quinta-feira, 28 de novembro de 2013

10 filmes pra assistir nesse fim de semana

Olha, eu nunca fiz uma lista de filmes na minha vida. Então eu pensei, por que não começar hoje?!
OK, abaixo estou mandando uma lista de sugestões para filmes que você pode querer assistir nesse final de semana, seja com a família, os amigos, a namorada, o namorado, seus pais, seus filhos, sua esposa, seu marido, o cachorro, o gato, o papagaio e aquele seu amigo que pensa que é um escritor e escreveu uma historinha que ele chama de "terror"-OPS! esse sou eu!
Os filmes da lista não estão em nenhuma ordem particular, eu apenas os coloquei ali à medida em que eu fui pensando. É claro, essa lista só tem filmes que eu assisti, então, é bem provável que você não encontre seu filme favorito aqui. Mas, lembrando, são apenas sugestões e não estão em nenhuma ordem. Apenas... estão na lista.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A Cidade Fantasma - Extras

Eu nunca tinha escrito uma história de terror antes. Apesar de já ter me aventurado nos gêneros de suspense, aventura, romance e alguns outros (que vocês devem ter conhecido através da minha série de contos "Treinamento de Narrativa"), o gênero de terror puro tinha sido algo que eu nunca visitei antes dessa pequena série chamada de "A Cidade Fantasma". Por causa disso, tenho quase certeza que pouca gente (pra não dizer ninguém) se assustou.

Mas, ei, eu finalmente concluí a série nesse sábado, e o último capítulo foi publicado no domingo! Foram mais de dois anos com essa historinha em produção. Claro que esse período de tempo ficou bem extenso por um número grande de razões, mas não é delas que eu vou falar aqui.
Na verdade, a razão que eu estou fazendo isso é para, simplesmente, falar um pouco das várias outras versões que a história teve, e, claro, abrir comentários de coisas que eu acho que devem ser melhoradas (não nessa ordem). OK? Bom, vamos lá...

domingo, 17 de novembro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 13: В гостях хорошо, а дома лучше

O elevador, sem sombra de dúvida, havia parado de funcionar a muito tempo. Por causa disso, eu me vi subindo as escadas. Eu havia colocado o fuzil que Ivan carregava apoiado na mochila, e andava com a espingarda em mãos, já destravada. 

Eu subia as escadas do prédio de forma vagarosa, para que não me desgastasse mais do que eu deveria... Tudo estava quieto, e bem escuro. A escadaria parecia sem fim, se estendendo sempre que eu subia um degrau. O tempo em que eu passava lá dentro me deixava cada vez mais tenso, e mais nervoso. Eu mantinha minha espingarda preparada, com os dois canos já apontados para a frente. 

Não sei bem quantos andares eu já tinha subido, mas minhas pernas ficaram fatigadas, e meus braços estavam exaustos. Olhei para uma porta, sem prestar atenção ao andar, e entrei. Eu cheguei em um corredor com quatro portas. Imediatamente assumi que era um apartamento de residência. Entrei na porta mais próxima e olhei aos meus arredores, rapidamente. 
Eu cheguei em uma sala de apartamento relativamente grande, com praticamente tudo no lugar. Algumas cadeiras cercando uma mesa, uma televisão no canto, um tapete posto no meio da sala, e um sofá voltado para a televisão. Quando me deparei com o sofá, eu dei uma olhada rápida para ele, mas logo prestei atenção nele novamente. Ele estava com uma trilha do que parecia ser sangue saindo dele. Eu a acompanhei com os olhos, e notei que ela vinha do mesmo canto de onde eu entrei. Preparei a espingarda, e me aproximei do móvel. Andei bem lentamente, esperando o ataque de alguma besta que estava parada lá. Quando eu estava perto o suficiente, dei passos rápidos, destravei a espingarda e olhei para a poltrona do sofá, com a arma mirada e pronta para atirar. 

Eu encontrei um corpo, insanamente ferido, com partes que faltavam, como um braço e parte do peito. Ele usava o uniforme da KGB, e ainda estava com a máscara de gás. O sangue já estava seco, e ele estava fedendo, o que indicava que ele morreu há algum tempo. Meus olhos desceram à procura de algo que o identificasse, e logo encontrei algo no chão. Parecia ser a ID dele, feita em ferro. Por algum motivo, eu já sabia qual era o nome que estava ali:

"Caleb...", murmurei enquanto lia a identificação. Olhei novamente para a forma miserável do corpo dele. "É engraçado", falei baixo,"Você me deixou pra trás pra que pudesse sair dessa vivo... E, no final das contas, você morreu antes de mim.". O corpo dele estava sem reação, e a máscara me impedia de ver sua expressão. "Eu devia estar feliz... Mas o que eu queria mesmo era te dar um soco na cara..."
Soltei a identificação dele no ar, e saí daquele lugar. Meu corpo estava cheio de fúria, o que me incentivou a voltar à escadaria, ao invés de ficar ali.
Quando voltei aos degraus e comecei a subi-los, minha mente refletiu um pouco. Naquele momento, eu relacionei minha fúria ao fato de não poder encontrar Caleb vivo e dar uma surra nele, e fazer ele se arrepender de ter me deixado pra morrer naquela noite. Eu achei que estava com raiva por nunca mais ter a chance de ter minha vingança... Mas, só muito depois que eu descobri que tinha ficado tão chateado porque eu estava sozinho, e eu queria alguém comigo, independente da companhia. Eu me senti abandonado pelo destino.
Enquanto eu pensava na morte de Caleb, me lembrei de todos os companheiros que eu havia perdido naquela cidade. Meus colegas do time Alfa, os membros do time Bravo, o general Jacques, Viktor... Ivan, que se tornou meu melhor amigo nessa jornada... 

Minha mente se perdeu nesses pensamentos, e eu fiz o que não deveria fazer, que foi ficar distraído. Mas, talvez por sorte, quando voltei a mim, eu já estava perto da saída para o telhado. 

Abri a porta lentamente, e olhei aos meus arredores, esperando por outro pássaro gigante dar as caras. Depois de uma checagem rápida, e me certificar de que nenhum maldito animal voador estava por perto, eu fui em direção à antena. 
O céu estava escurecendo novamente, mas era por causa da noite que se aproximava. O teto do prédio estava absolutamente deserto, apenas manchado pela chuva recente. Ao me deparar com o chão molhado, comecei a torcer para que a antena não tivesse se danificado. Me aproximei dela, e me certifiquei de que eu podia usá-la de alguma forma. Me aliviei ao descobrir que ela seria útil a mim, mas, então, uma onda de desespero bateu em mim. 
"Meu rádio-!", estava com o microfone quebrado. Como eu iria...?! Então, lembrei da mochila, e saí tirando tudo dela, tentando manter a esperança de que eu poderia encontrar alguma coisa. Foi quando eu achei um rádio e um fio para conectá-lo a antena. Logo ao lado dele estava um pequeno bilhete. Eu o peguei e o abri:

"Se você sobreviver e chegar até a antena, use isso aqui pra avisar ao mundo o que está acontecendo. De todo mundo que veio pra cá, pelo menos um de nós tem que sair...
Boa sorte Karl,

Ivan"

Uma lágrima desceu do meu olho, e um sorriso de alívio surgiu em meu rosto ao ler aquele bilhete. Olhei para o céu, e sussurrei:
"Obrigado Ivan.". Ele havia me dado a chave para a saída como seu último presente, e eu iria usá-la com gosto.

Eu pus o bilhete de volta na mochila e peguei o rádio e o fio. Eu os conectei à antena, e comecei a procurar alguma frequência que funcionasse. Eu tinha certeza de que uma delas seria encontrada pelo governo. 

Eu fui testando uma por uma, na esperança de que iria encontrar algo que desse certo. Enquanto eu fazia isso, eu olhava para a distância que aquela visão podia proporcionar. Ao olhar para o horizonte, eu me perguntei porque eu simplesmente não saia com um carro da cidade e seguia para uma comunidade próxima... Não precisei de muito tempo para achar uma resposta:
Eu tinha um dever a cumprir. Por mais terrível que fosse, eu tinha de avisar ao governo que a missão foi um fracasso, e que tinham de achar um outro jeito de manter os animais na cidade. Retornei meu foco ao rádio, e continuei testando. 

"QG, aqui é o time Alfa, da operação Chernobyl.", eu dizia, e esperava cinco minutos por alguma resposta. Passei um bom tempo fazendo isso, e, quando comecei a perder as esperanças, ouvi um retorno.

"Ti... Al..."
"QG?! Aqui é o time Alfa, de Chernobyl!"
"...Alfa?! Você pode me ouvir?", dizia a voz, com o som sendo estabilizado.
"Alto e claro senhor!", respondi, tentando segurar minha animação.
"Rápido, mandem a nota, encontramos Chernobyl!", gritou a voz para o fundo, que foi seguida por ovações. "Alfa, quantos sobreviventes nós temos?", admito que hesitei em responder. Perante àquela pergunta, eu fui confrontado novamente com as memórias de meus colegas mortos. "Alfa?"
"Só um, senhor...", falei, e uma onda de silêncio correu por alguns segundos.
"..............Entendo...", respondeu a voz.
"Por favor, eu estou requisitando uma equipe de resgate, e eu preciso falar com o presidente. Ele tem que saber o que aconteceu aqui."
"Alfa, me escute com atenção", me interrompeu a voz, "O presidente já está a par da situação. E ele já tomou as medidas necessárias.", por algum motivo, eu me assustei com aquilo.
"O que quer dizer?", perguntei, fitando o chão, imóvel.
"Alfa, me escute. Você tem aproximadamente vinte a trinta minutos para sair daí, antes que um grupo de aviões carregados com Napalm cheguem.", me aterrorizei e olhei aos meus arredores. "Nós tentamos convencer o presidente do contrário, mas ele não quer arriscar mais. Muitas vidas inocentes já foram perdidas." Mesmo naquele momento, eu não podia culpar ninguém. Eles sabiam que era muito perigoso deixar aquela cidade do jeito que estava, e que era idiotice mandar pessoas para tentar lidar com a situação. Muito depois daquilo tudo, me perguntei quantas pessoas foram demitidas naquele dia, por causa daquelas decisões, como silenciar a família de Ivan... "Não importa como, Alfa, mas você tem que sair daí!"
"Eu vou tentar", falei, engolindo o medo. "Tenho de ir agora!"
"Boa sorte, Alfa!", disse a voz, instantes antes de eu desconectar o rádio da antena e colocá-lo na mochila. Me armei novamente, e voltei para a escadaria. 

A descida foi insanamente mais rápida, e, em pouco tempo, eu estava no térreo novamente. Passei pelo corpo de Ivan e o olhei pela última vez. Doía o fato de eu não poder lhe dar um enterro digno, mas, se eu não saísse naquela hora, ninguém sobreviveria. Refoquei minha atenção, e corri até a saída. 

Do lado de fora, eu tentei olhar através da área cheia de corpos derretidos e podres, e procurar por algum veículo, fora o carro que eu e Ivan usamos a pouco tempo atrás. Então avistei um estacionamento. Lutei contra as dores do meu corpo e corri até ele. 
Lá dentro, eu mantive a espingarda preparada para atirar, já que, da última vez que eu entrei em um estacionamento daquela cidade, eu tive sorte de sair vivo. Encontrei um carro e o arrombei. Usei a espingarda para quebrar o vidro do motorista, e o destravei manualmente. Abri a porta e fiz ligação direta para que ele ligasse. 
Quando estabeleci o contato, saí da vaga e comecei a dirigir novamente. 

Pisei no acelerador para sair da cidade o mais rápido possível. Do lado de fora, tentei virar o carro para uma direção que me afastasse da usina. Eu sabia que aquele seria um dos principais alvos deles. Dobrei em uma esquina, e me deparei com vários habitantes saindo dos prédios e casas. Segui sem medo e atropelei alguns. 
Tentei manter o carro acelerado, enquanto que a uma velocidade que eu pudesse controlar para dobrar nas curvas sem riscos. Não adiantaria de nada ter ido tão longe só pra morrer ali. O som do carro ecoava pelas ruas silenciosas e vazias, e logo tive de acender os faróis para que eu pudesse enxergar alguma coisa. 

"Vamos lá, vamos lá...", murmurei, impaciente. 

Quando, de fato, anoiteceu, uma iluminação estranha apareceu alguns quilômetros à frente. Olhei com atenção e reconheci aquela forma.

"Você só pode estar brincando...", falei comigo mesmo. 

Era o cervo que havia destruído a antena próxima do acampamento. De longe, eu podia ver que seu corpo estava coberto por cicatrizes, arranhões, e alguns ferimentos grotescos. Eu pude vê-los com facilidade porque eles brilhavam com um vermelho intenso. Ele pareceu ter me reconhecido de nosso último confronto, e estava furioso. Ele soltou outro daqueles sons e veio em minha direção. Acelerei ainda mais o carro e passei logo por baixo das pernas dele. Dobrei na primeira entrada e tentei despistá-lo, mas o bastardo veio saltitando atrás de mim. Tentei manter o carro estável enquanto fazia tantas manobras para fugir, mas estava ficando difícil. E, pra piorar as coisas, ele se aproximava mais e mais. 
Finalmente, eu havia dobrado bruscamente em uma esquina, e continuei caminho. Olhei nos retrovisores, e ele havia sumido de minha vista. Respirei fundo e me ajeitei no assento. 

Quando fiz isso, um casco gigante acertou o capô do carro, o que o fez subir até o ar, e, com aquela velocidade, o fez voar vários metros. O carro capotou e deu várias cambalhotas pelo ar. Ele caiu com o porta-malas no chão, inclinado verticalmente. Talvez por causa do meu peso, ou alguma coisa assim, ele caiu com as rodas para baixo. 
Aquilo aconteceu tão rápido que eu não tive tempo de reagir. Quando eu percebi o que tinha acontecido, eu estava atordoado, zonzo, e com vontade de vomitar. 
Lentamente fui voltando aos meus sentidos. A primeira coisa que eu notei foi o capô do carro, que estava terrivelmente amassado. Imediatamente olhei para o painel, e, por algum milagre, o carro ainda estava funcionando. 
Ouvi a voz do cervo novamente, e o som dos cascos dele vinham em minha direção. Estendi o braço para pegar a espingarda, e mirei na direção da minha janela. Destravei a arma, e fiquei esperando. O som dos cascos ficava cada vez mais alto, até que eu vi que ele parou bem na frente da janela. Tudo o que eu podia ver era sua perna, e me mantive atento. 
Talvez por curiosidade, ele abaixou a cabeça e olhou para dentro do carro. Dei um tiro, sem dó nem piedade, no olho dele. Por causa do impacto e da dor, ele deu um grito de agonia e caiu ao chão. Eu imediatamente saí do carro e corri até a cabeça dele, onde descarreguei minha espingarda. Quando eu terminei de atirar, eu pude constatar que ele estava morto. 

"Isso é pela antena!", eu disse, seguindo com um chute no focinho dele, "E isso é pelo carro!", me afastei um pouco. "Filho da puta."
Eu não fiquei com remorso daquilo. Durante todo aquele tempo, aquela cidade me levou até meus limites e não teve piedade de mim. Porque diabos eu teria piedade de algo de lá?
Não tive tempo para comemorar minha vitória. Eu logo pude ouvir o som do motor dos aviões. Corri diretamente para o carro, e acelerei para sair dali. 
Mesmo com o veículo funcionando, aquela pancada tinha acabado com a performance dele consideravelmente. Mas, ele ainda era mais rápido que eu indo a pé. 

Passei mais alguns minutos dirigindo, ouvindo os aviões chegando cada vez mais perto. Fiquei mais ansioso do que eu já estava, e comecei a temer que eu não conseguiria me afastar a tempo. Minha respiração ficou pesada, e meu coração me surrava por dentro. Meus olhos não conseguiam mais piscar automaticamente, e eu estava tremendo. 
Para mim, foi uma eternidade até que eu chegasse até uma das saídas da cidade. Quando eu a avistei, fiz o carro ir o máximo que podia até ela. Ao passar pela saída, mantive minhas mãos firmes no volante, e me afastei pelo menos uns dez quilômetros. 

Eu pude ouvir os aviões soltando o Napalm na cidade, mas não olhei para trás. Continuei até forçar o carro aos seus limites. 

Houve um momento em que eu não podia continuar dirigindo. O carro iria explodir se eu o forçasse ainda mais, e meu corpo implorava por descanso. Estacionei o carro no meio da floresta que cercava a cidade, peguei a mochila, saí dele e me afastei... Andei vários metros, em busca de uma rodovia. Eu sabia que teria alguma chance se eu encontrasse uma e ficasse por perto. Talvez alguém poderia passar por lá. 

Não sei quanto tempo eu andei, mas me pareceu uma eternidade. Toda a dor que eu ignorei naquelas últimas horas, somada com o choque psicológico daquela experiência, me pegaram com força total, e me deixaram fraco, vulnerável e exausto. Meu corpo parecia pesar uma tonelada, e o mesmo valia para a mochila que eu ainda carregava nas minhas costas. Mas eu não queria ficar sem ela... Eu não sabia que ainda podia estar à minha frente. 
Meu coração começou a bater com mais força, meus olhos tentavam fechar, e eu precisava arrastar os pés no chão para me locomover. Por mais que eu quisesse resistir, meu corpo precisava descansar. Toda aquela dor se espalhava pelo meu corpo, minha cabeça estava sobrecarregada, e eu não conseguia pensar direito.
Com mais dois passos, eu desabei. Caí com a cara no chão. Com o resto das minhas forças, eu pus a mochila ao meu lado, e me virei. Quando eu fiz isso, eu desmaiei...



Eu acordei semanas depois, em um hospital de Moscou. Meu corpo estava cheio de faixas, e eu estava com soro sendo injetado em minhas veias. Minha máscara de gás tinha sido removida, e trocada por uma de oxigênio. 
Olhei ao meu redor, sem mexer a cabeça, e vi que eu estava sozinho na sala, com duas enfermeiras conversando ao fundo. Ouvi uma delas dizendo algo como 
"Acharam ele na floresta, quase morto. Se não tivessem trazido ele na hora que trouxeram..."
Imaginei logo que a KGB havia me encontrado e me tirado da floresta.

Tentei me mexer, mas estava tão quebrado que qualquer movimento doía. Relaxei sob o travesseiro, e, por alguns segundos, refleti sobre tudo o que aconteceu comigo. Então, lembrei da promessa que eu tinha feito lá... Nesse momento, ouvi uma voz familiar, cheia de esperança e de alívio ao meu lado:

"Karl...?"

Virei minha cabeça para sua direção. Toda a dor sumiu quando olhei nos olhos de Ivana. Ignorei tudo o que eu estava sentindo, e a abracei.

"Eu sinto muito...", comecei.

"Bem-vindo de volta...", disse ela.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 12: Morte

Pisei ainda mais no acelerador, enquanto a águia nos sobrevoava e gritava. 
"Karl, não pára de dirigir!", disse Ivan, enquanto ele se rastejava para os bancos de trás.
"O que você vai fazer?!", gritei.
"Eu vou manter essa coisa ocupada, você se foca em levar a gente de volta para a cidade.", respondeu ele, pegando um fuzil e tirando a trava dele.
Tentei controlar meus nervos, e virei minha atenção para a rodovia. Mais adiante, eu pude ver a formação de uma chuva. 

A estrada estava escura, e as gotas d'água começaram a aparecer. Mas, a radiação tinha mudado um pouco as coisas, e aquela não parecia uma chuva qualquer. Não precisei de cinco segundos pra entender:

"CHUVA ÁCIDA!", gritei. 
"DROGA! HOJE NÃO É MEU DIA!", gritou Ivan. 

Eu ouvi o grito da águia, e o som do vento batendo contra as asas dela. Não sei bem o que, mas algo acertou a traseira do carro, o que o levantou alguns centímetros e, depois, o pôs de volta ao chão. 
Tentei me recompor no assento, e mantive meu foco. Logo ouvi os sons dos tiros de Ivan contra a águia. Pude notar que alguns ricocheteavam, enquanto outros pareciam acertar alguma coisa macia. 
Enquanto isso, as gotas da chuva começavam a deteriorar o interior do carro. Os assentos começaram a ficar mais e mais quentes, e cheios de buracos, e o mesmo ocorria com o painel e o volante. Comecei a torcer para que chegássemos na cidade logo. 

Ivan pôs a mão no meu ombro por um segundo, e me fez olhar para ele. 

"Escuta, ela vai ficar voando, e vai tentar fazer um voo rasante de vez em-", disse ele, olhando de novo para a águia, e gritando logo depois "DROGA! PRA ESQUERDA!"
Entendi e, imediatamente, dobrei para a esquerda. A águia passou logo pelo lado do carro, e por pouco, não nos atingiu. 
Ivan não precisou terminar sua frase para que eu entendesse o que ele queria. Logo tracei um plano, e mantive curso fora da rodovia.
"Se segura!", gritei, "Vai ficar um pouco turbulento!".

Enquanto dirigia, eu olhava aos meus arredores para ver o que eu podia utilizar contra a águia. Logo entrei em uma pequena floresta que estava lá perto. Ivan voltou a atirar na águia, que ainda nos seguia insistentemente. 
"DIREITA, VIRA PRA DIREITA!", gritou ele. 

Virei o carro para a direita, mas ainda não tínhamos sido capazes de despistá-la. Ouvi mais tiros sendo feitos e, apesar de Ivan acertar a águia com uma acurácia perfeita, nada parecia pará-la. 

"DROGA! SERÁ QUE ESSA COISA NÃO MORRE?!", gritou ele. 

Fiquei impaciente, e quis me ver livre daquela situação toda. Olhei para a frente, e me deparei com os prédios da cidade.

"Ivan! Põe os cintos!", gritei.
"Pra quê?!"
"AGORA!"

Ele não hesitou em me obedecer, então, dei meia-volta com o carro em uma manobra cavalo de pau, e o pus de frente para a águia, que ainda estava afastada de nós, mas vinha rápido. Tirei o cinto e me pus de pé no assento do carro. Sem tirar o olhar da águia, estendi meu braço para Ivan:

"A espingarda! Rápido!"

Sem resistência, ele a puxou da mochila e me entregou. Eu a peguei, destravei-a e mirei para a águia:

"Você vai querer sair do carro.", comentei. 

Ivan soube que era com ele, e se afastou. 

Fiquei firme em meus pés, e mirei cautelosamente para a águia. Ela pareceu notar o meu desafio, e voou na minha direção sem medo. 
Firmei minha mira, e me mantive imóvel. 
Toda aquela manobra me deixou mais dolorido, mas eu não estava dando a mínima. Eu queria sair daquele inferno, e, agora que existia uma possível saída, eu não ia deixar nada ficar no meu caminho. 
À medida em que ela se aproximava, eu pude notar os ferimentos causados pelas balas de Ivan, e como ela parecia fatigada com aquela perseguição. 

Quando ela chegou perto o suficiente, murmurei:

"Obratno v ad , d'yavol", e puxei o gatilho. Estávamos tão próximos, que o tiro foi em direção ao bico dela. Não sei quanto à bala, mas o impacto foi o suficiente para que o bico quebrasse, e para que ela ficasse sem direção. Ela passou alguns centímetros próxima do carro, e bateu de frente com uma árvore próxima. 

Baixei a espingarda e olhei para Ivan. 

"É assim que se derruba um pato, seu idiota.", falei.

Por causa da máscara, não sei qual foi a reação dele, mas pude ouvir um riso. 

Por alguma razão, olhei de novo para a águia, e notei algo que não estava lá dois segundos antes. Os habitantes da cidade que haviam sofrido mutação. 
Olhei para os arredores e vi que estávamos cercados. Ivan também notou isso e voltou para dentro do carro.

"Vamos dar o fora daqui!", disse ele, enquanto eu me sentava de novo e pisava no acelerador. 
Manobrei o carro e segui para Chernobyl. 
Alguns deles ficaram na nossa frente, mas eu não hesitei em passar por cima deles. 

Em poucos instantes, entramos na cidade de novo, mas, para nosso azar, era em uma área cheia deles. 
Para piorar a situação, a chuva começou a piorar, e o volante estava ficando difícil de manusear. Além disso, nossos trajes não iriam aguentar por muito tempo. 

Ivan, então, apontou em uma direção.

"ALI!", olhei e também vi a antena. "Rápido, antes que ela fique sem funcionar!"

Acelerei pelo campo de monstros, atropelando todos eles. O carro começou a tremer demais. 

"Karl! Temos que descer aqui!", gritou Ivan, "o carro não foi feito pra atropelar nada!". Ignorei o aviso dele por um segundo, e continuei dirigindo. Mas, não demorou nada para que o carro morresse... 

"DROGA!", gritei. 
"KARL, VAMOS LOGO!"

Sem outra alternativa, peguei a mochila, saí do carro com Ivan, e usei a espingarda para abrir caminho entre os monstros. Dei dois tiros para tirá-los do caminho, e me pus a bater neles com ela, usando a força que eu tinha. 

Eu e Ivan corremos até o prédio da antena. Ele usou do fuzil para matar os que estavam logo à nossa frente, enquanto eu me encarregava de acertar os que estavam perto demais. 
Quando chegamos perto, nos jogamos para dentro do prédio e fechamos as portas, que eram de vidro. Imediatamente nos viramos para elas e esperamos que os monstros começassem a chegar, com nossas armas preparadas para atirar. 

Um deles chegou na porta, mas, aparentemente, não tinha força o suficiente para abri-la. Foi quando eu notei que a chuva os machucava também, e vários deles começaram a desintegrar em nossa frente. Baixamos as armas, enquanto olhávamos para eles.

"A natureza encontrou um jeito de limpar a si mesma...", sussurrou Ivan. 

Lentamente, eu senti a tensão saindo do corpo, e respirei fundo. Bati a mão no ombro de Ivan, e andei na direção oposta. Ele ainda passou um tempo olhando para o lado de fora. Olhei para trás e notei que a chuva começava a parar. 
Ivan passou mais alguns momentos parado, e veio em minha direção. Andamos juntos até perto do elevador. Quando chegamos perto, Ivan caiu. Olhei para ele, e corri em seu auxílio. Eu o virei para que ele ficasse de costas pro chão. 

"Ivan, você..."
"É... Parece que é agora...", falou ele, com um tom de riso, que, na hora, eu não compreendi bem.
"Não, ainda não, você vem comigo! Só espera que eu vou..."
"Não...", olhei para ele. "Karl, não..."
Fiquei sem reação, olhando para ele.
"Não tem pra que eu sair mais... Minha família morreu... Meu corpo tá destruído... E nada no mundo vai poder me salvar disso..."
Ainda sem saber como reagir, fiquei apenas observando-o.
"Me deixa morrer... É o que eu quero...", disse ele.
Por mais que eu quisesse ajudá-lo, eu sabia que não havia mais nada pra ele no nosso mundo. Ele perdeu tudo, e não tinha chance de recuperação... Apenas balancei a cabeça positivamente. 
"Obrigado... Karl... Se você sair daqui, diz pra Ivana que eu... mandei um... abraço..."
Sua cabeça lentamente pendeu para um lado, e ele morreu...

Estiquei a mão para a abertura do seu capacete, e fechei seu olho. Baixei a cabeça por um segundo, e me mantive em silêncio, em luto a ele. 

Depois de alguns instantes, me levantei, e olhei para o interior do prédio. Peguei o fuzil que Ivan carregava, e subi as escadas lá próximas. 

A Cidade Fantasma - Capítulo 11: Da panela para a frigideira

Quando Viktor me fitou pelo espelho, eu imediatamente me virei na direção da saída e tentei correr para lá. Só que, no meu estado físico, era impossível que eu me movesse bruscamente sem sentir dores extremamente fortes na região do peito. 
Corri em uma velocidade muito baixa, enquanto que o monstro chegava cada vez mais perto. Antes de eu chegar na porta, eu fui puxado pela perna e jogado no chão. 

"AH! PORRA!", gritei ao sentir o impacto do chão. 

Fiquei imóvel, enquanto Viktor se aproximava de mim. Eu tentei me levantar, mas, se eu tive problemas para me levantar tendo uma parede para me apoiar, era impossível me erguer sem apoio; além disso, minhas forças tinham sido drenadas com aquele golpe. 
Viktor derrubou seu braço metálico bem ao lado da minha cabeça, o que me fez estremecer ainda mais. Ele me pegou pelo colarinho do meu traje e me puxou até a área onde aquela formação de corium estava, me arrastando pelas costas no processo.

"Meu Deus, meu Deus, meu Deus...", murmurei, tentando unir forças para sair dali. Mas, eu não conseguia... Nem os meus braços eu conseguia levantar mais.
Quando chegamos na sala da formação, comecei a sentir o calor se intensificar à medida em que nos aproximávamos dela. Eu podia me ver no pedaço de espelho à frente, e a formação... Ela estava próxima, próxima até demais...

O desespero me deu força para levantar os braços e tentar fazer Viktor me soltar, mas ele estava tão firme que eu nem pude mexer seus dedos. 
Mas, eu ainda não estava pronto para desistir. Sendo arrastado de costas, eu tentei firmar meus pés ao chão, para ficar de pé e tentar fugir de novo. 
Sentindo muita dor, eu consegui colocar meus pés no chão, e comecei a puxar o resto do meu corpo. 
Não sei bem como, mas eu estava conseguindo retardar Viktor. Tentei colocar mais força, e ele parou de andar e olhou para mim. 
Furioso com minha tentativa, ele me jogou contra uma parede, o que me deixou ainda mais quebrado.

"Argh!"

Ele parecia saber que eu não iria a lugar nenhum tão rápido, e veio se movendo lentamente. Não sei porque, mas eu notei um prazer sádico vindo dele. Enquanto ele vinha até mim, eu ouvi uma voz familiar gritando à distância:

"KARL?!"

"Ivan...?!", murmurei, surpreso, "IVAN!"

Viktor não parecia ter notado nossas vozes, e continuou seu ritmo. 

"Karl! Onde você está?!", gritou Ivan.
"Na sala do reator!", respondi, sem esconder o desespero "Rápido!"

Tentei me mexer para, pelo menos, me afastar do monstro, mas eu não conseguia. 
Quando Viktor estava perigosamente perto, ele foi puxado para trás por alguma coisa. Mesmo sem poder ver claramente, eu tinha certeza de que era Ivan, mas, ao mesmo tempo, eu duvidava se era mesmo ele, já que os dois começaram a combater corpo-a-corpo.

Ivan e Viktor pareciam lutar de igual para igual. Imaginei por um segundo que aquilo poderia ser alguma alucinação. Balancei a cabeça e tentei me recompor. Olhei de novo, e, quando vi Ivan jogando Viktor na direção da formação de Corium, por algum motivo, eu virei o rosto, e olhei pelo espelho... Ivan puxou a cabeça de Viktor e a bateu na formação várias vezes, enquanto o mesmo gritava de dor. Eu acompanhava tudo, assustado... O que tinha acontecido com Ivan? Como ele ficou daquele jeito?!
Depois do que pareceu uma eternidade, Ivan soltou o corpo de Viktor, que caiu ao chão sem resistência. Ele, então, se afastou rápido da formação do Corium, e se aproximou de mim com relativa velocidade. Quando ele chegou mais perto, eu notei que ele usava uma máscara quebrada na cabeça, com apenas seu olho à mostra. Me estendeu a mão:

"É a segunda vez que salvo essa sua bunda, Karl.", disse ele, com certa ironia.
"Como diabo você...?", perguntei, ainda sem acreditar naquela cena que eu vi.

Ele me puxou pelo braço e se fez de apoio para mim. 

"Demorou um tempo pra eu descobrir...", por causa da máscara, eu não podia ver sua expressão, "Mas, eu acho que é a radiação desse lugar que está me deixando assim", disse ele, enquanto saíamos da sala.
"Não faz sentido...", comentei, "E quanto àquelas coisas?"
"Eu acho que elas ficaram daquele jeito por que foram expostos demais à radiação.", disse ele. "Já eu e o Viktor estávamos menos expostos, por causa dos trajes."
Conveniente, pensei, conveniente até demais. 

Andamos por algum tempo em silêncio, atentos ao que podíamos ouvir na usina. 

Quando estávamos perto da saída da usina, me afastei um pouco de Ivan, e comecei a andar sozinho. Com apenas alguns passos, ouvi um som de engúio, e imediatamente olhei para trás. Ivan, havia se abaixado, e com as duas mãos na barriga.

"Droga!", grunhiu ele.
"O que foi? O que aconteceu?", perguntei, me aproximando dele. 
"Escuta!", disse ele, "Sem tempo pra isso!", ele falava arfando, "Tem um carro... Do lado de fora... A gente pode usar ele... Pra sair daqui!"

Nós dois nos movemos, da forma que podíamos, para o lado de fora, e logo vi o carro que Ivan tinha mencionado. O lado de fora estava muito escuro, e eu imediatamente presumi que a causa era aquela formação de Corium dentro da usina. Só de pensar naquilo, até hoje, me dá calafrios... Havia algo... terrível com aquilo. 
Fomos até o carro e, considerando a condição que meu colega estava, me dispus a dirigir. Quando entramos no carro, utilizei a técnica de ligação direta para ativá-lo.

"Pra onde a gente vai agora?", perguntei.
"Pra cidade...", disse Ivan.
"Você ficou louco?! Não podemos voltar lá, não com todas aquelas coisas-"
"Karl... Nós temos que contactar alguém... Esse carro não tem gasolina pra nos tirar daqui..."

Por mais que doesse, eu tive de concordar com ele... Teríamos poucas chances fora da cidade, ao menos naquelas condições. 
Puxei a marcha, e dirigi de volta para Chernobyl... 

Enquanto íamos seguindo, Ivan decidiu me explicar o que havia acontecido com ele...

"Quando você caiu, lá naquele sótão, o Viktor veio direto pra mim... Eu não sabia o que fazer, então eu atirei nas pernas dele e saí correndo... Acho que ele não quis vir atrás de mim, e te pegou. Eu vi ele te arrastando pra fora da casa, e, antes de ir atrás de vocês, eu decidi pegar a sua mochila no sótão...", ele apontou para o banco de trás do carro, e, lá, eu vi a mochila com nossas armas. "Eu perdi vocês de vista quando eu olhei de novo... Mas, por alguma razão, eu já sabia onde vocês estavam indo. Foi quando eu peguei um carro. Esse aqui foi o único que eu achei com um vidro aberto, e fácil de pegar. Todos os outros estavam muito... não sei... difíceis...", eu não estava prestando atenção, mas acho que ele havia olhado pra mim. Passamos alguns momentos em silêncio, com apenas o som do motor do carro no ar.
"O que aconteceu com você?", perguntei "Eu notei que você estava sentindo dor..."
"Não tenho certeza ainda...", disse ele, "Mas eu ando me sentindo...", ele ficou sem falar nada.
Olhei para ele por um segundo, e retornei meu olhar para a estrada. 
"Ivan?", perguntei. 
Meus olhos estavam fixados na estrada, mas pude notar que ele se mexeu um pouco.
"...Instável" Concluiu ele. 

"Que diabo foi isso?", perguntei.
"Isso o que?", perguntou ele.
"Isso!", disse, "Você passou uns dois segundos apagado aí!", disse, com um pouco de exaltação. 

Ele passou um tempo quieto, como se estivesse pensando em alguma coisa. Quando eu ia falando alguma coisa, ele disse:

"Minha cabeça...", disse ele, com um tom baixo, "Meu cérebro está...", ele pôs a mão no meu ombro, e falou, com um tom de urgência: "Karl! Temos que voltar para a cidade agora!"
"O que você acha que estou fazendo?!", eu disse, nervoso com aquela situação toda.
"Precisamos ir mais rápido!", disse ele, praticamente me obrigando a pisar fundo no acelerador.

O carro chegou em uma velocidade perigosa, que eu não usaria em nenhuma rodovia no mundo.

"Dá pra me dizer o que está acontecendo?!", perguntei, frustrado, e tentando manter o controle do carro.
"Escuta, eu não sei quanto tempo eu tenho, mas eu posso te ajudar a sair daqui!", disse ele.
"Como?!"
"No caminho pra usina, eu vi uma antena nos arredores da cidade.", olhei para ele por um segundo, e depois voltei o olhar para a rodovia, "Ela parecia estar em boas condições... E eu acho que você podia-!"

Um som forte de metal sendo batido, esmagado e rasgado ecoou em nossas cabeças, junto com um tremor no carro inteiro.

"O que diabos?!"

O teto do carro foi arrancado fora, e nós dois vimos a responsável por aquilo tudo. Era a águia, novamente, e ela parecia muito interessada em continuar de onde tínhamos parado... 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A Cidade Fantasma - Update

Olha, faz muito, mas muito tempo, desde a última vez que eu estive feliz com alguma coisa nesse blog, ao menos no nível que minha história "A Cidade Fantasma" vem me deixando.
Eu a comecei tem uns dois anos, e, a passos de caracol, venho escrevendo e revelando novos capítulos. Só que, foi um pouco mais recentemente que eu senti que a história vem chamando um pouco de atenção. E, dessa vez, não é de comentários raivosos. A reação positiva que a história vem recebendo, mesmo sendo pequena, é muita coisa para mim, e eu fico grato por isso. Mas, não é por isso que eu estou escrevendo essa postagem.

Mesmo sendo bem recebida, não é preciso ser nenhum expert para saber que A Cidade Fantasma é um trabalho bem amador, e que não é, de forma alguma, perfeita. O seu estado está ótimo para uma história de internet, verdade, mas eu tenho certeza que ela tem um potencial bem maior, se escrita da maneira correta, e com alterações, subtrações e/ou adições aqui ou ali. Digo isso, em especial, pensando nos prólogos, que bem que poderiam receber uma melhorada.

Junto com essas atualizações na narrativa, eu decidi também outra ideia, que, eu ao menos, considerei que seria bacana.

Eu gosto de desenhar. E, ironicamente, sou mais-ou-menos... Mas, de todo jeito, decidi que, junto com as atualizações, pode rolar de eu adicionar imagens ilustrativas de certos acontecimentos da história. Eu já até tenho algumas ideias em potencial, para uma das cenas do prólogo, e várias dos capítulos seguintes.

Não preciso dizer que, para fazer tudo isso, será necessário que, primeiro, eu tenha de terminar a história inteira, esperar uns meses, e, só aí, reler tudo e ver o que dá pra melhorar.
Esse intervalo de meses, não só é necessário para que eu releia o texto com uma cabeça mais distante do olhar do autor e relativamente mais próximo do olhar do leitor*, como também é o tempo que eu preciso para ir fazendo as imagens, uma por uma.
Inclusive, já iniciei o rascunho da arte conceitual do uniforme anti-radiação da KGB (com design de minha autoria, devo ressaltar), que você confere abaixo:


Eu disse rascunho...

Bom, pra terminar, eu só gostaria de agradecer ao pessoal que está gostando da história (nem que seja só por mera falta do que fazer). Sério mesmo, saber que isso está deixando alguém entretido me deixa bem satisfeito.

Obrigado pessoal, e até mais.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 10: O pé de elefante

Não sei quanto tempo eu passei apagado, dessa vez... Quando eu acordei, eu ainda sentia minhas costelas latejando por causa da dor, e isso me impedia de me mexer muito. Minha cabeça doía, e, mesmo com meu equipamento, eu sentia o calor do lado de fora. Eu ainda estava zonzo, então evitei movimentos desnecessários. Eu estava sentado à parede de um lugar escuro, preso em uma sala relativamente apertada, e sem muitos detalhes. A única coisa que eu conseguia notar era uma porta, e um objeto que não pude identificar bem à minha frente. A sala era espaçosa o suficiente para que minhas pernas ficassem esticadas, e o objeto estava afastado alguns metros. Enquanto meus olhos focavam, eu puxei minha perna esquerda, e tentei me levantar devagar. Meus sentidos ainda não tinham voltado completamente, e a dor ainda era demais, então desisti...
Meus olhos se voltaram para aquele objeto indefinível na minha frente. Fiquei curioso, e comecei a pensar no que eu estava vendo. O que era aquilo? Uma pedra? Um pedaço de escombro? Comecei a pensar demais nisso, e me vi pensando naqueles meus pensamentos depressivos de antes... Aquilo tudo foi um sonho? Parecia tão real agora pouco, eu pensava... Olhei de novo para o objeto, e comecei a teorizar novamente... Isso é real? Aquela sala era tão sem-vida quanto a outra em que eu estive no meu sonho. Como eu podia ter certeza do que era real ou não? Pus minha cabeça contra a parede atrás de mim, e tentei reorganizar meus pensamentos...
Com pouco tempo, meus ouvidos passaram a detectar melhor os sons. Comecei a ouvir um ruído afastado que eu não soube distinguir. Parecia alguma coisa pesada sendo arrastada. Poucos instantes depois, a porta da sala onde eu estava foi aberta, e um vulto grande e desajeitado entrou. Eu não pude distingui-lo muito bem, mas boa parte de mim já sabia o que era aquilo... Em outra situação, eu teria tentado me levantar e correr, aproveitando que ele estava de costas, mas eu estava tão quebrado e tão zonzo que eu não tive nem interesse em me salvar. 
O monstro pegou o objeto na minha frente e o puxou. Quando ele passou por mim, eu vi que se tratava de uma pessoa. Por estar arrastando a pessoa, e só ter um braço real, o monstro deixou a porta aberta. Tentei acompanha-los com meu olhar, para ver o que ia acontecer, mas, infelizmente, eles passaram por um corredor estreito, e sumiram de minha vista... 
Algum tempo depois, comecei a ouvir sons de coisas metálicas se colidindo... Como se dois bastões de metal estivessem se acertando violentamente. 
Fiquei perturbado com aquela situação, e eu tinha certeza que o que eu estava ouvindo tinha a ver com o monstro e a pessoa que ele arrastou para lá. Eu não ia ficar pra esperar que ele me pegasse. Eu tinha que sair dali. 

Reuni toda a força que eu tinha, e, mesmo sentindo as costelas latejando de dor, e o ferimento da bala se abrindo de novo, eu tentei me levantar. Comecei a grunhir, e, já lacrimejando de dor, eu pude me colocar de pé. 
Eu me sentia pior do que antes... "Mas, pelo menos, agora eu posso andar...", tentei manter meu otimismo. Coloquei minhas duas mãos, nas minhas costelas, para tentar amenizar a dor e para não balançar muito meus braços. Fui até a entrada da sala, e olhei aos meus arredores. A área de fora parecia bem controlada, e relativamente organizada, considerando os padrões da cidade em seu estado atual. Nas paredes, cinzas e frias, eu via várias placas contendo as direções para setores diferentes daquele lugar e alguns dos sinais de alerta de radiação... Não demorou mais do que alguns segundos para que eu descobrisse onde diabos eu estava. 

"A usina de Chernobyl!", murmurei. 
Aquilo explicava o calor... Devia estar vindo dos reatores. 

"Droga, droga, droga! Eu tenho que sair daqui!", pensei, levando em consideração a quantidade absurda de radiação que tinha ali. Se era perigoso andar pela cidade, me tremi ao pensar o que podia acontecer ali... 
Minha condição física me impedia de correr, então eu tive de sair andando em busca de uma saída. Me guiei pelas placas e, infelizmente, me vi obrigado a ir pelo mesmo corredor que Viktor e sua vítima foram. A passos de lesma, fui andando pelo interior morto da usina. Enquanto eu andava, eu cheguei a outra sala, um pouco maior que a primeira, mas com algo que me assustou. Era uma visão horripilante... A sala era cheia de marcas no chão, e palavras escritas nas paredes, pintadas por algo que me lembrou sangue... Todas elas tinham frases diferentes, mas indicavam a mesma coisa:

"Aqui mora o diabo" 

Meu horror foi misturado com uma enorme curiosidade... E tudo isso por conta de um detalhe...

Quando nós tínhamos sido mandados para a cidade, vinte dias atrás, nossas informações eram a de que os animais que estavam ao redor da cidade haviam sofrido mutação, e que precisávamos contê-los. Mas, as mensagens nas paredes indicavam que não um animal, mas uma pessoa, havia sofrido mutação e saiu matando a todos. E era aí que estava o paradoxo... Pelas informações que eu tinha, os humanos, por algum motivo, se transformavam nas criaturas frágeis e horríveis que eu e Ivan havíamos evitado contato. E... O único que havíamos visto que realmente era uma ameaça era Viktor, mas ele se transformou depois do acidente. 
Comecei a criar teorias. Será que alguma pessoa se transformou, e causou o acidente em sua fúria? Ou, todas essas marcas e avisos foram feitos enquanto o acidente ocorria? Minha mente começou a procurar suspeitos, mas, eu não encontrava nada que realmente fosse digno de ser considerado. 
Olhei para as pinturas na parede mais uma vez e tentei pensar em mais alguma coisa. Foi quando eu ouvi aqueles sons de metal novamente. Por causa do eco da usina, eu não consegui discernir de onde eles vinham. Olhei na direção de um corredor, e segui por ele, torcendo para não ir onde aqueles sons estavam sendo feitos.

O corredor levava a escadas escuras, com alguns fios cortados, e, para minha surpresa, faíscas de eletricidade saindo deles. Ao final, uma porta arranhada, com os dizeres "Não entre aqui". Todos os meus instintos disseram para não entrar, mas minha curiosidade falou mais alto, e eu decidi abrir a porta. 

Eu estava no que deveria ter sido uma sala de descontaminação. Falo assim porque ela estava imunda, com sangue para todos os lados, e cadáveres destruídos no chão. Fiquei tremendamente assustado, e olhei para a porta bem à frente, onde deveriam ficar os reatores. Ela tinha uma janelinha que, usualmente, me permitiria ver o que tinha do outro lado, mas ela, também, estava cheia de sangue. 
Mesmo com medo, dei alguns passos à frente, e, lentamente, passei pela porta. 
Do outro lado, encontrei a sala do reator. Ela estava tão suja quanto a outra, e comecei a pensar se eu realmente deveria estar ali... 

Com mais alguns passos, eu encontrei um pedaço de espelho quebrado no chão. Olhei em seu reflexo, e encontrei Viktor novamente. Estremeci... Olhando cuidadosamente, eu notei que ele havia colocado aquele corpo, que estava na mesma sala que eu, em cima de uma formação grotesca do que parecia ser o dejeto de material nuclear, o que mais tarde eu descobri que se chamava corium.
"O que diabos é aquilo?", pensei...

Viktor ergueu seu braço metálico e pôs-se a esmagar o corpo de sua vítima na formação. Cada pancada parecia ser, e soava, extremamente forte, e, enquanto o corpo era clara grotescamente esmagado, a formação continuava intacta. 
"Espera um pouco...", notei algo estranho. 
À medida em que o corpo ia sendo esmagado, ele ia mudando de cor, e, eventualmente, de forma. 

Quando Viktor pareceu terminar, ele levantou o corpo e o jogou para perto de onde eu estava. Quando eu o vi com mais detalhes, eu percebi. 
"São as coisas que me atacaram antes! Então é assim que eles são feitos!", pensei...

A coisa, que eu podia jurar que estava morta, virou sua cabeça para mim, e soltou um gemido surdo, o qual eu mal pude ouvir. Mas Viktor ouviu, e muito bem... Ele imediatamente parou o que estava fazendo e olhou em minha direção. Eu me escondi, em vão, pois logo notei que ele estava me vendo pelo reflexo do espelho. 

Minha espinha congelou, e eu entrei em pânico... 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 9: Realização

Quando Viktor veio em minha direção, dei um tiro certeiro em seu joelho e pulei para o lado, para desviar dele, ficando deitado no chão. A bala o fez perder o equilíbrio, e ele foi ao chão. Pude notar que ele tentava se levantar, enquanto gritava de forma agoniante, mas não conseguia muito equilíbrio por causa do braço fundido que ele tinha. 
Ivan correu até mim, e me ergueu. 
"Rápido! Temos que sair daqui!", disse ele.

Corremos para dentro da casa e subimos as escadas, tudo isso enquanto ouvíamos o som daquele braço metálico batendo fortemente nas ladrilhos da casa. No andar de cima, nos escondemos em um quarto, e ficamos em posição para atirar. 

"Droga, droga! O que a gente faz?!"

Tentei pensar nas nossas opções. E fui falando à medida em que eu ia lembrando:

"E se saíssemos da casa?"
"Nem pensar! Tem muitos daqueles monstros lá fora. Estaremos mortos em minutos!", disse Ivan.
"Erm...  Talvez nós possamos ficar e..."
"Você enlouqueceu?! Não temos a menor chance contra o Viktor, nem recursos suficientes pra sobreviver em uma batalha contra ele!"
"Espera aí... Recursos?", murmurei, me lembrando do lugar de onde tínhamos vindo. "É isso, o sótão!"
"Acha que tem alguma coisa lá que podemos usar?", perguntou Ivan.
"É isso ou nada!", eu disse, já preparado para correr para lá. 
Sem dizer nada, Ivan cedeu e abriu a porta do quarto. Corremos o mais rápido que pudemos até o sótão, e nos trancamos lá. 
Ivan manteve-se pressionado contra a passagem, e eu comecei a procurar alguma coisa útil. Em meio às caixas empoeiradas e cheias de teias de aranha, e aos objetos espalhados no chão, alguns até quebrados, não encontrei mais do que algumas lanternas e caixas de fósforo... 
Ouvimos o grito terrível de Viktor novamente, e ele parecia estar subindo as escadas. 

"Por favor, me diz que achou alguma coisa!"

"Droga! Não tem nada aqui!"

Fiquei desesperado, eu ia morrer ali?! Daquele jeito?! Pus as mãos na cabeça e fui andando para trás. Minhas costas acertaram na parede, e, então, eu lembrei que ainda carregava a mochila nas costas, com todo o conteúdo que tínhamos pego no armazém mais cedo. Tirei-a das costas e abri, rezando para encontrar o que eu queria. 

"O que você... Argh!" grunhiu Ivan, certamente com dor, mas eu estava muito nervoso para notar naquele momento. 
"ISSO!" gritei, puxando a espingarda do armazém. Eu a carreguei com os cartuchos e a destravei. Aquele som certamente chamou a atenção de Viktor, que parecia estar bem abaixo de nós. "Ivan!", gritei, e ele saiu do caminho. Mirei a espingarda, e fiquei aguardando... 

"Você só pode estar brincando!" disse Ivan, "Nós não temos chance contra ele!"

"Temos que tentar!", gritei, "Não é como se tivéssemos escolha!"

A porta levou uma pancada furiosa, que assustou a mim e a Ivan... Era Viktor querendo entrar. 

"Firme...", murmurei para mim mesmo. 

Outra pancada, que dessa vez arranhou a porta. "Firme..." Na terceira pancada, Viktor enfiara seu braço não-metálico. "Karl!", gritou Ivan. 
Comecei a tremer "Firme...". Na quarta pancada, Viktor reduziu a porta a pedaços e, no mesmo segundo, eu apertei o gatilho, acertando o peito dele. Ele deu um passo para trás por causa do impacto, mas ele deu um impulso violento e me acertou no tórax com seu braço de metal, o que me fez voar contra uma parede e cair de cara no chão. Foi tudo tão rápido que não tive chance de sentir a dor. 
Tive falta de ar, e tudo ficou embaçado e surdo. Ouvi os sons de tiros ao longe, e a dor começou a aparecer. Uma lágrima desceu, e eu tive a sensação de que haviam jogado uma bigorna nas minhas costelas. Eu não conseguia gritar, nem me mexer. Estava paralisado, mais uma vez... 

Tudo escureceu... Mas, dessa vez eu não apaguei... Eu não sei bem se o que eu tive foi uma epifania ou um simples delírio. Tudo o que sei é que, daquela vez, eu comecei a refletir sobre tudo o que estava acontecendo... 

Eu me vi sozinho em um espaço escuro, em completo silêncio, ouvindo apenas o som da minha própria respiração... Baixei a cabeça...
Tinha pouco mais de 24 horas desde o meu retorno a Chernobyl, e eu já tinha sido nocauteado nada menos do que três vezes... 

"Grande merda de soldado especial", falei... "Meu treinamento foi intenso, e eu saí de lá pronto para encarar qualquer coisa. Como diabos eu caí mais de uma vez? Se eu estivesse na guerra, eu já deveria estar morto! Meu desempenho é digno de um recruta que nem ao menos sabe no que está se metendo!" 

Passei alguns segundos refletindo... 

"É o que está acontecendo comigo, não é? Isso tudo...", joguei minhas mãos pra cabeça, "como eu ia prever que isso tudo ia acontecer...? Não é como se alguém chegasse lá no treino e dissesse 'PESSOAL! Daqui uns anos, todo mundo aqui vai pra Chernobyl ser abandonado pelo governo e morrer!'", não sei como, mas sentei e fiquei suspenso no ar... 

"Não adianta resmungar... Estou preso aqui... Sozinho... E sem chance de sair..." Olhei para as minhas mãos, e me lembrei do dia do meu casamento, do momento em que trocamos alianças... "E pra piorar tudo... Minha esposa acha que sou um cretino... E eu vou morrer antes de ter a chance de pedir desculpas..." Afundei minha cabeça em minhas mãos, e respirei fundo... 
"Talvez eu mereça isso..." Eu senti que tinha chegado no fundo do poço... Minha vida estava uma bagunça, e, de repente, tudo aquilo que eu tinha conseguido não fazia sentido nenhum... Me senti um pedaço de lixo, um incompetente, um ocupador de espaço inútil... Porque aquilo tinha que acontecer comigo? Minha vida estava em perigo constante, e, se eu morresse ali, ninguém viria para pegar o que restou de mim... Eu seria apenas mais um caso de soldado desaparecido em combate... Só outro ninguém que morreu... 

Fiquei mergulhado nesses pensamentos, deprimido com minha situação... "Por que eu ainda estou brigando...? O melhor que eu faço é me deixar morrer aqui mesmo..."
Foi pensando nisso que uma luz acendeu à minha frente. Eu lentamente olhei para ela, e, em meio aos raios luminosos, eu vi uma silhueta... Eu a reconheci, e imediatamente lembrei de porque eu não me deixei abalar ainda... 

Senti minhas costas sendo roçadas em uma superfície ríspida... E comecei a voltar aos meus sentidos...

Acordei sendo arrastado pela cidade. Não sei o que estava me carregando, e, naquela hora, eu não ligava... Eu mal podia ver direito, ainda estava muito zonzo... A única coisa que consegui distinguir era o céu, que ficava cada vez mais escuro à medida em que nos movíamos... Tudo ficou escuro de novo, e me peguei dormindo. A diferença dessa vez, é que eu queria descansar. Precisaria das minhas energias pra sobreviver mais um dia...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 8: Nada a perder

Na esperança de encontrar Ivan, eu decidi retornar à escadaria onde ele caiu, e onde a águia havia nos procurado. Só que, eu passei alguns instantes parado em frente à porta daquela área, criando coragem para passar. 
Com uma mão na maçaneta e outra armada com minha pistola, eu estava de cabeça baixa, olhando para a pequena brecha da porta. Quando me preparei, abri-a lentamente, com o olhar fixado na área de cima. Ainda dava para ver o buraco que a águia fez, junto com um pouco de luz, mas ela não estava lá. Devagar, dei alguns passos à frente, e olhei para baixo. Estava bem escuro, então não sabia o que tinha lá... 

"Ivan?", sussurrei. Não ouvi resposta, então decidi descer alguns andares. Para não fazer barulho, me movi ao passo de uma lesma. "Ivan!", sussurrei outra vez. À medida em que eu ia descendo, ia ficando mais e mais escuro. Cheguei ao ponto em que não dava para ver nada. Foi quando me lembrei da lanterna do Time Bravo que eu tinha adquirido antes. Mesmo sabendo dos riscos, eu tinha de acendê-la para ver alguma coisa lá em baixo... 
Liguei-a, e continuei descendo. "Ivan! Você está aí?", continuava sussurrando. 
Mesmo indo tão devagar, eu consegui chegar ao final com certa rapidez... "Ivan!", chamei novamente. Mas, para minha surpresa, tudo o que havia lá eram escombros, tanto da escadaria, como de alguns outros objetos. Comecei a procurar por ele, com a ajuda da lanterna. Eu não encontrava nada lá, apenas escombros. 

"O que diabo?", me perguntei. Onde ele poderia ter ido?! Com aquela queda, mesmo que ele tivesse sobrevivido, teria de ficar imóvel por horas! Então, logo percebi que ele poderia ter sido devorado por algum animal. Redobrei minha atenção, e fiquei à procura de uma porta por ali. 
Após alguns segundos, eu a encontrei, e passei por ela. 

Eu havia chegado ao que parecia ser uma recepção bagunçada do prédio. Ali era mais claro, por conta das janelas, então desliguei a lanterna e a guardei em minha mochila, novamente. Olhei para o chão, em busca de uma trilha de sangue, ou algo que me desse uma pista de onde Ivan poderia ter parado. 
O silêncio predominava naquela sala, só sendo quebrado pelo som de minha respiração, e eu estava alerta para tudo. Puxei minha pistola, e dei alguns passos para a frente, na espera de que alguma coisa podia pular a qualquer momento. Controlei minha respiração para evitar fazer ruídos, e olhei ao meu redor. Nenhum animal à vista. 

Nesse momento, meu rádio fez ruídos novamente. Levei um susto, e imediatamente mirei na direção do som. Fiquei em choque alguns segundos, e percebi a fonte do som. Uma voz, muito familiar, pareceu me contactar:

"Vinstöffen?! Você ainda está vivo?"

"Ivan?!", exclamei, puxando o rádio. "Ivan! Onde você est-?!"

"Karl, se você ainda está vivo, me escuta." Fiquei em silêncio. "Não adianta tentar falar comigo. Eu esqueci de te avisar que, quando eu te achei na rua, eu vi o estado do seu rádio, e, parece que o microfone está com defeito..." Aquilo explicava mais do que deveria... "Mas, não podemos fazer nada sobre isso agora... Olha, se você estiver dentro do prédio, e vivo, você precisa sair daí. Aquelas coisas que vimos antes estão indo aí!" Arregalei os olhos, e olhei na direção da porta da frente. "Não tente sair pela porta da frente! Se você for por lá, elas vão te achar e vão atrás de você. Você tem que sair por um dos andares superiores, e pular de um prédio para o outro." Não esperei ele terminar a frase para obedecê-lo. Eu já estava de volta à sala da escadaria, e começava a subir rapidamente. "Não se preocupe com seu ferimento. Eu consegui dar um jeito nele pra você. Isso vai te permitir algumas acrobacias mais ousadas, como um salto. Vá para o segundo andar, e abra as cortinas da varanda." Eu ainda estava subindo as escadas, mas o segundo andar não estava muito longe. "Ah, merda! A águia, ela voltou!" Imediatamente ao terminar de falar, a águia soltou outro grito, que ecoou por toda a escadaria. Eu sabia o que ela queria, mas ela ia ter que me pegar pra conseguir. "Escuta, Karl! Com a exceção da águia, o prédio está limpo! Apenas vá para o segundo andar e abra as cortinas."

Abri a porta do segundo andar com um chute, corri na direção das cortinas, e abri-as com violência. Abri a janela, e eu me encontrei na varanda. Olhei pelos lados, e vi Ivan no topo de uma casa de dois andares, alguns metros à minha frente, e abaixo de mim. Logo à frente, também dava para ver os monstros, formando uma cortina escura pelo chão, vindo em nossas direções. 

"Karl!" ele gritou.

"Como eu desço daqui?!" A águia apareceu pelos céus, e nos viu. Olhei na direção dela, e voltei para dentro. 

"Karl! Não! Você tem que pular!"

Da sala daquele apartamento, peguei impulso, corri, pisei na grade da varanda, e pulei dela. 

Eu caí bem ao lado de Ivan, e amorteci a queda com uma cambalhota. Mas, todo o movimento me fez sentir uma ponta de dor no meu ferimento, o que me manteve no chão por mais alguns segundos. 

"Argh!"
"Karl! Você está bem?!"

A águia soltou outro grito, e começou a voar em nossa direção. 

"Não se preocupe comigo agora. Temos de sair daqui!", eu falei, com a pistola em mãos. 

Mirei na águia e dei dois tiros. Um deles acertou-a bem no bico, e a deixou um pouco tonta, fazendo-a cair. O outro passou por uma de suas asas, rasgando uma ou duas penas. 

Aproveitamos a distração para fugir. 

"Por aqui!", disse Ivan, me guiando até uma passagem ali no teto. "Vamos ficar nessa casa até que essas coisas sumam!"

"Mas eu acabei de atirar! Não acha que elas virão atrás de nós?" perguntei, enquanto entrava na passagem. 

Quando estávamos lá dentro, num lugar que me parecia um sótão, ele trancou a passagem com uma viga de madeira, e puxou uma pistola. "Essas coisas só reconhecem alguns sons. Apenas reze para que a águia não tenha visto a gente."

Fora os sons estranhos que aquelas coisas faziam, tudo estava quieto. Nos mantivemos agachados, e com nossos olhares e armas apontados para a passagem. Ficamos assim por minutos... Com o passar do tempo, concluímos que a águia havia nos perdido, e relaxamos.

Baixamos as armas, desabamos ao chão, e começamos a respirar de forma pesada. Ivan jogou as mãos ao rosto, enquanto eu baixei a cabeça e olhei para meu ferimento. Ele tinha aberto novamente, mas não era nada comparado ao que eu tive de aturar na noite passada...
Olhei para Ivan:

"Onde você estava? Com aquela queda, eu pensei que você..." perguntei, ainda respirando pesado por causa da tensão.

"Boa pergunta...", disse ele, se levantando, e já mais controlado. "Não faço ideia de como eu sobrevivi..."

Olhei para ele, tentando entender... O homem tinha caído de uns sete andares, e de cara ainda. Como ele sobreviveria àquilo, eu me perguntava. 

"Isso não importa agora", disse ele, erguendo a mão para mim, "Temos de ver esse seu ferimento... Ele abriu de novo, né?" Balancei a cabeça. Peguei a mão dele, e ele me ajudou a levantar. 

Naquele momento, eu analisei melhor onde estávamos... Aquele sótão parecia estar abandonado há muito tempo, e era um dos lugares mais organizados que eu vi desde que voltei para a cidade. Dei uma olhada rápida, me perguntando se havia alguma coisa que podíamos usar...

Ivan me levou até o andar de baixo, e, de lá, fomos para a cozinha. A casa inteira estava uma bagunça, com coisas como livros, móveis e eletrônicos jogados para todo lado. Não era diferente na cozinha, mas havia alguma coisa diferente nela, eu só não sabia dizer o que...
Segui as instruções de Ivan e sentei em uma cadeira que estava lá. 

"Fique aí, eu volto já.", disse ele. 

Enquanto eu esperava, observei melhor a cozinha. Eu vi vários talheres no chão, alguns pratos quebrados e uma louça que parecia ter sido abandonada enquanto era lavada. Os armários, que ficavam próximos de uma janela com cortinas bem sujas, estavam com as portas quebradas, e vários itens estavam expostos, incluindo materiais de limpeza. Ao olhar com mais atenção, eu havia notado a presença de um item que parecia de uma multinacional americana. 

"Hã?"

Antes que eu pudesse ir mais a fundo, Ivan entrou apressadamente no cômodo. Ele fechou as cortinas das janelas, e veio na minha direção. 

"Fique quieto", sussurrou ele, "Tem muitas coisas lá fora..."

De fato, o som que aqueles... monstros... faziam ainda estava no ar, e com bastante intensidade. 

Ivan puxou algumas ataduras extras e foi amarrando-as no meu ferimento. 

"Ei, espera um pouco", falei, segurando um dos braços dele. "Essas coisas não estão infectadas, não?"

Ele olhou para mim com um olhar de reprovação, como se eu devesse saber de alguma coisa que não sabia. 

"Você acha mesmo que o tempo que esse ferimento ficou aberto, você não ficou exposto à radiação?"
Me calei e deixei ele continuar. Comecei a pensar, e vi que ele tinha razão... Claro, não havia nem um dia desde que eu cheguei em Chernobyl, e só tinham algumas horas desde que eu levei aquele tiro de Caleb... Mas, do mesmo jeito, eu ainda estaria infectado, mesmo que em uma parcela menor. Foi quando olhei para Ivan, e mais uma vez percebi que ele estava sem máscara. 

"Ivan, o que diabo aconteceu com tua máscara?", perguntei.

"Eu já te falei: ela quebrou!", disse ele, um pouco irritado.

"Há quanto tempo isso?"

"Não sei... Dois, três dias..."

"Você ficou exposto esse tempo todo?!"

"O que você tem com isso?!"

"Ivan, pelo amor de-!", me contive, para não falar mais alto. "Você sabe muito bem onde estamos, e porque temos que usar esse equipamento todo!" ele terminou de pôr as ataduras. "Essa radiação pode nos matar" ele se aproximou em uma cadeira bem próxima à minha, "e você vem me dizer que está com o rosto exposto a dois dias sem máscara?!" ele olhou na direção da janela. "Me escuta, se vamos sair daqui", pus a mão no ombro dele, "nós temos que sair limpos!"

"Você acha que eu não sei disso?! Eu estou exposto Karl!", disse ele, sem olhar para mim. "A radiação não é algo que o corpo simplesmente limpa! Ela fica até o dia em que vamos morrer!" ele se afastou. "Eu já tentei reusar meu capacete, mas ele ficou completamente destruído!", ele se sentou novamente, de cabeça baixa. 
"Escuta... Não importa quantas vezes você me diga o contrário... Eu sei, eu tenho certeza, de que eu não vou sair daqui vivo... E eu nem ligo mesmo... Não tem mais nada pra mim lá fora..."

"E quanto à sua esposa?! Seus filhos?! Você disse que eles-!"

"Eles estão mortos, Karl!", disse ele, levantando a cabeça, revelando as lágrimas, e me deixando de olhos arregalados.

Eu não tinha falado disso antes, mas o médico Ivan Brokóvski tinha uma esposa e três filhos. De todos os homens que conheci em minha carreira na KGB, ele era de longe o que mais idolatrava sua família. Todas as ações dele iam para ajudar aqueles que ele amava... 

Um homem que constrói sua base em sua família... O que é esse homem quando é deixado sozinho no mundo? 

"O que..." falei, depois de alguns segundos em choque, sem saber como reagir. "Ivan... O que aconteceu?"

"Foram eles, Karl... Os caras de poder!", disse ele, com a voz tremida, em uma mistura de tristeza e fúria. "Você sabe, eu não queria ficar! Eu bati o pé, e consegui sair dessa cidade!", ele gesticulava com cada palavra, "Só que eles vieram atrás de mim! Exigiram que eu voltasse, porque eles não queriam que essa porra toda vazasse! Só que eu não queria voltar, Karl! Eu não queria... Meus dois melhores amigos foram devorados na minha frente por um rato gigante! Eu disse que eu não ia voltar, e eles me amarraram, me amordaçaram, e mataram a minha família, na minha frente!"

Enquanto ele falava isso, me lembrei do dia em que fui convocado de volta... Nunca me ocorreu de saber porque eles foram à minha casa... Sim, eles me avisaram, mas nunca disseram o porque... 
Agora fazia sentido. Eles estavam tendo certeza de que todos os soldados que vieram para cá voltassem e ficassem, pra que ninguém revelasse o que estava acontecendo. Se alguém se negasse a voltar, eles matariam nossas famílias, pra que fôssemos sem motivos para sair novamente. Mas... Se aquele era o caso... O que ia acontecer se conseguíssemos abater todos os animais? O que aconteceria se completássemos nossa missão?

"Eles mataram... todo mundo... Me jogaram num avião e, agora, eu tô aqui.", disse ele, se segurando para não chorar mais alto.

O trauma de ver seus entes queridos morrerem na sua frente... Era aquilo que causava os distúrbios de Ivan... Comecei a me perguntar se ele chegou a participar de algumas missões mesmo em Chernobyl, ou se ele tentou fugir e acabou se perdendo.
Meus pensamentos foram para Ivana... Se eu não tivesse retornado...? Se eu tivesse feito como Ivan?

Olhei para ele, e pus minha mão no seu ombro.

"Ivan..."

Ao dizer isso, o som feito pelos monstros parou. Nós dois imediatamente nos levantamos e puxamos nossas armas. 

Do silêncio, pudemos discernir sons que pareciam com passos pesados, e de algo metálico sendo arrastado pelo chão... Eu e Ivan murmuramos ao mesmo tempo:

"Viktor."

Os passos pararam, e tudo ficou quieto novamente. Fiz sinal para que Ivan se abaixasse, e me movi sigilosamente até a janela. Apenas abri um pouco da cortina, para ver o que estava acontecendo, e imediatamente fui recebido por um tiro de espingarda que, por algum milagre, eu consegui desviar. 

"Se abaixa!!" gritei.

Nós nos jogamos ao chão, e ouvíamos tiros sendo feitos um após o outro. Vidro caía por todos os cantos, assim como pedaços de tecido e de madeira. Pusemos nossas mãos na cabeça.

"Porra!", xingou Ivan. 

Eu estava contando a quantidade de tiros, e, naquele momento, ele deu seu sétimo tiro. Ao ouvir o estalar da arma para o oitavo tiro, preparei meu corpo. Quando o tiro se deu, usei o que poderiam ser reflexos felinos para me levantar, mirar na direção do inimigo e atirar no que eu entendi ser sua cabeça. 

Quando a bala o acertou, sua cabeça recuou um pouco, e ele ficou imóvel. Fiquei na mesma posição, com a arma preparada, e comecei a retaliar, dando um total de mais três tiros no que deveria ser o queixo dele.

Por alguns segundos, ele ficou imóvel... Mas, então, sua cabeça baixou, e ele olhou diretamente para mim. Com um grito aterrorizante, ele ergueu o seu "braço" metálico e veio em nossa direção. 

"KARL!", gritou Ivan.

Mantive meu posto, e esperei ele se aproximar. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A Cidade Fantasma - Capítulo 7: Nostalgia

A águia havia conseguido arrombar a porta, mas ainda era muito grande para passar por ela. Então, ela tentava alargar a passagem. Olhei para os meus arredores, em busca de algo que eu pudesse usar. Eu precisava de minhas duas mãos para segurar a alça, e não tinha coragem de tentar pegar algo da mochila. Foi quando eu notei que, alguns metros abaixo, a escadaria ainda estava intacta. 
Tentei analisar a situação. Se eu pulasse, era bem provável que aquela porção das escadas seria destruída também. Nesse momento, ouvi outro grito da águia, que estava começando a quebrar a parede. Olhei novamente para as escadas, fechei os olhos, e comecei a balançar na alça, torcendo para que ela não quebrasse. Quando eu tinha velocidade suficiente, soltei e fui em direção à escada. 
Assim que a toquei, a porção na qual eu caí desmoronou, mas eu pude me segurar em uma área que ficou estável. 
Me ergui e, novamente, olhei para cima. A águia estava com sua cabeça para dentro, sempre tentando abrir a parede. Pensei em puxar minha pistola para atirar, mas acabei mudando de ideia. Eu iria precisar da munição mais à frente, sem dúvida. Comecei a descer as escadas o mais rápido que pude. 

Assim que encontrei uma porta para uma área diferente do prédio, entrei sem hesitar. A fechei assim que passei por ela, e me apoiei nela. Respirei fundo, e lembrei do que aconteceu com Ivan. Baixei a cabeça. Com aquela queda, eu logo pensei que ele havia morrido. Eu estava sozinho de novo. Comecei a lembrar do comportamento dele. Quanto tempo ele passou sozinho, mesmo? Vinte dias? Tanto tempo aqui deve ter afetado a cabeça dele. E não demoraria muito para que o mesmo acontecesse comigo, eu tinha certeza. 

Tentei me recompor. Eu ainda estava tremendo de tudo aquilo... Comecei a controlar minha respiração, tentar fazer o coração bater mais devagar. Consegui controlar minhas emoções naquele momento. O terror estava amenizado, e pude raciocinar direito... 

"Tudo bem, Karl. Tudo bem..." falei pra mim mesmo. "Tá tudo bem... Tá tudo bem... Você entrou em um lugar escuro e que você não conhece... O que você faz nessa situação?" levei minha mão até a pistola "Você vai e vê se tá tudo limpo..." disse eu, enquanto, segurando minha arma, dava alguns passos pra frente, e abria a próxima porta que estava ali.

Eu tinha chegado em um apartamento simples. Estava uma bagunça, e das grandes. Coisas espalhadas por todos os lados, muitos cacos de vidro no chão e os móveis afastados e derrubados, até. Presumi que foi por causa da confusão no dia do acidente. Além disso tudo, estava escuro. Olhei na direção de umas janelas, que estavam no meio da sala de estar (que era onde eu havia entrado), e vi que estavam cobertas por cortinas. Por um instante, pensei em abri-las, mas, ao pensar melhor, percebi que o ideal seria, primeiro, checar se o apartamento estava seguro. 

Da sala de estar, segui para a primeira porta que vi. A mesma levava para um quarto abandonado. Dei uma checada rápida nele, e, além dos móveis básicos: uma cama, uma cômoda e um armário, não encontrei mais nada. Decidi olhar debaixo da cama, para ter certeza. Me agachei e olhei, mas, do mesmo jeito, não encontrei nada. Quando fui me levantar, usei a cama como suporte. Foi quando eu senti a densidade do colchão. Fiquei ajoelhado, olhando para ele. Eu havia notado que ele era muito parecido ao que eu tinha em Moscou. O mesmo no qual eu dormia com minha esposa, Ivana...

Me peguei lembrando dela, e dos momentos que tivemos juntos. Me senti nostálgico... Comecei a recordar...

Ivana e eu éramos casados há uns cinco anos. Nos conhecemos durante a palestra de apresentação da universidade que cursávamos quando éramos mais novos. Naquele dia, eles nos pediram para que nos misturássemos para nos conhecermos melhor. Acabei dando de cara com ela. Foi uma conversa dolorosa, pra dizer o mínimo. Eu era muito tímido, e ela, mesmo sendo muito amigável, também odiou a ideia. Só que, mesmo depois disso, ela quis se redimir tentando me conhecer melhor, sem que ninguém a obrigasse a fazer isso, isto é. O problema é que eu sempre fui muito difícil de interagir, então, ela precisou de vários meses até que pudesse ficar íntima comigo. A essa altura, acabamos nos apaixonando um pelo outro. Não demorou muito para que começássemos a namorar e, eventualmente, noivar. 

A noite que eu mais lembro foi a de nosso casamento. Mais precisamente nossa noite de núpcias. Nós estávamos dançando a uma música que tocava no rádio. Estávamos abraçados quando ela me disse algo que nunca vou esquecer:

"Agora, nós somos parte de algo maior do que nós mesmos... E, não importa o que aconteça, não importa que obstáculos estejam à nossa frente, nós não podemos quebrar isso."

Ela sempre era tão segura, tão cheia de si, mas falou isso com uma voz tremida, com medo de que  eu não a compreendesse. Mas tudo o que eu fiz foi segurar as mãos dela e responder:

"Nada vai nos separar. Eu prometo isso a você."

Em resposta, ela sorriu e me abraçou. E continuamos a dançar, mais devagar dessa vez... 

Perante essa lembrança, não pude deixar de sorrir. E, então, lembrei de como estávamos antes do meu retorno para Chernobyl... No final das contas, minha promessa não valeu nada... Estávamos nos separando. Mas, como eu iria prever tudo aquilo que estava acontecendo? De todo jeito, eu podia ter dito alguma coisa... Ao menos um "adeus"... "Até mais", talvez? E lá estava eu, arrependido por não ter tratado bem a minha esposa. 
Eu tinha que sair dali, pra pedir desculpas, pra implorar, se fosse preciso... 

Eu já podia me ver de volta em Moscou, abraçando Ivana, pedindo desculpas, caindo aos seus joelhos e implorando perdão... 

Me peguei olhando para o colchão de novo... Tudo estava silencioso... 

A ideia de voltar para Ivana era a esperança que eu precisava. Independente do que acontecesse, eu ia sair dali vivo e bem. 
"Engraçado..." pensei. "Quem diria que algo tão bom poderia vir de um lugar como esse..."

Saí do quarto e olhei na direção da janela com as cortinas. Havia um espaço entreaberto entre elas. Olhei através dele, e me perguntei se ela estava pensando em mim também. 
Por uma fração de segundo, eu a imaginei, sentada na cama, com a cabeça baixa. Baixei minha cabeça e olhei na direção da porta da frente. Era hora de voltar à realidade. 

domingo, 22 de setembro de 2013

Cidade Fantasma - Capítulo 6: Não sabemos o próximo passo...

Eu e Ivan estávamos escondidos dentro de um armazém. Ele olhava insistentemente pelas longas janelas de vidro manchadas da parte da frente, enquanto eu reunia alguns suprimentos, e procurava por equipamentos. 
Coloquei o que pude encontrar em uma mesa, e analisei com mais cuidado o que achei. Na mesa, estava um facão, um rolo de fita adesiva, um serrote, alguns pregos e martelos e, surpreendentemente, uma espingarda em bom estado e com munição. Infelizmente, isso era tudo o que eu havia encontrado. O resto da loja parecia ter sido esvaziado, talvez durante a confusão no dia em que tudo deu errado...
Eu decidi pôr tudo na mochila, já que não sabia o que o futuro guardava. 

Ivan olhava fixamente para o lado de fora, como se estivesse vendo alguma coisa fora do normal. Olhei para ele, e, pela primeira vez, comecei a pensar em seu comportamento. Desde que nos reencontramos, Ivan parecia assustado, nervoso... Foi quando notei novamente que ele estava sem seu capacete, e me perguntei se isso tinha alguma relação com seu comportamento. Comecei a questionar se eu deveria estar mesmo ao lado dele. Por um lado, ele não parecia estar muito são das coisas, o que era ruim; por outro, ele era um médico treinado, e, na minha situação, eu não podia negar isso... 
Eu iria precisar de um tempo para pensar a respeito disso tudo, então, repeli os pensamentos ali. 

Enquanto eu dava outra olhada na mochila, para ter certeza de que estava tudo pronto, Ivan falou cochichando:
"Quanto tempo você acha que vai demorar até que nos achem?"
Olhei para ele, para ver que nem mesmo o olhar tinha mudado de posição. 
"Se for depender de mim", disse, fechando a mochila, "eles não vão nos achar tão cedo...".

Ivan não parecia muito confiante com aquela resposta. Olhei novamente para ele, e vi que ele estava tremendo. 
Pus a mochila nas costas, e pus a mão em seu ombro, para que pudéssemos continuar andando. Ao sentir o meu toque, ele imediatamente se levantou e tentou me esfaquear no pescoço, gritando, tudo em uma fração de segundos. Se eu não tivesse o treinamento que tive, eu não teria o reflexo para segurá-lo.

"Que droga é essa Ivan?!", gritei eu, ainda com a lâmina da faca mirada em minha garganta. 

Ele precisou de alguns instantes para parar com a força e soltar a faca. Dei um empurrão nele, e ele caiu sentado na mesma cadeira. Ele pôs as mãos no rosto, e baixou a cabeça:

"Desculpa, eu... Eu me assustei", disse ele. 
"Fique mais atento", respondi, "Da próxima vez, você pode acabar matando alguém."

Silenciosamente, fomos para o lado de fora, com ele na frente. Agindo daquele jeito, eu não o queria fora da minha vista. Paramos logo em um beco, e vimos se podíamos seguir em frente. Com o céu mais claro, seria mais fácil de interceptar os animais, mesmo que ao custo de estarmos visíveis, também... 

Ao ver que não haviam obstáculos, seguimos em frente, silenciosa e rapidamente. Depois de alguns metros, nos aproximamos de um pequeno prédio. Nos certificamos de que era seguro e nos pusemos a escalá-lo, pela escadaria que ficava em uma parede. Ivan chegou primeiro, e eu tive de ir mais devagar por causa do meu ferimento. 
Lá de cima, analisamos as possibilidades. 
Daquele ponto, podíamos ver parte considerável da cidade e, então, começamos a traçar um plano. 

Apontei para um lado e perguntei:
"O que tem pra lá?"
"Mais daquelas coisas... Estive lá com o Krum, e foi lá que encontramos elas pela primeira vez. Temos que ficar longe dali o máximo que pudermos."
Passei a mão na nuca, e tentei reorganizar as ideias... 
Ivan olhou em uma direção, e percebeu algo que o deixou fixado. Olhei na mesma direção, e vi mais daquelas coisas, rastejando pelo chão. Eu não havia entendido a razão de elas fazerem aquilo, então achei que elas fossem daquele jeito. Foi quando Ivan chamou minha atenção para algo que estava em um teto próximo ao nosso. 
Antes que eu pudesse olhar com atenção, uma sombra pulou do prédio e voou na direção das coisas. Nessa manobra, ela pegou uma vítima, e, imediatamente, foi ao chão para devorá-la. Foi quando eu pude distinguir o que ela era. 
Uma enorme ave de rapina, me parecia uma águia de cauda branca, cheia de cicatrizes, e algumas manchas de sangue próximas ao bico e nas penas do peito. E o pior: ela ainda era maior do que o morcego que enfrentei no primeiro dia. Fiquei estarrecido. Como não tínhamos visto aquilo antes?
"Temos que sair daqui!", disse Ivan, ao mesmo tempo em que a ave olhou para nós, lá de baixo, "Agora!". Corremos em direção às escadas, mas eu percebi que ainda seríamos presas fáceis dela. Então, acabei decidindo que deveríamos ir pela parte de dentro do prédio. 

"Por aqui!", disse eu, puxando Ivan e mostrando a ele a entrada disponível ali no teto. Corremos em direção a ela enquanto ouvíamos os gritos que a águia fazia, e o som de bater de asas. 
Ao entrar, fechamos a porta e começamos a descer as escadas rapidamente. Enquanto descíamos, eu pude ouvir os sons das garras da águia arranhando a porta, e tentando abri-la. Apressamos o passo. Com toda essa pressão, não notamos que a escadaria era feita de metal, e que estava em péssimas condições. 
Enquanto corria, Ivan acabou escorregando na escada e caiu com tudo. Isso foi o suficiente para quebrar toda a estrutura da escadaria. 
Ivan atravessou os degraus, e caiu na escuridão abaixo dele. Eu me segurei na alça que estava bem ao meu lado, enquanto todos os degraus se desmontavam, e fiquei pendurado. 
Além do ruído terrível de metal sendo dobrado, tudo o que eu ouvi foram os gritos de Ivan enquanto ele caía. 
"IVAN!", gritei, mas, como todo aquele barulho, não havia surtido muito efeito. 
Nesse momento, eu ouvi um outro som, dessa vez de algo sendo arrebentado. Olhei para cima, e descobri que a águia conseguiu arrombar a porta, e pôs sua cabeça para dentro do edifício. Imediatamente, ela olhou para mim. 
Tudo o que eu podia fazer, pelos menos ali, era pensar em um plano, e rápido. 

sábado, 7 de setembro de 2013

A Alma do Lázaro (resenha)

"José de Alencar é um dos mais renomados escritores da história do Brasil e, definitivamente, dispensa apresentações. Ele é o autor de vários livros clássicos, como A viuvinha, Senhora, Lucíola, Cinco Minutos, O guarani, e, é claro, Iracema.
Mesmo com uma extensa linha de publicações, a obra de Alencar é bem conhecida e respeitada pelo público.

Mas, mesmo com tudo isso, não é de surpreender que muitos se espantem ao se ouvir que existia uma obra do autor perdida no tempo.

A Alma do Lázaro foi uma das primeiras histórias do autor, sendo publicada no segundo volume da coletânea Alfarrábios: crônica dos tempos coloniais. Por algum motivo, a história não pôde passar adiante como as demais, e acabou caindo no esquecimento por mais de 100 anos.
Ela foi redescoberta somente em 2010, e finalmente republicada em 2011.

Antes de tudo, é importante deixar claro que essa história ainda era marco dos primeiros passos do que seria um grande escritor. Por conta disso, a obra sofre a falta de alguns elementos marcantes de Alencar, como a sua tendência à descrição detalhada de objetos e situações.

A história ocorre dividida em duas partes, ambas tomando lugar em Olinda, Pernambuco, do século XVIII.

A primeira parte, intitulada de 'A Alma Penada', conta a história de um jovem estudante (cujo nome não é especificado) da academia de Olinda que, geralmente à procura de inspiração, caminhava durante a noite pela cidade. Em uma dessas caminhadas, ele conheceu Antônio, um velho e humilde pescador. Enquanto conversavam, Antônio revela a existência de um pobre homem, já falecido, chamado Francisco, vítima da infame doença da lepra, e do diário que ele escrevia. Curioso com o mesmo, o estudante decide recuperá-lo e publicá-lo, para que o mundo conheça a dor de Francisco.

A segunda parte, apropriadamente intitulada 'O Diário', conta as desventuras de Francisco, sob o ponto de vista do mesmo. Diferente da primeira parte, que preza pelo suspense e pela pena, esta tem uma abordagem bem trágica e pessimista, já que ela revela o preconceito e o tabu que Francisco tem de enfrentar. Em meio a tudo isso, ainda surge espaço para esperança, quando o homem se torna vítima de uma paixão platônica por Úrsula, uma jovem habitante de Olinda, que nem ao menos sabe de sua existência.

A Alma do Lázaro preza por uma narrativa de cunho trágico e pessimista, e isso funciona bem com a trama que ela oferece. Esses tons sombrios ajudam a deixar a história tocante o suficiente para que o leitor fique na torcida por um final improvável.
No final das contas, o livro se utiliza de uma narrativa simples e fácil, para contar uma história trágica, mas que ainda é capaz de ensinar lições valiosas.

É difícil não recomendar esta obra. Apesar de ainda não conter todo o talento do qual José de Alencar era capaz, não deixa de ser uma história tocante e muito bem produzida. Ela é totalmente recomendável para os fãs de Alencar, e para os da literatura em geral."

Resenha escrita originalmente como um teste para a cadeira de Leitura e Produção de Textos Acadêmicos, do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. A versão acima contém leves alterações... 

Fonte da imagem

domingo, 4 de agosto de 2013

Cidade Fantasma - Capítulo 5: O Renegado

Armas em mãos, o ferimento começava a doer de novo, e aquela situação me dava calafrios. Se aquelas coisas não me matassem, meu corpo faria o serviço.
Eu me sentia dentro de um filme de terror barato. Eu estava cercado, e não conseguia puxar o gatilho. Minhas mãos tremiam tanto que eu não conseguia nem mirar direito.

A dor do ferimento tinha ficado mais forte de novo, e eu comecei a ofegar. Dei dois passos pra trás, e senti uma coisa me pegando. Era um deles. Eu imediatamente me virei e dei uma cotovelada onde deveria ser o rosto dele. A força foi tão grande que a cabeça dele saiu voando, e o corpo desabou à minha frente. Eu fiquei em choque por alguns instantes, até que outro tentou me puxar por trás. Eu respondi com outro golpe, e a mesma coisa aconteceu. Parei por um segundo, e tive uma ideia.
Se nenhum deles tinha estrutura física pra aguentar uns golpes, eu tinha a chance de sair dali. Respirei fundo, e comecei a correr em uma direção, derrubando cada um deles, usando socos, ou o próprio fuzil pra ganhar passagem. A minha barriga doía de novo, mas eu não tinha tempo pra isso.

Cheguei a um lugar em que haviam poucos deles, então parei de lutar, e apenas continuei a correr.
Eles tentaram me seguir da maneira que podiam, mas não pareciam mais tão interessados em mim. Acho que um alvo que tinha como fugir não era tão apetitoso.
Corri até minhas pernas cansarem e meu corpo inteiro latejar com a dor. Comecei a ficar preocupado, então me escondi em uma esquina e fui checar o ferimento. Já estava tudo sujo de sangue. Eu havia atravessado meu limite.

A dor começou a tomar conta do meu corpo, a visão falhava, e eu não tinha como me manter de pé. Caí sentado no chão, com a respiração pesada. Fiz um esforço para pegar a mochila, que estava em minhas costas, mas isso abriu o ferimento um pouco mais, e a dor aumentou.
Tentei manter a calma, mas não dava...
Meus sentidos me abandonaram, e eu caí no chão, desmaiado,  mais uma vez...


Minha cabeça doía quando eu acordei. Eu estava deitado em uma maca, no que parecia ser um corredor de hospital abandonado. As luzes ainda funcionavam, embora ficassem piscando muito...
Tentei me levantar devagar, e olhei pro ferimento que, para minha surpresa, estava enfaixado novamente. Pude notar que essa era a única coisa que estava diferente. Eu ainda estava usando meu equipamento, então...

Devagar, comecei a me levantar, dessa vez pra ficar de pé. Foi quando eu ouvi uma voz vindo do outro lado do corredor.
"Ora, ora, ora, Sr. Vinstöffen... Ainda entre os vivos?"
Eu demorei um pouco para reconhecer aquela voz.
"Ivan...?", sussurrei.
"Bom saber que você ainda não bateu as botas.", disse ele, se aproximando.

Ivan era um dos soldados que ficou patrulhando a cidade desde o dia do acidente. Ele era um médico, e sabia lidar com situações extremas. Eu não havia encontrado-o no acampamento, antes, o que me fez supor que ele não tinha sobrevivido. Pelo que eu soube, ele havia sido mandado em uma missão de reconhecimento com um pequeno grupo, mas eles perderam contato na mesma noite. 

Consegui me levantar, e olhei em sua direção. Arregalei os olhos ao vê-lo sem máscara de gás.
"Achei você bem mal no meio da rua.", continuou, pegando um objeto pequeno que não pude distinguir naquela hora de uma mesa abandonada, "Você ficou doido ou o que? Não sabe o que aquelas coisas podiam fazer com você?"
"Desculpe.", disse eu, ainda atordoado, "Eu devia ter adivinhado...".
"Tudo bem. Eu não devo esperar que você saiba o que aquelas coisas eram."
"Você sabe de alguma coisa?"
Apenas com um olhar, Ivan me respondeu que sabia bem mais do que aquelas coisas. Fiquei temeroso em ouvir uma história completa, mas ele disse de todo jeito.
"Lembra quando vinhemos pra cá pela primeira vez?", eu confirmei com a cabeça, "Eles estavam evacuando as pessoas, né?", ele pausou pra dar uma risada leve, de sarcasmo, "Parece que nem todo mundo...", ele parou para puxar a garrafa de vodca que ele tinha pego antes para dar um gole, "...Nem todo mundo saiu.".
Fiquei sem reação, apenas olhando pra ele.
"Aquelas coisas...", sussurrou, "elas eram nossas compatriotas, Karl.", puxou mais um gole, "nossas camaradas...", outro gole, "nossos irmãos!", finalizou ele, com lágrimas em seus olhos. "Aquelas, Karl, eram pessoas, que queriam sair da cidade. Tinha mulheres e crianças ali!".
Enquanto ele puxava a garrafa pra beber mais, eu refleti sobre aquilo tudo... Baixei os olhos, e fiquei pensando.
Quando Ivan terminou a garrafa, ele parecia um pouco mais centrado. "Desculpa, Karl...", disse ele, passando as duas mãos no rosto. "Eu não devia estar chorando por essas coisas... É só que... É tão... Tão..."
"Injusto...", finalizei pra ele.
"É..."

Fiquei imaginando o quão horrível devia ter sido para aquelas pessoas. Morrer por algo que você não entende, e que não tinha nada a ver como você. Me enchi de pena naquele instante... 

Ao ver que Ivan estava mais recomposto, perguntei a ele:
"Ivan... Cadê sua máscara?"
"Ela quebrou.", disse ele, casualmente. "Um dos animais me acertou no rosto e jogou a máscara fora."
"Você sabe o que acontece quando ficamos sem máscara, aqui?", perguntei a ele.
Antes que houvesse resposta, um som de metal sendo retorcido ecoou pela sala, e nós dois olhamos em sua direção. Olhei para Ivan, e sua expressão era de terror absoluto.
"Não... Aqui não...", murmurou ele.
"Ivan?"
Outro som ecoou, de algo metálico e pesado sendo arrastado.
"Não..."
"Ivan?!"
"NÃO!"
Ele saiu correndo, e eu fiquei parado, sem entender o que estava acontecendo.
O som começou a ficar mais forte, bem mais insuportável e, junto a ele, um som de passos pesados começou a rondar também. Puxei a pistola que ainda estava comigo, e mirei na direção do barulho, esperando que algo aparecesse no corredor.

Não demorou para que uma figura humana aparecesse no corredor. Ela não parecia natural. Era maior do que um homem comum, parecia bem mais forte também, e, no lugar de um de seus braços, estava o que parecia ser o cano de uma espingarda. "Meu... Deus...", murmurei.
Como se tivesse ouvido meu murmuro, o monstro olhou pra mim, ainda com máscara de gás e o que parecia ser o uniforme da KGB. Ele estava longe, mas pude ler o que estava escrito na identificação dele.
"Viktor?!", falei.
Com um grito assustador, ele ergueu seu braço e começou a correr em minha direção. Não precisei de outro sinal pra dar o fora dali.

Apesar de meu ferimento ter sido tratado mais efetivamente, ele ainda me impedia de correr muito. Eu sabia que não podia correr por muito tempo. Aquela coisa iria me pegar. Eu tinha que sair dali, me esconder...
Já ofegando, eu virei na primeira entrada que vi, e me joguei dentro de uma porta que estava por lá, fechando-a imediatamente.
Pus meu corpo contra a porta e fiquei parado, esperando... O monstro chegara no corredor, e ficou parado por alguns instantes. Foi quando eu comecei a ouvir os passos lentos e pesados dele. Por um segundo, ele parou em frente à minha porta, e ficou lá. Dava para ouvir a respiração pesada dele. Todo músculo do meu corpo estava tenso. Ele ficou lá por mais alguns instantes, e seguiu caminho, o que me fez relaxar...

Depois de alguns minutos, lentamente abri a porta, e olhei para os lados, para ver se a criatura ainda estava por perto. Sem ver sinal dela, segui para o lado de fora do hospital. 
Antes mesmo de sair, eu já pude notar que havia amanhecido. O céu estava muito nublado e escuro, então não soube dizer que horas seriam aquelas. Logo adiante, pude ver Ivan. 

"Vinstöffen?! Graças a Deus, você está bem!".
"Aquela coisa...", disse eu, interrompendo-o, "O que era aquilo?"
Ele me fitou com uma expressão séria. "Acho que você sabe quem aquilo era." Fiquei em silêncio.
Olhando para os lados, Ivan deu alguns passos e comentou:
"Nós temos que voltar para o acampamento e tentar restabelecer comunicação. Antes que nos encontremos com eles."
"Não tem acampamento.", ele olhou pra mim, em desespero, "Se eu estou certo, Viktor destruiu tudo por lá."
"E quanto à antena?!", perguntou ele, segurando meus ombros com força, ao que eu apenas balancei a cabeça. Ele me soltou e pôs a mão na cabeça, fazendo-a deslizar pela nuca. "O que fazemos agora?"
"O que eu sei é que temos que sair daqui. Se ficarmos parados, seremos presas fáceis."
"E nós vamos pra onde? Não sei se você percebeu, mas aquelas coisas estão em todos os lugares."
"Faça o que você quiser", disse eu, seguindo em uma direção aleatória, "se quiser ficar aqui, tudo bem, mas eu pretendo encontrar um lugar mais seguro". Com isso, saí andando.
Ivan ainda passou alguns momentos parado, mas acabou decidindo se juntar a mim.

Eu não sabia para onde ir, mas, de uma coisa eu tinha certeza: onde quer que eu fosse, eu não podia ficar confortável por muito tempo... 
Eu olhei uma segunda vez para o céu, e notei algo que não tinha notado antes: as nuvens ficavam mais escuras na direção da usina...