quarta-feira, 6 de março de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 3: O ataque do cervo

Aquela estava sendo uma longa noite... Meu primeiro dia de volta a Chernobyl não poderia ter sido pior. Praticamente todos os soldados que restavam da operação tinham morrido. Quando falei ao rádio, eu tive certeza de que era o último sobrevivente, ao menos com um meio de comunicação em mãos. 
Com os soldados mortos, não restava nada além de fugir, e o único meio de comunicação que alcançaria o exterior estaria em nosso acampamento... Ou no que restou dele... 

Eu ainda estava na mesma rua do helicóptero caído quando tropecei em algo no chão. Imediatamente pus-me a olhar e encontrei uma lanterna. Esforçando-me para observá-la, eu descobri que se tratava de uma lanterna do grupo Bravo. Ao menos, eu reconheci dois cortes na lanterna, provavelmente feitos por um de seus membros que tinha essa mania. 

Torci para que ela ainda funcionasse e a liguei. Por algum golpe de sorte, ela ainda estava funcional. Usei-a apenas para fazer um reconhecimento da rua, e virei a luz para a parede de um prédio. A claridade extra me permitiu visualizar uma mancha vermelha. Me afastei um pouco para que a luz se expandisse e vi algo terrível...

Uma enorme mancha de sangue, logo acima do cadáver de um de meus companheiros... Fiquei chocado e quase vomitei quando vi o corpo do soldado, ou o que restou dele... 
Aquele era um dos ferimentos mais nauseantes que eu já vi. Diversas partes do corpo dele haviam sido perfuradas por alguma coisa, e seu esqueleto parecia ter sido destruído quando acertou a parede. Notei isso por causa da enorme quantidade de sangue que estava no concreto. 

Decidi olhar ao redor, pra ver se podia encontrar alguma pista do que matou aquele soldado, e também para que eu não precisasse ver para o corpo... 
Olhei por todos os lados, e me lembrei do que o general Jacques me disse quando voltei... Um soldado havia enfrentado um "demônio"... Estremeci...
Mas eu não duvidava de que ele tivesse destruído o helicóptero e seus passageiros... 

Passei alguns segundos pensativo... Apenas analisando as possibilidades de encontros que eu teria com os animais no caminho para o acampamento...
Eu ainda lembrava do percurso que tomamos do acampamento, e eu achei que podia chegar lá sem alguns problemas, mesmo com toda a escuridão e a ausência de luzes extras. 
Decidi fechar a lanterna e guardá-la; não queria chamar atenção de monstros no escuro, ainda mais sem munição e sozinho...

Amarrei a lanterna em meu cinto, e caminhei até o acampamento, rezando para que ao menos o rádio de lá estivesse em ordem...

Em cerca de meia hora, eu consegui chegar até o acampamento... Teria sido mais rápido, mas eu tive de ir devagar por conta do meu ferimento... 

Quando me aproximei do acampamento, dei uma breve olhada ao redor, para me certificar de que nenhum animal estava por perto, e liguei a lanterna. Foi quando vi as ruínas...

Todas as barracas estavam derrubadas, os veículos restantes estavam destruídos e haviam corpos e sangue por todo lado. Tive que segurar meu desespero... As chances de encontrar o rádio funcionando haviam ficado praticamente nulas, mas eu decidi explorar o que restou do acampamento do mesmo jeito...

Andando nos escombros, eu tive uma chance melhor de olhar alguns dos corpos, e os ferimentos, apesar de terríveis, não se comparavam ao que eu vi na cidade... Uma coisa diferente atacou aqui, e eu torcia para que, seja lá o que atacou, não estivesse mais aqui...

Enquanto eu pensava nisso, eu ouvi uma tosse... Logo após o susto inicial, puxei minha faca e dei meia-volta. Ao invés de um animal, eu me deparei com outro grupo de corpos... Um deles ainda parecia se mexer... Logo reconheci que o sobrevivente era o general Jacques. 

Fui em sua direção o mais rápido que pude, e logo me ajoelhei ao seu lado. O ferimento dele era horrível, e eu me perguntava como ele tinha resistido até agora... Ele havia sido perfurado em diversos pontos na barriga, e seu próprio rosto estava machucado, como se ele tivesse lutado com alguém... O que mais me intrigava era um ferimento de bala que se alojou em seu braço direito...

"Karl, é você?"
"General! O que aconteceu?"
"Eu não sei... Foi muito rápido..." Ele dava algumas pausas na fala, tentando reunir forças... 
"O que atacou vocês?!" Perguntei...
"Eu... Não sei dizer... Não consegui entender tudo... Eu lembro de ter visto uma figura humana... Ela atirou na gente... Mas, não era normal... A arma..." Ele olhou para mim, cerrando os olhos, e demonstrando um pouco de terror. "Eu acho que... Estava... Soldada no braço dela..."
Fiquei em silêncio... Não pude deixar de pensar que o que atacou o acampamento era um soldado que se tornou mutante com a radiação... 
"O que houve com seu time?" Perguntou Jacques. "Houve algum sobrevivente?"
"Não...", eu disse, sem nem lembrar de Caleb. 
"Entendo..." disse ele, fazendo o que me pareceu ser um sorriso. "Você veio aqui pelo rádio, não foi?"
Um dos motivos de eu respeitar Jacques era a sua capacidade de adivinhar os objetivos de outras pessoas, e, mesmo à beira da morte, ele não deixou de demonstrar isso...
"Desculpe, decepcioná-lo... Mas o rádio... Não está funcionando... Você pode tentar mas..."
"Salve suas forças... Eu vou..."
"Me deixe, Karl... Não há como me salvar... Você tem de sair daqui..."
Nesse momento, por algum motivo, me lembrei de Caleb, e o relacionei com o misterioso atacante do acampamento... Eu não duvidaria de que ele tivesse sido cretino a esse ponto.
"Caleb esteve aqui?"
"Caleb...? Eu não o vi... desde que vocês saíram..."
Com aquela resposta, eu decidi ir atrás do rádio... Por algum milagre, talvez ele funcionasse... Mas antes de dizer qualquer coisa, Jacques segurou meu braço.
"Karl... Se você sair dessa vivo..." Ele parou para tossir um pouco de sangue... "Diga à minha esposa que... Eu ainda quero aquele... sanduíche que ela prometeu que ia fazer..."
Uma mistura de alegria e pena tomou conta de mim... 
"Minha hora chegou... Te vejo no céu, camarada..."
A morte de Jacques foi pacífica... Apesar dos ferimentos, ele faleceu bem calmamente... Tudo o que fez foi fechar os olhos, e morreu...

Eu queria ter dado a ele um funeral digno, mas não havia tempo para aquilo. Me levantei, com um pouco de dor, e procurei pela tenda onde o rádio deveria ficar... Nesse momento, a lanterna tinha sido bem útil... Encontrei a tenda derrubada, mas não deixei de torcer...

Todas as minhas esperanças morreram quando vi que o rádio havia sido partido ao meio, e completamente baleado... Ele estava além de reparos, e jamais funcionaria novamente... Eu pensei que ficaria furioso, mas, para minha surpresa, não fiquei... 

Depois de um breve momento, decidi procurar pela antena que transmitia as ondas... Se eu quisesse enxergar melhor, precisaria ir para o aeroporto... Ele ficava perto, então não demoraria muito...

Subi até lá, só para encontrar o aeroporto vazio... Não fiquei surpreso... Eu já imaginava que o avião tivesse decolado antes... 
Aproveitei a altitude para observar os meus arredores, e logo encontrei a antena. De longe, ela parecia estar inteira... No entanto, ela estava um pouco afastada... Comecei a traçar algumas ideias de como chegar lá, rapidamente...

O ataque no acampamento me mostrou que os animais iriam atacar fora dos prédios se vissem a chance... E eu não estava em boas condições de enfrentá-los... Pensei um pouco, e olhei para o acampamento. 
Eu estava precisando de recursos...

Desci para o acampamento, e vasculhei por munição e kits de primeiros socorros. Se o ataque tivesse sido como Jacques me disse, eu teria sorte... 
A munição foi fácil... Alguns soldados ainda seguravam suas armas, e elas estavam carregadas. Peguei um fuzil, e uma pistola. 
Passei um tempo procurando por itens médicos, mas tive sorte de encontrar alguns. Enfaixei a área do ferimento, mesmo que por cima do traje... Coloquei os outros itens médicos em uma mochila que encontrei, e pus nas costas. 

Minha máscara de gás ainda parecia estar em boas condições, então não me preocupei com ela. 

Com tudo preparado, dei uma olhada na mira do fuzil, e segui para a área da antena...
A antena, assim como o acampamento, estava nos arredores da cidade. Seria difícil não ver um animal se aproximando, ainda mais considerando o tamanho deles... No entanto, eu não os deixaria me pegar com guarda baixa. 

Segui pela passagem da maneira mais segura e rápida possível... A antena estava há poucos metros de distância quando eu ouvi a voz de um cervo. Imediatamente parei. O som parecia afastado, na primeira vez que eu ouvi... 
Por um momento, achei que tivesse sido minha imaginação, mas o som retornou, mais alto e mais grave... Fiquei com o fuzil preparado enquanto olhava aos arredores... 
Olhei na direção da cidade, mas não achei nada... 
Durante um bom tempo, tudo ficou em silêncio. Mas havia alguma coisa... A temperatura estava aumentando... O som retornou mais uma vez, e ele foi tão alto que o chão tremeu... Olhei na direção dele, e encontrei sua fonte. 

Um cervo do tamanho de um elefante, com seus chifres em chamas, pele e pelos bastante danificados e olhos vermelhos... 
"Que diabos...?" Pensei... 
Eu tinha certeza de que aquela coisa tinha atacado o helicóptero do time Bravo. Não havia mais dúvidas para mim. Usei o fuzil e atirei nela, mas a criatura era rápida, e desviou deles. Logo após, veio correndo em minha direção. Esperei até o último segundo e desviei, mas ao custo de abrir o ferimento da bala. Soltei um grito enquanto caía no chão, mas me levantei rápido e corri na direção da antena. 
O cervo logo veio atrás de mim. 
Olhei para trás e dei um tiro, que ele bloqueou com os chifres... 

Fiquei próximo à antena, e atirei no chão próximo ao cervo. Consegui acertar um de seus cascos frontais, e ele se desequilibrou um pouco. Aproveitei a chance para atirar no outro casco, e ele logo caiu. 
O impacto no chão fez a terra tremer um pouco, mas eu consegui me manter firme. Comecei a atirar mais confiante dessa vez, e mirei em todos os pontos mais importantes dele. Cabeça, pescoço, e peito.  Ele deu um grito agoniante, e parou de se mexer. 
Respirei aliviado... 

Virei-me para a antena e dei uma breve olhada... Ela não parecia estar danificada, então pensei que estivesse funcionando... Puxei meu rádio para ver se eu conseguia fazer alguma conexão. 

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o som de cascos batendo no chão e vindo em minha direção ecoou. Só tive tempo de dar um pulo para a esquerda, e vi o cervo atingindo a antena em cheio... Ao cair no chão, logo me levantei e comecei a correr. 
A antena, em choque com o cervo flamejante, explodiu. 

Por um lado, eu não tinha mais chance de me comunicar com o mundo exterior... Por outro, eu agora tinha certeza de que o cervo não me incomodaria mais...