, a obra de Alencar é bem conhecida e respeitada pelo público.

Mas, mesmo com tudo isso, não é de surpreender que muitos se espantem ao se ouvir que existia uma obra do autor perdida no tempo.

A Alma do Lázaro foi uma das primeiras histórias do autor, sendo publicada no segundo volume da coletânea Alfarrábios: crônica dos tempos coloniais. Por algum motivo, a história não pôde passar adiante como as demais, e acabou caindo no esquecimento por mais de 100 anos.
Ela foi redescoberta somente em 2010, e finalmente republicada em 2011.

Antes de tudo, é importante deixar claro que essa história ainda era marco dos primeiros passos do que seria um grande escritor. Por conta disso, a obra sofre a falta de alguns elementos marcantes de Alencar, como a sua tendência à descrição detalhada de objetos e situações.

A história ocorre dividida em duas partes, ambas tomando lugar em Olinda, Pernambuco, do século XVIII.

A primeira parte, intitulada de 'A Alma Penada', conta a história de um jovem estudante (cujo nome não é especificado) da academia de Olinda que, geralmente à procura de inspiração, caminhava durante a noite pela cidade. Em uma dessas caminhadas, ele conheceu Antônio, um velho e humilde pescador. Enquanto conversavam, Antônio revela a existência de um pobre homem, já falecido, chamado Francisco, vítima da infame doença da lepra, e do diário que ele escrevia. Curioso com o mesmo, o estudante decide recuperá-lo e publicá-lo, para que o mundo conheça a dor de Francisco.

A segunda parte, apropriadamente intitulada 'O Diário', conta as desventuras de Francisco, sob o ponto de vista do mesmo. Diferente da primeira parte, que preza pelo suspense e pela pena, esta tem uma abordagem bem trágica e pessimista, já que ela revela o preconceito e o tabu que Francisco tem de enfrentar. Em meio a tudo isso, ainda surge espaço para esperança, quando o homem se torna vítima de uma paixão platônica por Úrsula, uma jovem habitante de Olinda, que nem ao menos sabe de sua existência.

A Alma do Lázaro preza por uma narrativa de cunho trágico e pessimista, e isso funciona bem com a trama que ela oferece. Esses tons sombrios ajudam a deixar a história tocante o suficiente para que o leitor fique na torcida por um final improvável.
No final das contas, o livro se utiliza de uma narrativa simples e fácil, para contar uma história trágica, mas que ainda é capaz de ensinar lições valiosas.

É difícil não recomendar esta obra. Apesar de ainda não conter todo o talento do qual José de Alencar era capaz, não deixa de ser uma história tocante e muito bem produzida. Ela é totalmente recomendável para os fãs de Alencar, e para os da literatura em geral."

Resenha escrita originalmente como um teste para a cadeira de Leitura e Produção de Textos Acadêmicos, do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. A versão acima contém leves alterações... 

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