domingo, 4 de agosto de 2013

Cidade Fantasma - Capítulo 5: O Renegado

Armas em mãos, o ferimento começava a doer de novo, e aquela situação me dava calafrios. Se aquelas coisas não me matassem, meu corpo faria o serviço.
Eu me sentia dentro de um filme de terror barato. Eu estava cercado, e não conseguia puxar o gatilho. Minhas mãos tremiam tanto que eu não conseguia nem mirar direito.

A dor do ferimento tinha ficado mais forte de novo, e eu comecei a ofegar. Dei dois passos pra trás, e senti uma coisa me pegando. Era um deles. Eu imediatamente me virei e dei uma cotovelada onde deveria ser o rosto dele. A força foi tão grande que a cabeça dele saiu voando, e o corpo desabou à minha frente. Eu fiquei em choque por alguns instantes, até que outro tentou me puxar por trás. Eu respondi com outro golpe, e a mesma coisa aconteceu. Parei por um segundo, e tive uma ideia.
Se nenhum deles tinha estrutura física pra aguentar uns golpes, eu tinha a chance de sair dali. Respirei fundo, e comecei a correr em uma direção, derrubando cada um deles, usando socos, ou o próprio fuzil pra ganhar passagem. A minha barriga doía de novo, mas eu não tinha tempo pra isso.

Cheguei a um lugar em que haviam poucos deles, então parei de lutar, e apenas continuei a correr.
Eles tentaram me seguir da maneira que podiam, mas não pareciam mais tão interessados em mim. Acho que um alvo que tinha como fugir não era tão apetitoso.
Corri até minhas pernas cansarem e meu corpo inteiro latejar com a dor. Comecei a ficar preocupado, então me escondi em uma esquina e fui checar o ferimento. Já estava tudo sujo de sangue. Eu havia atravessado meu limite.

A dor começou a tomar conta do meu corpo, a visão falhava, e eu não tinha como me manter de pé. Caí sentado no chão, com a respiração pesada. Fiz um esforço para pegar a mochila, que estava em minhas costas, mas isso abriu o ferimento um pouco mais, e a dor aumentou.
Tentei manter a calma, mas não dava...
Meus sentidos me abandonaram, e eu caí no chão, desmaiado,  mais uma vez...


Minha cabeça doía quando eu acordei. Eu estava deitado em uma maca, no que parecia ser um corredor de hospital abandonado. As luzes ainda funcionavam, embora ficassem piscando muito...
Tentei me levantar devagar, e olhei pro ferimento que, para minha surpresa, estava enfaixado novamente. Pude notar que essa era a única coisa que estava diferente. Eu ainda estava usando meu equipamento, então...

Devagar, comecei a me levantar, dessa vez pra ficar de pé. Foi quando eu ouvi uma voz vindo do outro lado do corredor.
"Ora, ora, ora, Sr. Vinstöffen... Ainda entre os vivos?"
Eu demorei um pouco para reconhecer aquela voz.
"Ivan...?", sussurrei.
"Bom saber que você ainda não bateu as botas.", disse ele, se aproximando.

Ivan era um dos soldados que ficou patrulhando a cidade desde o dia do acidente. Ele era um médico, e sabia lidar com situações extremas. Eu não havia encontrado-o no acampamento, antes, o que me fez supor que ele não tinha sobrevivido. Pelo que eu soube, ele havia sido mandado em uma missão de reconhecimento com um pequeno grupo, mas eles perderam contato na mesma noite. 

Consegui me levantar, e olhei em sua direção. Arregalei os olhos ao vê-lo sem máscara de gás.
"Achei você bem mal no meio da rua.", continuou, pegando um objeto pequeno que não pude distinguir naquela hora de uma mesa abandonada, "Você ficou doido ou o que? Não sabe o que aquelas coisas podiam fazer com você?"
"Desculpe.", disse eu, ainda atordoado, "Eu devia ter adivinhado...".
"Tudo bem. Eu não devo esperar que você saiba o que aquelas coisas eram."
"Você sabe de alguma coisa?"
Apenas com um olhar, Ivan me respondeu que sabia bem mais do que aquelas coisas. Fiquei temeroso em ouvir uma história completa, mas ele disse de todo jeito.
"Lembra quando vinhemos pra cá pela primeira vez?", eu confirmei com a cabeça, "Eles estavam evacuando as pessoas, né?", ele pausou pra dar uma risada leve, de sarcasmo, "Parece que nem todo mundo...", ele parou para puxar a garrafa de vodca que ele tinha pego antes para dar um gole, "...Nem todo mundo saiu.".
Fiquei sem reação, apenas olhando pra ele.
"Aquelas coisas...", sussurrou, "elas eram nossas compatriotas, Karl.", puxou mais um gole, "nossas camaradas...", outro gole, "nossos irmãos!", finalizou ele, com lágrimas em seus olhos. "Aquelas, Karl, eram pessoas, que queriam sair da cidade. Tinha mulheres e crianças ali!".
Enquanto ele puxava a garrafa pra beber mais, eu refleti sobre aquilo tudo... Baixei os olhos, e fiquei pensando.
Quando Ivan terminou a garrafa, ele parecia um pouco mais centrado. "Desculpa, Karl...", disse ele, passando as duas mãos no rosto. "Eu não devia estar chorando por essas coisas... É só que... É tão... Tão..."
"Injusto...", finalizei pra ele.
"É..."

Fiquei imaginando o quão horrível devia ter sido para aquelas pessoas. Morrer por algo que você não entende, e que não tinha nada a ver como você. Me enchi de pena naquele instante... 

Ao ver que Ivan estava mais recomposto, perguntei a ele:
"Ivan... Cadê sua máscara?"
"Ela quebrou.", disse ele, casualmente. "Um dos animais me acertou no rosto e jogou a máscara fora."
"Você sabe o que acontece quando ficamos sem máscara, aqui?", perguntei a ele.
Antes que houvesse resposta, um som de metal sendo retorcido ecoou pela sala, e nós dois olhamos em sua direção. Olhei para Ivan, e sua expressão era de terror absoluto.
"Não... Aqui não...", murmurou ele.
"Ivan?"
Outro som ecoou, de algo metálico e pesado sendo arrastado.
"Não..."
"Ivan?!"
"NÃO!"
Ele saiu correndo, e eu fiquei parado, sem entender o que estava acontecendo.
O som começou a ficar mais forte, bem mais insuportável e, junto a ele, um som de passos pesados começou a rondar também. Puxei a pistola que ainda estava comigo, e mirei na direção do barulho, esperando que algo aparecesse no corredor.

Não demorou para que uma figura humana aparecesse no corredor. Ela não parecia natural. Era maior do que um homem comum, parecia bem mais forte também, e, no lugar de um de seus braços, estava o que parecia ser o cano de uma espingarda. "Meu... Deus...", murmurei.
Como se tivesse ouvido meu murmuro, o monstro olhou pra mim, ainda com máscara de gás e o que parecia ser o uniforme da KGB. Ele estava longe, mas pude ler o que estava escrito na identificação dele.
"Viktor?!", falei.
Com um grito assustador, ele ergueu seu braço e começou a correr em minha direção. Não precisei de outro sinal pra dar o fora dali.

Apesar de meu ferimento ter sido tratado mais efetivamente, ele ainda me impedia de correr muito. Eu sabia que não podia correr por muito tempo. Aquela coisa iria me pegar. Eu tinha que sair dali, me esconder...
Já ofegando, eu virei na primeira entrada que vi, e me joguei dentro de uma porta que estava por lá, fechando-a imediatamente.
Pus meu corpo contra a porta e fiquei parado, esperando... O monstro chegara no corredor, e ficou parado por alguns instantes. Foi quando eu comecei a ouvir os passos lentos e pesados dele. Por um segundo, ele parou em frente à minha porta, e ficou lá. Dava para ouvir a respiração pesada dele. Todo músculo do meu corpo estava tenso. Ele ficou lá por mais alguns instantes, e seguiu caminho, o que me fez relaxar...

Depois de alguns minutos, lentamente abri a porta, e olhei para os lados, para ver se a criatura ainda estava por perto. Sem ver sinal dela, segui para o lado de fora do hospital. 
Antes mesmo de sair, eu já pude notar que havia amanhecido. O céu estava muito nublado e escuro, então não soube dizer que horas seriam aquelas. Logo adiante, pude ver Ivan. 

"Vinstöffen?! Graças a Deus, você está bem!".
"Aquela coisa...", disse eu, interrompendo-o, "O que era aquilo?"
Ele me fitou com uma expressão séria. "Acho que você sabe quem aquilo era." Fiquei em silêncio.
Olhando para os lados, Ivan deu alguns passos e comentou:
"Nós temos que voltar para o acampamento e tentar restabelecer comunicação. Antes que nos encontremos com eles."
"Não tem acampamento.", ele olhou pra mim, em desespero, "Se eu estou certo, Viktor destruiu tudo por lá."
"E quanto à antena?!", perguntou ele, segurando meus ombros com força, ao que eu apenas balancei a cabeça. Ele me soltou e pôs a mão na cabeça, fazendo-a deslizar pela nuca. "O que fazemos agora?"
"O que eu sei é que temos que sair daqui. Se ficarmos parados, seremos presas fáceis."
"E nós vamos pra onde? Não sei se você percebeu, mas aquelas coisas estão em todos os lugares."
"Faça o que você quiser", disse eu, seguindo em uma direção aleatória, "se quiser ficar aqui, tudo bem, mas eu pretendo encontrar um lugar mais seguro". Com isso, saí andando.
Ivan ainda passou alguns momentos parado, mas acabou decidindo se juntar a mim.

Eu não sabia para onde ir, mas, de uma coisa eu tinha certeza: onde quer que eu fosse, eu não podia ficar confortável por muito tempo... 
Eu olhei uma segunda vez para o céu, e notei algo que não tinha notado antes: as nuvens ficavam mais escuras na direção da usina...